I
Acabara de assistir o filme Alta Tensão, com Mel Gibson, e
minha emoção estava à flor da pele. Sentia uma enorme compaixão pelo personagem
Rick Jarmim, uma homem solitário, doce, sofrido, mas de um humor que no fundo
servia para driblar sua dor emocional. Seus olhos transbordavam solidão,
carência e medo. E fiquei imaginando o quanto o Rick carregava do próprio Mel. A
dor emocional? A carência? Jamais saberei. E imaginei o quanto gostaria de ter
um Rick na minha vida. Fiquei parada
olhando a imagem de Mel/Rick congelada na tela da minha TV, extasiada e me
perguntando como classificavam aquele filme de comédia policial se por trás da
aparência existia um enorme drama. Assim fiquei por alguns segundos. Depois
desliguei o DVD, guardei o filme, mas a alma do Rick permanecia presente nas
minhas emoções.
A arte
imita muito a vida por mais fantasiosa que seja. E eu fiquei imaginando quantas
pessoas no mundo perdiam sua identidade real por ene motivos, quantas pessoas
se afastavam de si mesmas por razões inimagináveis, quantas deixavam de viver
seus sonhos. De repente também me questionei por ter achado tanta graça em
vários momentos, de ter rido de chorar, de ter, enfim, me divertido apesar de
perceber o drama escondido no sorriso. Foi então que me dei conta de que o
mérito vinha da interpretação de Mel Gibson e Goldie Hawn, que souberam
encontrar a medida certa para “esconder” o drama na comédia. Sozinha em meu
quarto, bati palmas aos dois. Depois me deixei levar pela imaginação.
Transportei-me para o shopping, imaginando-me a andar
tranquilamente admirando as lojas quando, ao passar em frente a um corredor,
onde ficavam os banheiros, escutei o som de um gemido. Era um dia de semana e
não havia muito movimento, por isso podia escutar. Dirigi-me em direção àquele
gemido abafado e, sem pensar, entrei no banheiro masculino. Não havia
aparentemente ninguém, não fosse aquele som de dor ser mais nítido. Olhei então em direção ao mesmo e me deparei
com um homem caído, pode-se dizer embaixo da pia, todo ensanguentado. Rick
Jarmim. Mas na minha fantasia estava, pela primeira vez, diante dele. Fitei
aquele homem que se contorcia e me olhava pedindo ajuda, com os olhos avermelhados
pelas lágrimas, mas de um azul lindo, e cheia de aflição saí em busca de
auxílio. Pouco depois ele era colocado numa ambulância e eu o acompanhava. Ele
todo tremia, arfava, mas seu olhar não saía de sobre mim. Parecia ao mesmo
tempo assustado e aliviado. Senti que me queria falar alguma coisa, mas a dor
não permitia, era um esforço inútil. Entretanto creio ter adivinhado seu
pensamento e, passando-lhe carinhosamente a mão na testa disse-lhe: Fica calmo.
Vai dar tudo certo. Ficarei com você. E minhas palavras lhe tiraram um suave
sorriso; o sorriso mais lindo que havia visto até aquele momento. Logo em
seguida encostei bem o rosto junto ao seu e perguntei num sussurro o seu nome,
pois iria precisar para dar entrada no hospital. Sua resposta foi quase inaudível,
mas compreendi. Rick Jarmim. Sorri com ternura e tornei a acarinhar-lhe.
No hospital quiseram o endereço dele e, sem saber o que
dizer, com o coração quase a sair pela boca, dei o meu endereço e menti ao
dizer que era da família, era sua mulher. Por dentro sabia que estava me
arriscando demais porque não sabia quem ele era, qual o motivo de terem lhe
dado um tiro, batido tanto nele, se ele era um bandido ou não. No entanto, sei
lá, nenhuma daquelas informações, no fundo, me eram importantes. Relaxei.
Estava ajudando um ser humano em risco de vida. E apesar de estranho, pelo fato
de não conhecê-lo, minha preocupação com sua vida era enorme. De certo modo
sentia empatia por ele.
Passados mais ou menos uns minutos uma enfermeira veio até
mim e disse que ele seria encaminhado ao centro cirúrgico mas que desejava me
ver antes. Acompanhei-lhe.
- Oi.
- Obrigado. – Falou baixinho, sem forças.
- Nada. (...) Quando a cirurgia acabar; eu ainda estarei
aqui. Falei, desejando passar-lhe confiança.
- Bom... - Dei-lhe um suave beijo no rosto. Discretas
lágrimas escorreram-lhe.
A
cirurgia durou pouco mais de duas horas. Duas intermináveis horas. Fora um
procedimento melindroso devido à bala ter se alojado bem próximo ao fígado, mas
de sucesso. Perguntei se podia dar uma olhadinha nele, no CTI. Permitiram que
eu entrasse por dez minutinhos. Ele estava acordado e consciente. Quando me viu
deu um ligeiro sorriso.
- Falei que ia dar tudo certo!
- É. – Respondeu num sussurro. – Mas ainda sinto dor.
- É natural. Você acabou de sair de uma cirurgia.
Ele
fechou os olhos, apertando-os, com fisionomia de dor. Acarinhei-lhe o rosto e
falei que chamaria o médico. Foi o que fiz, mas não pude mais retornar. Sabia
que não adiantaria ficar ali, mas ainda fiz um pouco de hora; depois fui para
casa.
Sei que
não conhecia aquele homem, que não sabia nada a seu respeito, todavia não
parava de pensar nele, de me preocupar. Passei a noite rolando na cama,
levantando toda hora, andando sem conseguir fazer nada. Assim que amanheceu fui
para o hospital. Fui informada de que ele havia passado bem a noite e me
deixaram vê-lo um pouquinho.
- Rick? – Ele abriu os lhos em minha direção. – Como se
sente?
Sua
fisionomia cansada foi iluminada por um fraco sorriso.
- Melhor. (...) Escuta, você salvou minha vida e não sei seu
nome.
- Larissa.
- Bom saber. Obrigada Larissa.
Rick
passou parte daquele dia no CTI e, ao cair da tarde, foi transferido para um
quarto. Sua sorte foi estar com uma capanga onde encontrei a carteira do plano
de saúde. Todavia, mesmo vendo seu nome, perguntei para me certificar de que
aqueles documentos lhe pertenciam de fato, já que os encontrei um pouco
distante dele. Assim, pudemos encaminhá-lo a um hospital da rede do seu plano e
que fosse o mais próximo possível. Por isso o quarto para onde foi transferido
era muito confortável, amplo, arejado. Eu estava mais tranqüila, mas Rick me
pareceu mais tenso, preocupado. Tive vontade de lhe perguntar o porquê do
sobressalto, todavia, como não nos conhecíamos, houve um constrangimento entre
nós. Não sabíamos, de repente, o que falar um com o outro; ficamos nos olhando
por um tempo, em silêncio, como se cada um pensasse em como falar, o que dizer.
Entretanto nossos olhos não conseguiam deixar de se tocarem. De súbito ele
começou a rir e a reclamar que não podia rir porque sentia dor, então me
aproximei, também já rindo, passei-lhe a mão na cabeça, peguei um copo dágua e
dei a ele. Nesse instante uma enfermeira entrou e nós paramos com a risada de
chofre. Rick deu um ligeiro salto.
A moça
aplicou-lhe uma injeção intramuscular a contragosto de Rick, que reclamou com
caretas. Quando ela se foi ele rompeu o constrangimento inicial com a
observação de que detestava agulhadas.
- Bom, eu não conheço quem goste.
- Não gosto simplesmente, detesto.
- Rick, quem fez isso e por quê?
Nesse
momento em que em minha imaginação ele iria responder bateram na porta do meu
quarto chamando-me para o almoço. Voltei a realidade um pouco contrariada mas
sem poder negar que realmente estava com fome. A vida com os pés no chão. A
conversa familiar com meu pai apontando erros e vergonhas governamentais,
criticando a realidade do país; minha mãe preocupada com meu irmão por ter
perdido o emprego e com minha irmã por estar visivelmente estressada. Eu dava
opiniões, respondia a um e a outro, mas tinha o pensamento bifurcado, centrado
no Mel Gibson, no desejo que tinha de conhecê-lo, nos seus olhos azuis de um
olhar cativante e no baita talento que tem. E era pensar no Mel que desejava
logo acabar o almoço e me trancar no quarto para continuar com a estória que
criei a partir do filme.
Acabei
de almoçar, esperei por meus pais e, na primeira oportunidade, com a desculpa
de que queria escutar música, voltei ao meu mundo imaginário. Na verdade a
música era um enorme auxílio. Ajudava no afloramento emocional que, por sua
vez, me dava subsídio para criar. E eu continuava sempre do mesmo ponto em que
parei, como nas novelas.
- Rick, quem fez isso e por quê?
- É uma longa história. Melhor você ficar fora disso.
- Eu estou aqui, portanto... já estou dentro, seja lá o que
for.
- Olha, Larissa, meu trabalho envolve sigilo; não vou poder
falar muito.
- Trabalho... Você não é bandido, é!?
Rick
deu uma gargalhada gostosa e me perguntou se ele tinha cara de bandido.
- E bandido tem cara de bandido, por acaso?
Ele
soltou outra gargalhada e me deu razão. Depois me perguntou se eu era ingênua
de achar que se ele fosse bandido me diria. Fiquei sem graça e soltei um
risinho. Então ele ficou meio sério e disse que não gostava de falar sobre
certas coisas.
- Você é casado?
- Não. Fui. Ela morreu... há cinco anos. (Fiquei sem fala.)
Na verdade ficamos casados pouco tempo, embora nos conhecêssemos desde
pequenos. Há dezoito anos atrás, uns doze dias antes de nos casarmos, fui com
um amigo ao México e, na volta, pouco depois da fronteira com os Estados
Unidos, presenciei um crime e isso mudou toda a minha vida. Sabe, eu... eu
estava no lugar errado e na hora errada. Os assassinos eram policiais e havia
droga no meio. Nós dois fomos presos sob a alegação de trafico. No caminho
Michel caiu na asneira de dizer que relataria tudo o que viu e eles
simplesmente deram-lhe um tiro na cabeça. Foi horrível. Fiquei preso por cerca
de dois meses sem ter como me comunicar com ninguém e a Marianne achou que eu
tinha desistido do casamento. Qualquer um no lugar dela pensaria o mesmo. Pouco
depois ela me julgou morto porque os tais policiais, Eugene Sorenson e Albert
Diggs, pegaram os nossos documentos, colocaram os corpos dos homens que eles
mataram no carro e o explodiram numa ribanceira. Eu estava morto e não sabia. Poucos
antes de ser libertado fui levado para uma conversa com policiais do FBI e
fiquei sabendo que os outros dois estavam na mira deles. Só havia um meio de
sair dali e permanecer vivo, fazer parte do Programa de Proteção de Testemunhas.
Só aí que fiquei sabendo que pra todos os efeitos estava morto. Quase pirei. Então
me disseram que teria minha vida de volta se auxiliasse na prisão deles. Sem saída, aceitei. Sorenson foi preso e Diggs
ninguém sabia onde encontrar.
Eu o
escutava pasma enquanto observava uma profunda tristeza em toda sua fisionomia.
_ Desde então sumi como Rick Jarmin. Não possuía mais
identidade, cada hora tinha um nome, uma idade, uma história de vida diferente
a viver, a contar, e também passei a ser uma espécie de eremita, andarilho,
cada hora num lugar. Vivi assim por oito
anos até que um dia topei com Marianne num posto de gasolina onde estava
trabalhando. Ela me reconheceu. Nesse mesmo dia fui encontrado pelos dois
policiais. Sorenson havia conseguido liberdade condicional. Marianne estava
comigo quando me encontraram e tentaram me matar. Foi ela quem me ajudou a
escapar. Depois disso, nós dois passamos a ser alvos deles e do FBI.
- Como assim? Do FBI.
- Em todo o lugar há pessoas corruptíveis, que querem levar
vantagem, fazer fortuna rápido; e a pessoa que substituiu o Lou, senhor que me
orientava e cuidava do meu caso, era comparsa deles, também tinha vínculos com
o tráfico embora ninguém suspeitasse. Joe Weyburn. Não existia mais pro mundo e
pro FBI, já que deixei de constar do Programa de Proteção de Testemunhas. Bom,
junto com Marianne, que estava muito assustada, principalmente depois que lhe
coloquei a par de tudo, procurei por Lou, o senhor que estava a par de tudo em
relação a mim, e, para minha surpresa e desespero, ele havia se aposentado por
problemas de saúde. Estava com Alzaimer.
Eu estava sozinho e responsável em salvar a vida de Marianne, não mais só a
minha. Sem ter onde me refugiar com Marianne, tentei me esconder num zoológico
onde havia trabalhado e acabei encurralado por eles. A partir de então éramos
nós ou eles e, num plano arriscado e desesperado acabei matando um a um em
emboscadas separada e diferentes. Fiquei bem ferido e passei alguns dias num
hospital. Marianne, que era advogada, tratou de provar que as mortes foram em
legítima defesa e eu tive minha vida de volta. Três meses depois nos casamos. E
um ano e pouquinho após nos casarmos senti a maior alegria de toda a minha vida
com o nascimento do nosso filho.
- Então você tem um filho!?
Seus
olhos ficaram vermelhos e as lágrimas lhe desciam.
- Não... Ele se foi... junto com a mãe. – O silêncio pairou
no ar por alguns segundos. – Pensei que estivesse livre do passado. Arranjei um
trabalho e a vida transcorreu calma por quase três anos. Até que um dia tudo
virou de cabeça para baixo de novo. Cheguei do trabalho feliz, com um carrinho
de presente pro meu filho e me deparei com meus pais mortos na sala, morávamos
com eles, na fazenda, e, sem raciocinar corri ao nosso quarto e tanto Marianne
quanto Patrick, nosso menino... nos quatro eles atiraram na cabeça. Eu
paralisei. Tremia todo e caí de joelhos sem me sentir, chorava e gritava sem
conseguir fazer um único movimento; até que observei um papel junto ao corpo do
meu garoto e, apertando ele nos meus braços, com seu corpo colado ao meu, li o
bilhete. Nunca esqueci as palavras. – “Você arruinou com a vida do meu pai e
arrancou ele de mim. Arranquei sua família de você também e não descansarei
enquanto não der fim a sua vida”. Tinha meu filho nos braços e a cabeça
adormecida. Mas ao relembrar as palavras lidas momentos depois, minhas pernas
reagiram e, embora cambaleante, levantei, telefonei pros meus sogros e pra um
amigo, Paul, que foi quem me ajudou a tomar as providências para o enterro
deles. E frente ao túmulo do meu menino jurei que pegaria o desgraçado que
arruinou com minha família, minha vida. Dias depois, com o auxílio do Sander,
um amigo advogado que trabalhava no FBI e que sabia de toda a nossa história,
voltei a fazer parte do Programa de Proteção de Testemunhas.
A essa
altura engolia em seco e tentava segurar as lágrimas que teimavam em descer,
tímidas. Sentei-me na beirada da sua cama e segurei-lhe a mão silenciosamente,
porque a essa hora Rick não segurava um choro profundo, choro de dor, não de
dor física, mas de uma saudade e uma solidão gritante, que atravessou-me o
peito. Não sabia como, mas desejava que ele sentisse não estar só; naquele
instante percebi intimamente que Rick faria parte da minha vida para sempre.
Passei com suavidade e carinhosamente a mão em seu rosto e seus olhos tocaram
os meus com gratidão e ternura.
- Foi ele, então, quem fez isso?
- Pessoalmente não.
- Nossa!... Rick, e ele é filho de quem? Sorenson ou Diggs?
- Sorenson. De acordo com as investigações, Diggs não
mantinha elo com ninguém. Mas foi ele quem trouxe a mulher de Sorenson e o
filho, Joe, pro Brasil. E por isso fui enviado pra cá há três anos. Estamos bem
perto de pegá-lo, e estou sendo a isca.
- Que horror!
- Não me importo. Só quero que o peguem e que seja condenado
a prisão perpétua. Sinto raiva por ter caído numa cilada. De não ter percebido.
O que me mantém vivo, Larissa, é o ódio, o desejo de pegá-lo e fazer ele pagar
pelo que fez. Desde que enterrei meus pais, minha mulher e meu filho não vejo
mais sentido em viver.
Fiquei
imaginando a dor que lhe passava na alma e me perguntei se no lugar dele me
sentiria da mesma forma. Pensei que talvez ficasse até pior. Ele fechou os
olhos e fiquei com os meus cravados nele. Sua testa franziu e a expressão foi
de dor; mas não reclamou. Depois dormiu por cerca de meia hora, se é que chegou
a tanto. Fiquei ao seu lado e, apesar de não conhecê-lo de verdade, senti ser
uma pessoa sincera, leal aos seus sentimentos e às pessoas que o cercavam, e,
mesmo me condenando, tive de admitir que estava sentindo forte atração por
aquele homem.
Quando
ele acordou perguntei se ele tinha algum amigo a quem quisesse avisar e ele me
disse que não, mas que colocaria seu superior a par do acontecido tão logo se
sentisse com forças para falar melhor. No dia seguinte, foi o que fez, pouco
depois do café da manhã. Menos de duas horas desde que falou com um tal de
Kevin, que julguei ser a quem estava subordinado, lhe telefonaram para avisar
que não voltasse para casa até que lhe fosse dado um sinal verde. Sua fisionomia
ficou tensa.
- Rick, não sei quando vai ter alta, mas seja quando for
precisará de ajuda.
- Não quero pensar nisso agora. De alguma forma vou ter que
me virar.
Nesse
momento tive de dar uma pausa na minha história particular. Olhei o relógio e
já passava da meia-noite; tinha que dormir para trabalhar no dia seguinte.
Deitei, fiz minhas orações e não deixei de pedir a Jesus e a Mãe Santíssima que
protegessem o Mel e sua família.
No dia
seguinte, durante o trajeto para o trabalho soltei a imaginação, mas com
cuidado para não deixar de sentir a realidade e perder o ponto.
No meio
da tarde do terceiro dia no hospital ele apareceu com um quadro de febre, dor
abdominal e dificuldade respiratória. Havia uma infecção nos pontos, uma pleurite aguda com presença de
líquidos nos pulmões e uma bactéria. O tratamento me levou muitas vezes a
chorar com ele. Não entendia e me revoltava em ver como lhe furaram a região a
sangue frio, sem anestesia. Questionei o procedimento e eles explicaram que se
anestesiassem ele poderia ter complicações maiores. Na verdade não compreendi
bem as explicações dadas e não as aceitava, todavia não podia fazer nada, o
importante era salvar-lhe a vida. Rick tentava segurar a dor ao máximo, mas de
repente soltava gritos e chorava feito criança, pedindo que parassem. Olhava
para mim como se pudesse socorrê-lo e isso me matava interiormente. Só me
restava fincar pé ao seu lado, coisa que nem médicos nem enfermeiras conseguiam
impedir. Esse quadro durou pouco mais de uma semana. Rick ficou bem debilitado
com tudo e emagreceu muito. Podia se ver que estava sem força física. Após mais
ou menos uns vinte e dois dias deram-lhe alta.
Olhei
para Rick e vi um homem debilitado ainda e sem saber para onde ir. Não titubeei
e, amparando-o, disse-lhe que iria para minha casa e que não aceitava
discussões. Ele sorriu e pareceu mais tranqüilo.
Cheguei
ao local em que devia saltar e disse de mim para mim: Agora concentre-se no seu
dia porque há muito para ser feito. Mas senti uma ponta de vazio. Era tão bom
sonhar, viver um amor com Rick Jarmim! Ele era uma criação do Mel sem ser o
Mel. Não havia erro, não havia certo ou errado, não me sentia culpada em
relação a Mel. Entretanto era necessário sair da fantasia. A vida era pé no
chão e contas a pagar. Desliguei-me totalmente da história e tive um dia
pesado, entre aspas, pois sabia que ao fim do mesmo havia a leveza da companhia
do Rick/Mel, e que tudo o que acontecesse perderia o peso, a importância. Para
mim a vida é leveza, como as minhas histórias, porque no final todos os
problemas são resolvidos. Os sonhos nos fortalecem.
A
noite, ao chegar em casa e ver meus pais assistindo TV, senti gratidão por
Deus. Falei com eles, tomei um banho revigorante e fomos lanchar. Conversamos
por pouco mais de uma hora, porque esse momento é importante, um elo familiar,
instante em que contamos nossos dias e opinamos sobre alguns assuntos. Depois
eles vão assistir um pouco mais de TV e eu vou com o coração acelerado de
emoção para o meu quarto. É o momento de dar continuidade a minha história.
Antes, no entanto, pego um porta-retrato com uma foto do Mel e olho por alguns
segundos. A solidão não existe. Mel, com seu trabalho a preenche. Sei que muito
poucas são as pessoas que entenderão esse momento muito meu, essa maravilha,
mas não me importo. Mel me faz feliz.
Depois
de acomodá-lo fiz-lhe uma sopa bem substanciosa, com muitos legumes e agrião,
para fortalecer. Quando o levei ele
estava com o olhar distante, talvez pensando em Marianne e no filho, o que, não
nego, deixou-me um pouco enciumada. Todavia reconheci ser compreensível.
- Cem reais pelo seu pensamento.
Rick
sorriu. E que sorriso lindo!
- Não há necessidade de tanto. Estava pensando no que leva
uma pessoa como você a fazer o que está fazendo por mim. Tem consciência de que
pode se meter numa enrascada?
- Tenho. Sei que o filho de Sorenson pode achar você aqui,
apesar de ser bem difícil isso acontecer. O que importa é que você se recupere
e, espero, sem maiores problemas.
- Você mora aqui sozinha? Só tem esse quarto?
- É. Mas não se preocupe. Vê aquela poltroninha ali? Ela
vira uma cama. Pois é; ela serve para acolher algumas amigas vez por outra quando
a gente sai e fica tarde pra que voltem pra casa. É ali que vou dormir pra que
você fique a vontade e se restabeleça bem.
- Larissa, eu durmo na poltrona. Ela é confortável.
- Não, Rick. Você está muito fraco e é melhor que fique o
mais confortável possível.
- Não é justo.
- É mais que justo. Agora tome a sua sopa e descanse. Vou
dar uns telefonemas. Volto já.
Quando
voltei o prato estava ao lado de Rick e ele dormia. Fiquei parada, admirando
aquele homem tão determinado, cheio de força, coragem, e, ao mesmo tempo, tão
frágil. Meu coração acelerou e não pude negar que estava apaixonada por ele.
Que loucura! Eu, apaixonada por um homem que mal conhecia. Um homem com uma
história bastante complicada e que ainda amava a esposa já falecida. Cheguei
mais perto e me dei conta de que havia uma imensa ferida em seu peito, uma
ferida invisível aos olhos, mas perceptível a quem parasse para sentir. Naquele
instante eu me converti em amor e soube que morreria por ele se fosse
necessário.
Rick
ficou muito grato ao saber que pedi minhas férias acumulada para ficar cuidando
dele e passávamos horas conversando. Apesar de debilitado fisicamente e de ter
uma vida tão marcada, sofrida, era dotado de um humor que me tirava gargalhadas
com suas tiradas imprevisíveis. Algumas vezes me deixou sem graça ao gozar
comigo por me pegar contemplando seu rosto ao acordar. Até que em uma dessas
vezes, ele abriu os olhos e ficou parado, fixo em mim, sem pronunciar palavra.
- Que foi, Rick?
- Estava pensando... Minha vida está dando uma guinada, me
colocando de cabeça para baixo de uma forma que eu jamais esperava.
- Como assim?!
Tocando
meu rosto com suavidade e com os olhos marejados, ele me disse de maneira
terna:
- Nunca pensei que pudesse amar outra vez.
Fiquei
calada, sem saber o que dizer. Meu coração parecia a ponto de saltar pela boca,
tal a emoção, a alegria íntima que sentia.
- Amo você, Larissa. Mas... Admito que estou com medo e que
não vejo a hora de poder voltar pra casa. Não quero que nada aconteça a você.
Enlouqueceria. E aquele desgraçado é capaz de tudo. Eu vi. Eu sei.
- Nada vai me acontecer.
- Queria ter essa certeza. – O olhar dele ficou parecendo
vago. - Com você vejo uma luz no fim do túnel. Depois de anos me sinto feliz de
novo. Sinto vontade de viver.
Então
Rick, com muita doçura, puxou para perto meu rosto e nos beijamos pela primeira
vez. Um beijo longo, cheio de desejo. Depois Rick passou a mão em minha cocha,
subiu às minhas nádegas, minhas costas, e eu o auxiliei a tirar a camisa, as
calças, enquanto com certa rapidez delicada desabotoou meu vestido. Senti suas
mãos deslizarem sobre meu corpo e o beijei das pernas ao rosto, devagar,
lambendo-lhe as virilhas com o prazer de escutar seus gemidos. Ele chupou-me os
seios me levando a gritos de prazer. Depois o senti dentro de mim e foi como se
estivéssemos na lua, flutuando, leves. Rick tocava-me os pontos certos. Era
como se não fosse a primeira vez; parecia que conhecíamos os corpos um do
outro. Foi maravilhoso poder, no fim, lavar-lhe o corpo suado, mesmo com ele na
cama, já que ainda não podia ficar em pé. Tomei um banho e deitei em seu ombro.
Dormimos juntos e, pela manhã, ao abrir os olhos, Rick me fitava com um leve
sorriso e, sem dizer nada, numa cumplicidade de olhares, tornamos a fazer amor
em jejum. Tudo estava tão perfeito que dava medo de acordarmos e nada daquilo
ser real.
Como
tudo no fundo é uma fantasia, tive de colocar os pés no chão, lavar o rosto e
pensar na responsabilidade de ter que dormir para acordar no dia seguinte e
trabalhar. Por uns três dias não consegui dar continuidade à minha história, o
cansaço não permitiu. Estava tão sedenta pelo meu sonho com Rick/Mel que no
primeiro dia em que o trabalho me permitiu inventei uma dor de cabeça, um
mal-estar e fui para casa. Como meus pais haviam ido ao médico e depois iriam
ver meus sobrinhos, teria a tarde toda livre para sonhar e a casa para
utilizar.
Rick e
eu vivemos dias de pura paixão, amor e sexo. Ele estava em excelente
recuperação, já se locomovia pela casa, tomava banho, enfim só faltava mesmo um
pouco mais de força. Foi nesse clima que ele recebeu um telefonema do poderoso
chefão, e ele ria gostosamente quando me referia a seu superior dessa forma, e
disse que teria de ir para uma casa na região dos lagos, porque tudo indicava
que Joe, o filho de Sorenson, estava por lá. Entrei praticamente em pânico.
Argumentei, pedi, implorei, mas Rick disse ser uma promessa, vivia há anos com
o único intuito de pegá-lo e não seria agora que estava perto que daria para
trás.
- Mas e nós!?
- Nós, somos outra história.
- Você ainda não está completamente bem, Rick! Está fraco fisicamente;
precisa se alimentar direito. Por favor, amor, não vá!
- Não é só por mim agora, Larissa. Há um compromisso que
assumi e depois, Joe está atingindo outras pessoas. Temos de pará-lo.
- Então vou com você.
- Nem pensar! Isso não é permitido.
- Se não for com você, vou sozinha e te acho de alguma
forma.
Ele fez
tudo para me convencer do contrário, mas, vendo que não cederia, disse em que
local ficava a casa. Imediatamente liguei para uma pousada e reservei um
quarto. No dia seguinte Rick pegou o carro e foi para Búzios. Eu fui depois, no
dia posterior. Para sua segurança só pude vê-lo a noite, na praia, como se
tivéssemos nos conhecido ali, naquele momento. Ele saia muito durante o dia
para ser visto na região e sempre dávamos um jeito de conversarmos um pouco.
Ele, talvez por estar se locomovendo muito, se queixou de estar sentindo um
pouco de dor na região em que foi ferido. Fiquei preocupada; ainda não havia
feito nem dois meses que ele tinha passado pela cirurgia, ainda era muito
recente para ele ficar zanzando da maneira que estava, porém, como ele mesmo
disse, ordens eram ordens.
No fim
da semana, ao cair da tarde, liguei para o seu celular. Não o havia visto em
circulação naquele dia e me preocupei. Rick atendeu e disse não estar se
sentindo muito bem, mas que não fosse até ele, pelo perigo da situação. Fiquei
agoniada e, meu sexto sentido gritava para que não lhe desse ouvidos e fosse
passar a noite com ele.
Ao
chegar em frente a casa onde Rick estava, vi uma caminhonete parada e um homem
com uma pistola encostado de forma a não chamar atenção. Percebi que algo
estava errado e me esgueirei pelo quintal do vizinho, cuja casa parecia
desabitada, para a entrada de serviço, onde vi, sentado um pouco afastado da
porta, mas de forma atenta, um sujeito alto, forte e mal-encarado. Como Rick
havia me passado o telefone do tal de Kevin para o caso de eu me ver em alguma
dificuldade, liguei e, baixinho, relatei o que estava observando. Ele me
agradeceu e disse que me retirasse do local o mais rápido possível. Só que ao me dirigir para o quintal do visinho
ouvi um grito vindo de dentro da casa. Parei e, logo em seguida, outro grito
foi emitido e detectei a voz de Rick. Num impulso me dirigi à porta chamando-o.
O tal homem mal-encarado correu em minha direção e, com o semblante de quem
encontra um diamante, me pegou pelo braço e praticamente me arrastou até o
quarto onde Rick se encontrava. Eu gelei ao olhar para ele e ver sua expressão
de pavor.
- Quem é você? Perguntou um dos homens no extremo oposto a
Rick.
Rick me
olhou com pavor.
- Uma amiga... da praia.
Ele me
olhou com um sorriso de escárnio.
Rick
estava encima da cama, de bruços, nu, com as pernas amarradas a uma tora de
madeira, os braços esticados e as mãos presas com uma corda grossa de náilon os
ferros da cabeceira da cama. O tal do homem, com sarcasmo, deu sinal para que os
dois outros sujeitos, que estavam na altura de sua cintura, continuassem. O
mais baixo, porém mais musculoso, levantou uma espécie de palmatória, mais
larga que o normal e com umas pontinhas finas, parecendo cerdas de vassoura de
palha de aço, e a deu com toda a força nas nádegas de Rick. Ele berrava a cada
pancada e suas nádegas sangravam. Ele me olhava com lágrimas nos olhos e me
desesperei sem saber o que fazer. Da primeira vez fechei os olhos e roguei a
Deus que Kevin agisse rápido. Mas Joe puxou-me para mais perto de Rick e me
obrigou, puxando-me os cabelos, a ficar com os olhos abertos.
- Que coisinha bonita Rick, a sua garota! Não pensei que
fosse esquecer Marianne. Melhor assim. Você vai sofre, vai pagar pela morte do
meu pai, por tudo o que ele passou na prisão por sua causa, e quando você
estiver mais pra lá que pra cá, mas ainda consciente, vai presenciar essa
belezinha perder a vida na sua frente, debaixo dos seus olhos e sem poder fazer
nada.
- Seu desgraçado! Rick berrou. Você já tem a mim, já matou
Marianne, meu filho, meus pais; deixa ela ir!
- Libertar uma testemunha ocular!? Acha que sou tolo Rick?
- Não. Ele não acha que você é um tolo! Mas eu sei que você
é mau, um doente perverso, um louco, um insano... Falei cheia de raiva e
fitando-o nos olhos.
- Cala essa boca!
- Se vou morrer de qualquer forma não há porque calar. Você verá
que tenho sangue quente e não sangue de barata, porque só uma pessoa sem a
menor sensibilidade, um doente cruel, é capaz de fazer o que está fazendo.
Falei aos berros.
- Crueldade...
Ele
pegou um pedaço de ferro áspero em um dos lados e entregou ao outro homem que
passou a raspar com força o ferro nas nádegas de Rick enquanto o outro dava-lhe
com a tal palmatória na sola dos seus pés. Rick se debatia, trêmulo, num misto
de dor e ódio, chorando e berrando de tal forma que não sei como não arrebentou
a garganta. Ele me olhava como a pedir que tentasse alguma coisa, num desespero
que quase me enlouqueceu. E quando eu percebi que estava perdendo totalmente as
forças, a ponto de perder a consciência, ouvi um estrondo atrás de mim, uma mão
a me puxar e os três homens, Joe e os outros dois caíram quase que ao mesmo
tempo com os corpos perfurados. Só escutei o sussurro de Rick dizendo Kevin.
Foi
tudo tão rápido e ao mesmo tempo uma eternidade. Não dava para raciocinar. Tudo
o que queria era abraçar Rick. Quando cheguei perto dele seus olhos quase não
abriam quando me fitou com um sorriso morto e perdeu os sentidos. Pensei que
estivesse morrendo, tendo um infarto, sei lá!, apenas comecei a gritar por
socorro. Uns minutos após ele foi colocado em uma ambulância e, mais uma vez,
estava ao seu lado. Dessa vez, porém, ele não me via, não me olhava, estava
inconsciente.
Chegando
ao hospital Rick recobrou os sentidos e me chamava ininterruptamente. Os
médicos tentaram fazer a assepsia primeiro, mas a dor era muita, ele não
agüentava, então levaram-lhe para o centro cirúrgico para o anestesiarem e
conseguirem cuidar dos ferimentos. Rick tinha as nádegas e as solar dos pés em
carne viva. Após o procedimento foi conduzido ao quarto e fiquei a seu lado todo
o tempo em que ficou internado. Os curativos eram dolorosos, uma espécie de
segunda tortura pela qual teve de passar, e ele sempre trincava os olhos sem
conseguir conter as lágrimas e segurava a minha mão. Era impossível não chorar
junto a ele. Foram dias infernais nas nossas vidas, todavia estávamos juntos,
unidos por um sentimento que não pensei existir daquela forma. Percebi que eu
passei a ser o seu porto seguro. Eu era toda a família que ele tinha. Quando
teve alta o levei para minha casa e, após se recuperar totalmente, desligou-se
do Programa de Proteção de Testemunhas e arrumou trabalho numa revista, como
redator. Só então fiquei sabendo que Rick tinha formação universitária em
jornalismo.
Passados
uns meses nos casamos. Fizemos uma cerimônia simples, só no cartório e um
almoço com os padrinhos, nossos amigos. Um ano e cinco meses depois dei a luz a
uma menina, que a pedido de Rick, chama-se Marianne. Para falar a verdade,
quando ele me fez esse pedido fiquei chateada e com ciúme, não concordei. Rick
não insistiu, disse apenas que sentiria como se estivesse se desculpando com a
ex-mulher por ter perdido a vida por causa dele. Então me coloquei no seu lugar
e me dei conta de que teria o mesmo desejo, mas não disse nada. Até a hora em
que nossa menina nasceu e que vi o olhar emocionado e feliz do homem a quem
tanto amava, não dissera da decisão de lhe dar o nome de Marianne. Só quando
ela foi colocada em meu peito e que Rick beijou a nós duas foi que lhe falei da
minha decisão. Seu rosto se iluminou de tal forma que me senti a mulher mais
feliz do mundo e, como se adivinhasse meu pensamento, Rick falou que também se
sentia o homem mais feliz da face da terra e que não imaginava mais poder
alcançar algum tipo de felicidade.
Nesse
momento imaginei um beijo no meu Rick. Um beijo que nenhuma mulher pudesse
esquecer.
Olhei o
relógio e percebi que a tarde havia passado. Feliz, beijei a foto do Mel em meu
quarto e fui ajeitar a mesa para o lanche, porque meus pais logo estariam de
volta. Por volta das vinte e uma horas peguei outro filme do Mel, Máquina
Mortífera. Queria sonhar com um Riggs todo meu.(do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)
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