Caro leitor, seja muito bem vindo a essas despretensiosas páginas.
Desejo falar ao seu coração não apenas com os meus poemas, mas também pelas mensagens, orações e reflexões aqui colocadas a seu dispor.
Que o coração do Divino Mestre Jesus os ilumine e abençoe sempre.
Aqui, você está livre também para desabafar seus problemas e angústias.
Darei um retorno tão logo possa e opinarei se assim você desejar.
Fique a vontade. Aqui você, internauta, vai encontrar uma amiga com o coração aberto a lhe auxiliar dentro dos meus limites, mas sempre com carinho, respeito e espírito fraterno.
NAMASTÉ.

domingo, 24 de julho de 2016

I

Acabara de assistir o filme Alta Tensão, com Mel Gibson, e minha emoção estava à flor da pele. Sentia uma enorme compaixão pelo personagem Rick Jarmim, uma homem solitário, doce, sofrido, mas de um humor que no fundo servia para driblar sua dor emocional. Seus olhos transbordavam solidão, carência e medo. E fiquei imaginando o quanto o Rick carregava do próprio Mel. A dor emocional? A carência? Jamais saberei. E imaginei o quanto gostaria de ter um Rick na minha vida.  Fiquei parada olhando a imagem de Mel/Rick congelada na tela da minha TV, extasiada e me perguntando como classificavam aquele filme de comédia policial se por trás da aparência existia um enorme drama. Assim fiquei por alguns segundos. Depois desliguei o DVD, guardei o filme, mas a alma do Rick permanecia presente nas minhas emoções.
                A arte imita muito a vida por mais fantasiosa que seja. E eu fiquei imaginando quantas pessoas no mundo perdiam sua identidade real por ene motivos, quantas pessoas se afastavam de si mesmas por razões inimagináveis, quantas deixavam de viver seus sonhos. De repente também me questionei por ter achado tanta graça em vários momentos, de ter rido de chorar, de ter, enfim, me divertido apesar de perceber o drama escondido no sorriso. Foi então que me dei conta de que o mérito vinha da interpretação de Mel Gibson e Goldie Hawn, que souberam encontrar a medida certa para “esconder” o drama na comédia. Sozinha em meu quarto, bati palmas aos dois. Depois me deixei levar pela imaginação.
Transportei-me para o shopping, imaginando-me a andar tranquilamente admirando as lojas quando, ao passar em frente a um corredor, onde ficavam os banheiros, escutei o som de um gemido. Era um dia de semana e não havia muito movimento, por isso podia escutar. Dirigi-me em direção àquele gemido abafado e, sem pensar, entrei no banheiro masculino. Não havia aparentemente ninguém, não fosse aquele som de dor ser mais nítido.  Olhei então em direção ao mesmo e me deparei com um homem caído, pode-se dizer embaixo da pia, todo ensanguentado. Rick Jarmim. Mas na minha fantasia estava, pela primeira vez, diante dele. Fitei aquele homem que se contorcia e me olhava pedindo ajuda, com os olhos avermelhados pelas lágrimas, mas de um azul lindo, e cheia de aflição saí em busca de auxílio. Pouco depois ele era colocado numa ambulância e eu o acompanhava. Ele todo tremia, arfava, mas seu olhar não saía de sobre mim. Parecia ao mesmo tempo assustado e aliviado. Senti que me queria falar alguma coisa, mas a dor não permitia, era um esforço inútil. Entretanto creio ter adivinhado seu pensamento e, passando-lhe carinhosamente a mão na testa disse-lhe: Fica calmo. Vai dar tudo certo. Ficarei com você. E minhas palavras lhe tiraram um suave sorriso; o sorriso mais lindo que havia visto até aquele momento. Logo em seguida encostei bem o rosto junto ao seu e perguntei num sussurro o seu nome, pois iria precisar para dar entrada no hospital. Sua resposta foi quase inaudível, mas compreendi. Rick Jarmim. Sorri com ternura e tornei a acarinhar-lhe.
No hospital quiseram o endereço dele e, sem saber o que dizer, com o coração quase a sair pela boca, dei o meu endereço e menti ao dizer que era da família, era sua mulher. Por dentro sabia que estava me arriscando demais porque não sabia quem ele era, qual o motivo de terem lhe dado um tiro, batido tanto nele, se ele era um bandido ou não. No entanto, sei lá, nenhuma daquelas informações, no fundo, me eram importantes. Relaxei. Estava ajudando um ser humano em risco de vida. E apesar de estranho, pelo fato de não conhecê-lo, minha preocupação com sua vida era enorme. De certo modo sentia empatia por ele.
Passados mais ou menos uns minutos uma enfermeira veio até mim e disse que ele seria encaminhado ao centro cirúrgico mas que desejava me ver antes. Acompanhei-lhe.
- Oi.
- Obrigado. – Falou baixinho, sem forças.
- Nada. (...) Quando a cirurgia acabar; eu ainda estarei aqui. Falei, desejando passar-lhe confiança.
- Bom... - Dei-lhe um suave beijo no rosto. Discretas lágrimas escorreram-lhe.
                A cirurgia durou pouco mais de duas horas. Duas intermináveis horas. Fora um procedimento melindroso devido à bala ter se alojado bem próximo ao fígado, mas de sucesso. Perguntei se podia dar uma olhadinha nele, no CTI. Permitiram que eu entrasse por dez minutinhos. Ele estava acordado e consciente. Quando me viu deu um ligeiro sorriso.
- Falei que ia dar tudo certo!
- É. – Respondeu num sussurro. – Mas ainda sinto dor.
- É natural. Você acabou de sair de uma cirurgia.
                Ele fechou os olhos, apertando-os, com fisionomia de dor. Acarinhei-lhe o rosto e falei que chamaria o médico. Foi o que fiz, mas não pude mais retornar. Sabia que não adiantaria ficar ali, mas ainda fiz um pouco de hora; depois fui para casa.
                Sei que não conhecia aquele homem, que não sabia nada a seu respeito, todavia não parava de pensar nele, de me preocupar. Passei a noite rolando na cama, levantando toda hora, andando sem conseguir fazer nada. Assim que amanheceu fui para o hospital. Fui informada de que ele havia passado bem a noite e me deixaram vê-lo um pouquinho.
- Rick? – Ele abriu os lhos em minha direção. – Como se sente?
                Sua fisionomia cansada foi iluminada por um fraco sorriso.
- Melhor. (...) Escuta, você salvou minha vida e não sei seu nome.
- Larissa.
- Bom saber. Obrigada Larissa.
                Rick passou parte daquele dia no CTI e, ao cair da tarde, foi transferido para um quarto. Sua sorte foi estar com uma capanga onde encontrei a carteira do plano de saúde. Todavia, mesmo vendo seu nome, perguntei para me certificar de que aqueles documentos lhe pertenciam de fato, já que os encontrei um pouco distante dele. Assim, pudemos encaminhá-lo a um hospital da rede do seu plano e que fosse o mais próximo possível. Por isso o quarto para onde foi transferido era muito confortável, amplo, arejado. Eu estava mais tranqüila, mas Rick me pareceu mais tenso, preocupado. Tive vontade de lhe perguntar o porquê do sobressalto, todavia, como não nos conhecíamos, houve um constrangimento entre nós. Não sabíamos, de repente, o que falar um com o outro; ficamos nos olhando por um tempo, em silêncio, como se cada um pensasse em como falar, o que dizer. Entretanto nossos olhos não conseguiam deixar de se tocarem. De súbito ele começou a rir e a reclamar que não podia rir porque sentia dor, então me aproximei, também já rindo, passei-lhe a mão na cabeça, peguei um copo dágua e dei a ele. Nesse instante uma enfermeira entrou e nós paramos com a risada de chofre. Rick deu um ligeiro salto.
                A moça aplicou-lhe uma injeção intramuscular a contragosto de Rick, que reclamou com caretas. Quando ela se foi ele rompeu o constrangimento inicial com a observação de que detestava agulhadas.
- Bom, eu não conheço quem goste.
- Não gosto simplesmente, detesto.
- Rick, quem fez isso e por quê?
                Nesse momento em que em minha imaginação ele iria responder bateram na porta do meu quarto chamando-me para o almoço. Voltei a realidade um pouco contrariada mas sem poder negar que realmente estava com fome. A vida com os pés no chão. A conversa familiar com meu pai apontando erros e vergonhas governamentais, criticando a realidade do país; minha mãe preocupada com meu irmão por ter perdido o emprego e com minha irmã por estar visivelmente estressada. Eu dava opiniões, respondia a um e a outro, mas tinha o pensamento bifurcado, centrado no Mel Gibson, no desejo que tinha de conhecê-lo, nos seus olhos azuis de um olhar cativante e no baita talento que tem. E era pensar no Mel que desejava logo acabar o almoço e me trancar no quarto para continuar com a estória que criei a partir do filme.
                Acabei de almoçar, esperei por meus pais e, na primeira oportunidade, com a desculpa de que queria escutar música, voltei ao meu mundo imaginário. Na verdade a música era um enorme auxílio. Ajudava no afloramento emocional que, por sua vez, me dava subsídio para criar. E eu continuava sempre do mesmo ponto em que parei, como nas novelas.
- Rick, quem fez isso e por quê?
- É uma longa história. Melhor você ficar fora disso.
- Eu estou aqui, portanto... já estou dentro, seja lá o que for.
- Olha, Larissa, meu trabalho envolve sigilo; não vou poder falar muito.
- Trabalho... Você não é bandido, é!?
                Rick deu uma gargalhada gostosa e me perguntou se ele tinha cara de bandido.
- E bandido tem cara de bandido, por acaso?
                Ele soltou outra gargalhada e me deu razão. Depois me perguntou se eu era ingênua de achar que se ele fosse bandido me diria. Fiquei sem graça e soltei um risinho. Então ele ficou meio sério e disse que não gostava de falar sobre certas coisas.
- Você é casado?
- Não. Fui. Ela morreu... há cinco anos. (Fiquei sem fala.) Na verdade ficamos casados pouco tempo, embora nos conhecêssemos desde pequenos. Há dezoito anos atrás, uns doze dias antes de nos casarmos, fui com um amigo ao México e, na volta, pouco depois da fronteira com os Estados Unidos, presenciei um crime e isso mudou toda a minha vida. Sabe, eu... eu estava no lugar errado e na hora errada. Os assassinos eram policiais e havia droga no meio. Nós dois fomos presos sob a alegação de trafico. No caminho Michel caiu na asneira de dizer que relataria tudo o que viu e eles simplesmente deram-lhe um tiro na cabeça. Foi horrível. Fiquei preso por cerca de dois meses sem ter como me comunicar com ninguém e a Marianne achou que eu tinha desistido do casamento. Qualquer um no lugar dela pensaria o mesmo. Pouco depois ela me julgou morto porque os tais policiais, Eugene Sorenson e Albert Diggs, pegaram os nossos documentos, colocaram os corpos dos homens que eles mataram no carro e o explodiram numa ribanceira. Eu estava morto e não sabia. Poucos antes de ser libertado fui levado para uma conversa com policiais do FBI e fiquei sabendo que os outros dois estavam na mira deles. Só havia um meio de sair dali e permanecer vivo, fazer parte do Programa de Proteção de Testemunhas. Só aí que fiquei sabendo que pra todos os efeitos estava morto. Quase pirei. Então me disseram que teria minha vida de volta se auxiliasse na prisão deles.  Sem saída, aceitei. Sorenson foi preso e Diggs ninguém sabia onde encontrar.
                Eu o escutava pasma enquanto observava uma profunda tristeza em toda sua fisionomia.
_ Desde então sumi como Rick Jarmin. Não possuía mais identidade, cada hora tinha um nome, uma idade, uma história de vida diferente a viver, a contar, e também passei a ser uma espécie de eremita, andarilho, cada hora num lugar.  Vivi assim por oito anos até que um dia topei com Marianne num posto de gasolina onde estava trabalhando. Ela me reconheceu. Nesse mesmo dia fui encontrado pelos dois policiais. Sorenson havia conseguido liberdade condicional. Marianne estava comigo quando me encontraram e tentaram me matar. Foi ela quem me ajudou a escapar. Depois disso, nós dois passamos a ser alvos deles e do FBI.
- Como assim? Do FBI.
- Em todo o lugar há pessoas corruptíveis, que querem levar vantagem, fazer fortuna rápido; e a pessoa que substituiu o Lou, senhor que me orientava e cuidava do meu caso, era comparsa deles, também tinha vínculos com o tráfico embora ninguém suspeitasse. Joe Weyburn. Não existia mais pro mundo e pro FBI, já que deixei de constar do Programa de Proteção de Testemunhas. Bom, junto com Marianne, que estava muito assustada, principalmente depois que lhe coloquei a par de tudo, procurei por Lou, o senhor que estava a par de tudo em relação a mim, e, para minha surpresa e desespero, ele havia se aposentado por problemas de saúde.  Estava com Alzaimer. Eu estava sozinho e responsável em salvar a vida de Marianne, não mais só a minha. Sem ter onde me refugiar com Marianne, tentei me esconder num zoológico onde havia trabalhado e acabei encurralado por eles. A partir de então éramos nós ou eles e, num plano arriscado e desesperado acabei matando um a um em emboscadas separada e diferentes. Fiquei bem ferido e passei alguns dias num hospital. Marianne, que era advogada, tratou de provar que as mortes foram em legítima defesa e eu tive minha vida de volta. Três meses depois nos casamos. E um ano e pouquinho após nos casarmos senti a maior alegria de toda a minha vida com o nascimento do nosso filho.
- Então você tem um filho!?
                Seus olhos ficaram vermelhos e as lágrimas lhe desciam.
- Não... Ele se foi... junto com a mãe. – O silêncio pairou no ar por alguns segundos. – Pensei que estivesse livre do passado. Arranjei um trabalho e a vida transcorreu calma por quase três anos. Até que um dia tudo virou de cabeça para baixo de novo. Cheguei do trabalho feliz, com um carrinho de presente pro meu filho e me deparei com meus pais mortos na sala, morávamos com eles, na fazenda, e, sem raciocinar corri ao nosso quarto e tanto Marianne quanto Patrick, nosso menino... nos quatro eles atiraram na cabeça. Eu paralisei. Tremia todo e caí de joelhos sem me sentir, chorava e gritava sem conseguir fazer um único movimento; até que observei um papel junto ao corpo do meu garoto e, apertando ele nos meus braços, com seu corpo colado ao meu, li o bilhete. Nunca esqueci as palavras. – “Você arruinou com a vida do meu pai e arrancou ele de mim. Arranquei sua família de você também e não descansarei enquanto não der fim a sua vida”. Tinha meu filho nos braços e a cabeça adormecida. Mas ao relembrar as palavras lidas momentos depois, minhas pernas reagiram e, embora cambaleante, levantei, telefonei pros meus sogros e pra um amigo, Paul, que foi quem me ajudou a tomar as providências para o enterro deles. E frente ao túmulo do meu menino jurei que pegaria o desgraçado que arruinou com minha família, minha vida. Dias depois, com o auxílio do Sander, um amigo advogado que trabalhava no FBI e que sabia de toda a nossa história, voltei a fazer parte do Programa de Proteção de Testemunhas.
                A essa altura engolia em seco e tentava segurar as lágrimas que teimavam em descer, tímidas. Sentei-me na beirada da sua cama e segurei-lhe a mão silenciosamente, porque a essa hora Rick não segurava um choro profundo, choro de dor, não de dor física, mas de uma saudade e uma solidão gritante, que atravessou-me o peito. Não sabia como, mas desejava que ele sentisse não estar só; naquele instante percebi intimamente que Rick faria parte da minha vida para sempre. Passei com suavidade e carinhosamente a mão em seu rosto e seus olhos tocaram os meus com gratidão e ternura.
- Foi ele, então, quem fez isso?
- Pessoalmente não.
- Nossa!... Rick, e ele é filho de quem? Sorenson ou Diggs?
- Sorenson. De acordo com as investigações, Diggs não mantinha elo com ninguém. Mas foi ele quem trouxe a mulher de Sorenson e o filho, Joe, pro Brasil. E por isso fui enviado pra cá há três anos. Estamos bem perto de pegá-lo, e estou sendo a isca.
- Que horror!
- Não me importo. Só quero que o peguem e que seja condenado a prisão perpétua. Sinto raiva por ter caído numa cilada. De não ter percebido. O que me mantém vivo, Larissa, é o ódio, o desejo de pegá-lo e fazer ele pagar pelo que fez. Desde que enterrei meus pais, minha mulher e meu filho não vejo mais sentido em viver.
                Fiquei imaginando a dor que lhe passava na alma e me perguntei se no lugar dele me sentiria da mesma forma. Pensei que talvez ficasse até pior. Ele fechou os olhos e fiquei com os meus cravados nele. Sua testa franziu e a expressão foi de dor; mas não reclamou. Depois dormiu por cerca de meia hora, se é que chegou a tanto. Fiquei ao seu lado e, apesar de não conhecê-lo de verdade, senti ser uma pessoa sincera, leal aos seus sentimentos e às pessoas que o cercavam, e, mesmo me condenando, tive de admitir que estava sentindo forte atração por aquele homem.
                Quando ele acordou perguntei se ele tinha algum amigo a quem quisesse avisar e ele me disse que não, mas que colocaria seu superior a par do acontecido tão logo se sentisse com forças para falar melhor. No dia seguinte, foi o que fez, pouco depois do café da manhã. Menos de duas horas desde que falou com um tal de Kevin, que julguei ser a quem estava subordinado, lhe telefonaram para avisar que não voltasse para casa até que lhe fosse dado um sinal verde. Sua fisionomia ficou tensa.
- Rick, não sei quando vai ter alta, mas seja quando for precisará de ajuda.
- Não quero pensar nisso agora. De alguma forma vou ter que me virar.
                Nesse momento tive de dar uma pausa na minha história particular. Olhei o relógio e já passava da meia-noite; tinha que dormir para trabalhar no dia seguinte. Deitei, fiz minhas orações e não deixei de pedir a Jesus e a Mãe Santíssima que protegessem o Mel e sua família.
                No dia seguinte, durante o trajeto para o trabalho soltei a imaginação, mas com cuidado para não deixar de sentir a realidade e perder o ponto.
                No meio da tarde do terceiro dia no hospital ele apareceu com um quadro de febre, dor abdominal e dificuldade respiratória. Havia uma infecção nos pontos, uma pleurite aguda com presença de líquidos nos pulmões e uma bactéria. O tratamento me levou muitas vezes a chorar com ele. Não entendia e me revoltava em ver como lhe furaram a região a sangue frio, sem anestesia. Questionei o procedimento e eles explicaram que se anestesiassem ele poderia ter complicações maiores. Na verdade não compreendi bem as explicações dadas e não as aceitava, todavia não podia fazer nada, o importante era salvar-lhe a vida. Rick tentava segurar a dor ao máximo, mas de repente soltava gritos e chorava feito criança, pedindo que parassem. Olhava para mim como se pudesse socorrê-lo e isso me matava interiormente. Só me restava fincar pé ao seu lado, coisa que nem médicos nem enfermeiras conseguiam impedir. Esse quadro durou pouco mais de uma semana. Rick ficou bem debilitado com tudo e emagreceu muito. Podia se ver que estava sem força física. Após mais ou menos uns vinte e dois dias deram-lhe alta.
                Olhei para Rick e vi um homem debilitado ainda e sem saber para onde ir. Não titubeei e, amparando-o, disse-lhe que iria para minha casa e que não aceitava discussões. Ele sorriu e pareceu mais tranqüilo.
                Cheguei ao local em que devia saltar e disse de mim para mim: Agora concentre-se no seu dia porque há muito para ser feito. Mas senti uma ponta de vazio. Era tão bom sonhar, viver um amor com Rick Jarmim! Ele era uma criação do Mel sem ser o Mel. Não havia erro, não havia certo ou errado, não me sentia culpada em relação a Mel. Entretanto era necessário sair da fantasia. A vida era pé no chão e contas a pagar. Desliguei-me totalmente da história e tive um dia pesado, entre aspas, pois sabia que ao fim do mesmo havia a leveza da companhia do Rick/Mel, e que tudo o que acontecesse perderia o peso, a importância. Para mim a vida é leveza, como as minhas histórias, porque no final todos os problemas são resolvidos. Os sonhos nos fortalecem.
                A noite, ao chegar em casa e ver meus pais assistindo TV, senti gratidão por Deus. Falei com eles, tomei um banho revigorante e fomos lanchar. Conversamos por pouco mais de uma hora, porque esse momento é importante, um elo familiar, instante em que contamos nossos dias e opinamos sobre alguns assuntos. Depois eles vão assistir um pouco mais de TV e eu vou com o coração acelerado de emoção para o meu quarto. É o momento de dar continuidade a minha história. Antes, no entanto, pego um porta-retrato com uma foto do Mel e olho por alguns segundos. A solidão não existe. Mel, com seu trabalho a preenche. Sei que muito poucas são as pessoas que entenderão esse momento muito meu, essa maravilha, mas não me importo. Mel me faz feliz.
                Depois de acomodá-lo fiz-lhe uma sopa bem substanciosa, com muitos legumes e agrião, para fortalecer.  Quando o levei ele estava com o olhar distante, talvez pensando em Marianne e no filho, o que, não nego, deixou-me um pouco enciumada. Todavia reconheci ser compreensível.
- Cem reais pelo seu pensamento.
                Rick sorriu. E que sorriso lindo!
- Não há necessidade de tanto. Estava pensando no que leva uma pessoa como você a fazer o que está fazendo por mim. Tem consciência de que pode se meter numa enrascada?
- Tenho. Sei que o filho de Sorenson pode achar você aqui, apesar de ser bem difícil isso acontecer. O que importa é que você se recupere e, espero, sem maiores problemas.
- Você mora aqui sozinha? Só tem esse quarto?
- É. Mas não se preocupe. Vê aquela poltroninha ali? Ela vira uma cama. Pois é; ela serve para acolher algumas amigas vez por outra quando a gente sai e fica tarde pra que voltem pra casa. É ali que vou dormir pra que você fique a vontade e se restabeleça bem.
- Larissa, eu durmo na poltrona. Ela é confortável.
- Não, Rick. Você está muito fraco e é melhor que fique o mais confortável possível.
- Não é justo.
- É mais que justo. Agora tome a sua sopa e descanse. Vou dar uns telefonemas. Volto já.
                Quando voltei o prato estava ao lado de Rick e ele dormia. Fiquei parada, admirando aquele homem tão determinado, cheio de força, coragem, e, ao mesmo tempo, tão frágil. Meu coração acelerou e não pude negar que estava apaixonada por ele. Que loucura! Eu, apaixonada por um homem que mal conhecia. Um homem com uma história bastante complicada e que ainda amava a esposa já falecida. Cheguei mais perto e me dei conta de que havia uma imensa ferida em seu peito, uma ferida invisível aos olhos, mas perceptível a quem parasse para sentir. Naquele instante eu me converti em amor e soube que morreria por ele se fosse necessário.
                Rick ficou muito grato ao saber que pedi minhas férias acumulada para ficar cuidando dele e passávamos horas conversando. Apesar de debilitado fisicamente e de ter uma vida tão marcada, sofrida, era dotado de um humor que me tirava gargalhadas com suas tiradas imprevisíveis. Algumas vezes me deixou sem graça ao gozar comigo por me pegar contemplando seu rosto ao acordar. Até que em uma dessas vezes, ele abriu os olhos e ficou parado, fixo em mim, sem pronunciar palavra.
- Que foi, Rick?
- Estava pensando... Minha vida está dando uma guinada, me colocando de cabeça para baixo de uma forma que eu jamais esperava.
- Como assim?!
                Tocando meu rosto com suavidade e com os olhos marejados, ele me disse de maneira terna:
- Nunca pensei que pudesse amar outra vez.
                Fiquei calada, sem saber o que dizer. Meu coração parecia a ponto de saltar pela boca, tal a emoção, a alegria íntima que sentia.
- Amo você, Larissa. Mas... Admito que estou com medo e que não vejo a hora de poder voltar pra casa. Não quero que nada aconteça a você. Enlouqueceria. E aquele desgraçado é capaz de tudo. Eu vi. Eu sei.
- Nada vai me acontecer.
- Queria ter essa certeza. – O olhar dele ficou parecendo vago. - Com você vejo uma luz no fim do túnel. Depois de anos me sinto feliz de novo. Sinto vontade de viver.
                Então Rick, com muita doçura, puxou para perto meu rosto e nos beijamos pela primeira vez. Um beijo longo, cheio de desejo. Depois Rick passou a mão em minha cocha, subiu às minhas nádegas, minhas costas, e eu o auxiliei a tirar a camisa, as calças, enquanto com certa rapidez delicada desabotoou meu vestido. Senti suas mãos deslizarem sobre meu corpo e o beijei das pernas ao rosto, devagar, lambendo-lhe as virilhas com o prazer de escutar seus gemidos. Ele chupou-me os seios me levando a gritos de prazer. Depois o senti dentro de mim e foi como se estivéssemos na lua, flutuando, leves. Rick tocava-me os pontos certos. Era como se não fosse a primeira vez; parecia que conhecíamos os corpos um do outro. Foi maravilhoso poder, no fim, lavar-lhe o corpo suado, mesmo com ele na cama, já que ainda não podia ficar em pé. Tomei um banho e deitei em seu ombro. Dormimos juntos e, pela manhã, ao abrir os olhos, Rick me fitava com um leve sorriso e, sem dizer nada, numa cumplicidade de olhares, tornamos a fazer amor em jejum. Tudo estava tão perfeito que dava medo de acordarmos e nada daquilo ser real.
                Como tudo no fundo é uma fantasia, tive de colocar os pés no chão, lavar o rosto e pensar na responsabilidade de ter que dormir para acordar no dia seguinte e trabalhar. Por uns três dias não consegui dar continuidade à minha história, o cansaço não permitiu. Estava tão sedenta pelo meu sonho com Rick/Mel que no primeiro dia em que o trabalho me permitiu inventei uma dor de cabeça, um mal-estar e fui para casa. Como meus pais haviam ido ao médico e depois iriam ver meus sobrinhos, teria a tarde toda livre para sonhar e a casa para utilizar.
                Rick e eu vivemos dias de pura paixão, amor e sexo. Ele estava em excelente recuperação, já se locomovia pela casa, tomava banho, enfim só faltava mesmo um pouco mais de força. Foi nesse clima que ele recebeu um telefonema do poderoso chefão, e ele ria gostosamente quando me referia a seu superior dessa forma, e disse que teria de ir para uma casa na região dos lagos, porque tudo indicava que Joe, o filho de Sorenson, estava por lá. Entrei praticamente em pânico. Argumentei, pedi, implorei, mas Rick disse ser uma promessa, vivia há anos com o único intuito de pegá-lo e não seria agora que estava perto que daria para trás.
- Mas e nós!?
- Nós, somos outra história.
- Você ainda não está completamente bem, Rick! Está fraco fisicamente; precisa se alimentar direito. Por favor, amor, não vá!
- Não é só por mim agora, Larissa. Há um compromisso que assumi e depois, Joe está atingindo outras pessoas. Temos de pará-lo.
- Então vou com você.
- Nem pensar! Isso não é permitido.
- Se não for com você, vou sozinha e te acho de alguma forma.
                Ele fez tudo para me convencer do contrário, mas, vendo que não cederia, disse em que local ficava a casa. Imediatamente liguei para uma pousada e reservei um quarto. No dia seguinte Rick pegou o carro e foi para Búzios. Eu fui depois, no dia posterior. Para sua segurança só pude vê-lo a noite, na praia, como se tivéssemos nos conhecido ali, naquele momento. Ele saia muito durante o dia para ser visto na região e sempre dávamos um jeito de conversarmos um pouco. Ele, talvez por estar se locomovendo muito, se queixou de estar sentindo um pouco de dor na região em que foi ferido. Fiquei preocupada; ainda não havia feito nem dois meses que ele tinha passado pela cirurgia, ainda era muito recente para ele ficar zanzando da maneira que estava, porém, como ele mesmo disse, ordens eram ordens.
                No fim da semana, ao cair da tarde, liguei para o seu celular. Não o havia visto em circulação naquele dia e me preocupei. Rick atendeu e disse não estar se sentindo muito bem, mas que não fosse até ele, pelo perigo da situação. Fiquei agoniada e, meu sexto sentido gritava para que não lhe desse ouvidos e fosse passar a noite com ele.
                Ao chegar em frente a casa onde Rick estava, vi uma caminhonete parada e um homem com uma pistola encostado de forma a não chamar atenção. Percebi que algo estava errado e me esgueirei pelo quintal do vizinho, cuja casa parecia desabitada, para a entrada de serviço, onde vi, sentado um pouco afastado da porta, mas de forma atenta, um sujeito alto, forte e mal-encarado. Como Rick havia me passado o telefone do tal de Kevin para o caso de eu me ver em alguma dificuldade, liguei e, baixinho, relatei o que estava observando. Ele me agradeceu e disse que me retirasse do local o mais rápido possível.  Só que ao me dirigir para o quintal do visinho ouvi um grito vindo de dentro da casa. Parei e, logo em seguida, outro grito foi emitido e detectei a voz de Rick. Num impulso me dirigi à porta chamando-o. O tal homem mal-encarado correu em minha direção e, com o semblante de quem encontra um diamante, me pegou pelo braço e praticamente me arrastou até o quarto onde Rick se encontrava. Eu gelei ao olhar para ele e ver sua expressão de pavor.
- Quem é você? Perguntou um dos homens no extremo oposto a Rick.
                Rick me olhou com pavor.
- Uma amiga... da praia.
                Ele me olhou com um sorriso de escárnio.
                Rick estava encima da cama, de bruços, nu, com as pernas amarradas a uma tora de madeira, os braços esticados e as mãos presas com uma corda grossa de náilon os ferros da cabeceira da cama. O tal do homem, com sarcasmo, deu sinal para que os dois outros sujeitos, que estavam na altura de sua cintura, continuassem. O mais baixo, porém mais musculoso, levantou uma espécie de palmatória, mais larga que o normal e com umas pontinhas finas, parecendo cerdas de vassoura de palha de aço, e a deu com toda a força nas nádegas de Rick. Ele berrava a cada pancada e suas nádegas sangravam. Ele me olhava com lágrimas nos olhos e me desesperei sem saber o que fazer. Da primeira vez fechei os olhos e roguei a Deus que Kevin agisse rápido. Mas Joe puxou-me para mais perto de Rick e me obrigou, puxando-me os cabelos, a ficar com os olhos abertos.
- Que coisinha bonita Rick, a sua garota! Não pensei que fosse esquecer Marianne. Melhor assim. Você vai sofre, vai pagar pela morte do meu pai, por tudo o que ele passou na prisão por sua causa, e quando você estiver mais pra lá que pra cá, mas ainda consciente, vai presenciar essa belezinha perder a vida na sua frente, debaixo dos seus olhos e sem poder fazer nada.
- Seu desgraçado! Rick berrou. Você já tem a mim, já matou Marianne, meu filho, meus pais; deixa ela ir!
- Libertar uma testemunha ocular!? Acha que sou tolo Rick?
- Não. Ele não acha que você é um tolo! Mas eu sei que você é mau, um doente perverso, um louco, um insano... Falei cheia de raiva e fitando-o nos olhos.
- Cala essa boca!
- Se vou morrer de qualquer forma não há porque calar. Você verá que tenho sangue quente e não sangue de barata, porque só uma pessoa sem a menor sensibilidade, um doente cruel, é capaz de fazer o que está fazendo. Falei aos berros.
- Crueldade...
                Ele pegou um pedaço de ferro áspero em um dos lados e entregou ao outro homem que passou a raspar com força o ferro nas nádegas de Rick enquanto o outro dava-lhe com a tal palmatória na sola dos seus pés. Rick se debatia, trêmulo, num misto de dor e ódio, chorando e berrando de tal forma que não sei como não arrebentou a garganta. Ele me olhava como a pedir que tentasse alguma coisa, num desespero que quase me enlouqueceu. E quando eu percebi que estava perdendo totalmente as forças, a ponto de perder a consciência, ouvi um estrondo atrás de mim, uma mão a me puxar e os três homens, Joe e os outros dois caíram quase que ao mesmo tempo com os corpos perfurados. Só escutei o sussurro de Rick dizendo Kevin.
                Foi tudo tão rápido e ao mesmo tempo uma eternidade. Não dava para raciocinar. Tudo o que queria era abraçar Rick. Quando cheguei perto dele seus olhos quase não abriam quando me fitou com um sorriso morto e perdeu os sentidos. Pensei que estivesse morrendo, tendo um infarto, sei lá!, apenas comecei a gritar por socorro. Uns minutos após ele foi colocado em uma ambulância e, mais uma vez, estava ao seu lado. Dessa vez, porém, ele não me via, não me olhava, estava inconsciente.
                Chegando ao hospital Rick recobrou os sentidos e me chamava ininterruptamente. Os médicos tentaram fazer a assepsia primeiro, mas a dor era muita, ele não agüentava, então levaram-lhe para o centro cirúrgico para o anestesiarem e conseguirem cuidar dos ferimentos. Rick tinha as nádegas e as solar dos pés em carne viva. Após o procedimento foi conduzido ao quarto e fiquei a seu lado todo o tempo em que ficou internado. Os curativos eram dolorosos, uma espécie de segunda tortura pela qual teve de passar, e ele sempre trincava os olhos sem conseguir conter as lágrimas e segurava a minha mão. Era impossível não chorar junto a ele. Foram dias infernais nas nossas vidas, todavia estávamos juntos, unidos por um sentimento que não pensei existir daquela forma. Percebi que eu passei a ser o seu porto seguro. Eu era toda a família que ele tinha. Quando teve alta o levei para minha casa e, após se recuperar totalmente, desligou-se do Programa de Proteção de Testemunhas e arrumou trabalho numa revista, como redator. Só então fiquei sabendo que Rick tinha formação universitária em jornalismo.
                Passados uns meses nos casamos. Fizemos uma cerimônia simples, só no cartório e um almoço com os padrinhos, nossos amigos. Um ano e cinco meses depois dei a luz a uma menina, que a pedido de Rick, chama-se Marianne. Para falar a verdade, quando ele me fez esse pedido fiquei chateada e com ciúme, não concordei. Rick não insistiu, disse apenas que sentiria como se estivesse se desculpando com a ex-mulher por ter perdido a vida por causa dele. Então me coloquei no seu lugar e me dei conta de que teria o mesmo desejo, mas não disse nada. Até a hora em que nossa menina nasceu e que vi o olhar emocionado e feliz do homem a quem tanto amava, não dissera da decisão de lhe dar o nome de Marianne. Só quando ela foi colocada em meu peito e que Rick beijou a nós duas foi que lhe falei da minha decisão. Seu rosto se iluminou de tal forma que me senti a mulher mais feliz do mundo e, como se adivinhasse meu pensamento, Rick falou que também se sentia o homem mais feliz da face da terra e que não imaginava mais poder alcançar algum tipo de felicidade.
                Nesse momento imaginei um beijo no meu Rick. Um beijo que nenhuma mulher pudesse esquecer.
                Olhei o relógio e percebi que a tarde havia passado. Feliz, beijei a foto do Mel em meu quarto e fui ajeitar a mesa para o lanche, porque meus pais logo estariam de volta. Por volta das vinte e uma horas peguei outro filme do Mel, Máquina Mortífera. Queria sonhar com um Riggs todo meu.


                                                    (do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)

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