IV
Fim de
semana, esgotamento físico e mental, sem dinheiro para sair e me divertir,
relaxar. Pensei: Nesta situação o que pode me dar alegria? Conclusão: Ver
filmes com o Mel Gibson. Resolvido. Passaria o fim de semana vendo seus
trabalhos e lendo um bom livro. Creio ter visto uns seis filmes dele e tanto ri
quanto me emocionei. Domingo a noite, quando a casa já estava às escuras e em
silêncio, resolvi sonhar um pouco mais com o Mel. Agora ele estava livre e eu
não me sentiria mal em imaginar um relacionamento com ele. Porque não fantasiar
uma felicidade ao seu lado? Jamais seria verdade mesmo! Seria como escrever uma
estória ficcional. Tranquei-me no quarto, coloquei músicas de seus filmes que
havia baixado da internet e me soltei. Só que para manter total distanciamento
da minha realidade me imaginei com outro nome, seria Yane, e, já que eu seria
uma ficção, porque não me imaginar também. É. Total distanciamento até mesmo da
minha própria imagem. Fantástico!
Yane é
uma mulher esguia, pele morena, cabelos ondulados e compridos, um metro e
setenta e dois de altura. Pessoa de atitude, sensível, romântica, porém de um
romantismo equilibrado, uma postura suave e firme ao mesmo tempo. Mulher de
fibra, havia se divorciado por ter se dado conta de que vivia muito mais
sozinha após o casamento que antes. Na profissão, fotógrafa bem sucedida,
conquistou nome e um currículo que lhe garantia uma bela situação econômica. Circulava
por todas as classes sociais em busca de imagens marcantes, todavia o que mais
gostava de registrar com sua máquina eram expressões masculinas. Eram forte e,
não raro, continham uma delicadeza que não era expressada nem no corpo nem na
forma de se comunicar, o que era instigante. Por isso gostava de focalizar bem
o rosto, e mais especificamente os olhos.
Desejando
montar um álbum com fotografias apenas de rostos masculinos, rostos que
fizessem parte do mundo, decidiu viajar para vários países. Queria o registro
não só de fisionomias anônimas, desejava misturá-las a celebridades, políticos,
pessoas de alta sociedade em todo o mundo. E com esse objetivo começou seu catálogo
pela Ásia, indo a Cabul, Astana, Pequim, Cingapura, Pyongyang, Seul,
Nova Délhi, Jacarta, Teerã, Bagdá, Jerusalém, Tóquio, Amã, Beirute, Male,
Katmandu, Islamabad, Damasco, Moscou (na parte asiática); foi para a Oceania,
onde visitou Camberra, Sidney, Suva, Wellington e Apia; depois se dirigiu para
a África, onde se tocou muito com os registros da suavidade debaixo do
sofrimento, e foi a Cidade do Cabo (parte legislativa da África do Sul),
Luanda, Argel, Cairo, Trípoli, Abuja, Mogadíscio, Cartum, Tunis e Lusaka; após,
voltou à América do Sul, fazendo registros em Buenos Aires, Sucre, Brasília, Santiago,
Quito, Assunção, Lima, Montevidéo e Caracas; seguiu para a América Central
registrando rostos em Nassau, Belmopan, São José, Havana, Cidade da Guatemala,
Porto Príncipe, Kingston, Manágua, Cidade de Panamá e Castries; continuou, indo
para a Europa, realizando registros em Berlim, Viena, Bruxelas, Sarajevo,
Sofia, Madrid, Helsinque, Paris, Atenas, Dublin, Roma, onde também fez
registros no Vaticano, Varsóvia, Lisboa, Londres, Moscou, Estocolmo e Kiev; se dirigiu para o Canadá, onde foi às
cidades de Otawwa, Toronto, Montreal, Quebec, Estevan e Sainte-Julie; do Canadá
foi para o México onde fez registros na Cidade do
México, Acapulco,
Monterrey,
Cancún, Xalapa e Culiacán; após, se dirigiu aos Estados Unidos fazendo
registros em Nova Iorque, Miami, Pittsburgh, Orlando, Atlanta,
Las Vegas, Dallas, New Orleans, Washington,
Boston, São Francisco, Detroit, Filadélfia
e, por fim Los Angeles, indo a Woodland Hills, Anaheim, Compton, Torrance,
South Los Angeles, Beverly Hills, Disneylandia – local onde além
do trabalho se divertiu muito, sentindo-se um pouco criança outra vez, Hollywood
Boulevard, Venice Beach, Santa Mônica e por fim Malibu, desejando o registro da
fisionomia de algumas celebridades. Em todos esses lugares registrou
fisionomias no centro das capitais e nas periferias. Queria os olhares humanos,
de sensibilidade, mas também os olhares endurecidos pela vida difícil, pelos
sonhos mortos, pela falta do necessário.
O
último lugar escolhido foi Malibu, por achar que ali teria um pouco mais de
trabalho para o registro das fisionomias das celebridades. Desejava pegá-las
naturalmente e também com a permissão das mesmas, registrando as diferenças no
dia a dia e em estúdio. Interessava-lhe o humano de cada uma, o que está por
trás do glamour, e isso daria, com certeza, mais trabalho. Iria ter de entrar
em contato com os agentes, explicar o
objetivo do trabalho, mostrar o material já coletado e esperar a resposta da
celebridade em questão. De todas as que queria fotografar, achava que iria ter
problemas com Justin Bieber, Ashton Kutcher, Jay Leno, Johnny Depp, Nicolas
Cage, Bruce Willis, Paul McCartney, Alec Baldwin, Sylvester Stallone, John
Travolta, Leonardo DiCaprio, Ton Cruise, Brad Pitt, Michael Douglas, Robert De
Niro, Morgam Freeman, Robin Williams, Tom Hanks, George Clooney, Denzel Washington, Matt Damon, Jack Nicholson, Dustin Hoffman,
Robert Pattinson, Russel Crowe, Daniel Craig, Danny Glover, Robert Downey Jr e Mel Gibson;
todavia para sua surpresa eles não foram tão difíceis de aceitar fazer parte do
álbum, principalmente o Mel, que não fez nenhuma objeção e aceitou seu convite
de uma forma bastante gentil. E foi com quem mais ela se surpreendeu por lhe
terem dito ser ele arisco e grosseiro. Pelo contrário, foi bem gentil e se
interessou pelo seu projeto. Conversaram muito e ela compartilhou com ele os
detalhes do seu álbum. Tinha o desejo de captar a alma, os sentimentos, as
angústias e alegrias do ser humano homem em diversas realidades de vida. Por
interesse dele, mostrou-lhe com mais detalhes, parte do material já fotografado
e ambos se emocionaram bastante com o sofrimento das crianças e dos idosos
masculinos em diversas realidades, ante a fome, a dor, o abandono, e até a
solidão no meio da multidão. Mel foi o único que se interessou em ver detalhes
e isso a fez ter um outro olhar para ele.
Após
o encontro com seu agente, ela foi surpreendida pela presença do próprio para
lhe dar a resposta se aceitava se deixar fotografar. Viu diante de si um homem
simples, com uma bermuda amassada pelo uso, uma camisa de malha caída por cima
e uma sandália bem batida. Aquele homem não lhe parecia nem um pouco uma
celebridade. Depois se deixou fotografar ali mesmo, sem aparatos, sem
maquiagem, ele mesmo. Após as fotografias que retrataram o homem simples, quis
trabalhar seu visual com uma cor a mais à pele, e uma roupa mais colorida, mais
pelo lado de um esporte fino, e ele não se opôs, pelo contrário, colaborou até
dando opinião e expressando se se sentia bem ou não. Uma experiência muito
gratificante, a mais gratificante que havia tido ali, em Malibu.
Três
dias após fotografá-lo, ele ligou e marcaram de almoçarem juntos. Yane estava
entusiasmada, queria contar-lhe das fotografias que havia tirado dos jovens
surfistas nas praias, de idosos andando pela orla e no parque de Malibu. Por
outro lado estava surpresa com o convite recebido para almoçar. Mel foi
extremamente gentil e se mostrou bastante interessado em lhe rever. Homem
instigante. Nos seu olhar havia força e docilidade. Era um homem generoso,
porque enquanto andava pela rua, por duas vezes parou para ajudar duas senhoras
a atravessar a rua e, ao entrar no restaurante, antes mesmo de se sentar, pediu
ao maître que desse um prato de comida ao senhor que estava à porta e lhe havia
solicitado um sanduiche. Sentia pena de ver pessoas, crianças e idosos,
passando fome. Sentiu-se ainda mais confortável ao seu lado após este pequeno,
mas significativo gesto. Yane se sentia cada vez mais encantada com aquela celebridade
que não agia como tal.
Após
o almoço foram dar uma volta pelo parque de Malibu. Era simpático com algumas
pessoas que lhe abordavam, ao contrário do que diziam, principalmente com
senhoras e crianças, dando-lhes beijinhos no rosto. Quando percebeu estar sendo
observado e clicado por paparazzos, pediu que não continuassem por estar num
momento ao qual queria privacidade, mas eles continuaram, deixando-o bastante
chateado. Então os abordou uma segunda vez, agora de forma mais seca e
incisiva, proibindo que continuassem a segui-lo e a fotografá-lo. Como percebeu
que não adiantou, olhou-os com ar de quem os fuzilava. Irritado, perguntou se
Yane se importava de irem conversar em sua residência. Ela fez que não com um
gesto, mas intimamente havia amado toda aquela chateação porque desejava
conhecer aquele homem no seu reduto, mais intimamente. Aqueles olhos azuis
estavam mexendo na sua estrutura de uma forma que a surpreendia.
- Porque se chateou tanto deles fotografá-lo se sabe que
isso não vai deixar de ocorrer? Está cansado de saber que é assim, que uma
celebridade só consegue privacidade dentro do próprio lar.
- Isso se não tentarem invadir, como já o fizeram várias
vezes.
- Bom, aí já é mais que abuso, é total desrespeito.
Aliás, acho que os paparazzos ultrapassam o limite do bom senso. A privacidade
alheia não deve ser colocada em uma prateleira só porque uma pessoa ficou
famosa por chamar atenção devido ao seu talento. O público gosta de saber tudo
sobre o artista a quem admira, mas é o próprio artista que deve dosar esse
limite, que, com certeza, os fãs respeitam.
Mel
se surpreendeu com a opinião de Yane. Ela respeitava o artista. Mas logo
lembrou que ela mesma também era uma artista.
- Você já se sentiu assediada com sua profissão?
Ela
riu e negou com um movimento de cabeça. Fotógrafos não são, normalmente, alvo
de interesse para um grande público nem possuem o peso de um ator, um cantor,
um músico. O trabalho é realizado atrás de câmeras. Ele sabia, e Yane achou
estranho a pergunta. Ele estava dirigindo e ela o olhou de rabo de olho com
vontade de rir. Para Mel lhe ter feito essa pergunta passara alguma coisa por
sua cabeça que ela não havia atingido. Em poucos minutos estavam passando pelo
portão da sua residência.
Yane
observava cada detalhe que seus olhos conseguiam registrar. O carro parecia ter
entrado num mundo a parte, imenso, mas muito florido. Sentiu como se tivesse
andado muito para chegar à garagem e depois lhe pareceu outro estirão até à
porta de entrada da casa. Tudo de muito bom gosto e harmônico, porém nada
ostensivo, o que vinha combinar com a forma do Mel se vestir e do carro que
utilizava no seu dia a dia. Após adentrar a casa, ele a mostrou meio
superficialmente e a deixou bem a vontade. Serviu-lhe um refrigerante e se
sentou ao seu lado. Pelo modo como a olhou, Yane compreendeu que ele estava
tentando uma forma de lhe falar alguma coisa. Para facilitar, foi direta,
pedindo que ele fosse logo ao assunto. Só então compreendeu que aquele almoço
tinha um objetivo maior que ia além do seu projeto.
Ela
estava certa. Mel, queria uma oportunidade de conhecer seus comprometimentos na
vida; isso porque sua sensibilidade para captar o humano, o que desejava
através das lentes das câmeras o tinha interessado, havia tocado sua emoção e,
como tinha o projeto para um filme em que queria que as expressões fisionômicas
falassem mais que as palavras, ela seria
a profissional ideal.
- Você quer que eu faça parte do projeto do seu próximo
filme?
- Isso. Mas vou precisar de entrega total, dedicação
exclusiva. É um projeto ambicioso, quero que as expressões fisionômicas tenham
um peso maior que o diálogo, as palavras, embora não vá retirá-las ou pretenda
que o filme tenha pouca comunicação verbal. Durante a execução do projeto todo
o resto deve ficar em segundo plano, inclusive família.
- Meus projetos profissionais sempre estão acima de
qualquer coisa. Não sou uma mulher compromissada com família. Desde que me
separei, foquei minha vida no trabalho, e, como não tive filhos...
- Nunca desejou ser mãe?!
- Desejei. E como! Mas não posso ser mãe. Até inseminação
artificial tentei. Cinco tentativas frustradas. Cheguei mesmo a pensar em
barriga de aluguel, mas na época meu marido foi contra e eu acabei concordando
com ele. Isso desgastou muito nosso relacionamento porque ele queria muito ser
pai.
- Podiam ter adotado.
- É. Mas também foi uma coisa que ele não aceitava.
Brigamos muito. Por fim o casamento foi para o espaço.
- Não casou de novo?
- Até tive alguns relacionamentos em que acreditei
pudessem dar certo; mas o fato de não poder ter um filho sempre pesou. Eles desejavam
um filho que continuassem a sua história, um herdeiro. Achei por bem então não
me casar outra vez, preferi seguir meu caminho sem ninguém no meu pé, me
cobrando uma família, isso ou aquilo. Houve até um momento em que pensei adotar
uma criança, mas depois desisti. Não achei certo. Uma criança que já havia
passado pela dor do abandono merecia um lar normal, com pai, cachorro,
papagaio, enfim tudo o que pudesse constituir uma família com base sólida.
Trabalhando, acabaria por ter de coloca-la numa creche em tempo integral e
receei que isso pudesse prejudicar ainda mais o emocional de um serzinho já
castigado por uma solidão interna. É isso.
- Então posso contar com você? Ou tem algum trabalho
fixo, um contrato a ser cumprido...
- Não. Sou meu próprio patrão, dona do meu nariz. Pode
contar. Só quero saber quando vai ter início, porque pretendo terminar meu
projeto primeiro.
- Penso em começar lá pro meio do mês que vem. Dá pra
você?
- Creio que sim. Pretendo trabalhar redobrado para
concluir o álbum até o fim do mês. Conseguindo concluí-lo talvez até consiga
ter uns dias de descanso. Estou precisando.
Eles
ficaram conversando sobre o trabalho de ambos e Mel ainda falou um pouco sobre
os filhos. A admiração e o amor que sentia por cada um de forma a respeitar a
individualidade e a personalidade deles encantou ainda mais Yane. Por outro
lado a dedicação esfuziante dela pelo que fazia, o interesse que tinha pela dor
do ser humano, pelos problemas com os animais e pela agressão à terra, levou-o
a admirá-la como há muito não admirava ninguém. As horas passaram sem que ambos
sentissem. No entanto foi ela quem se deu conta do passar das horas, por ter se
tocado já ser quase uma da manhã, logo após terem comido uma comida japonesa
que, por sinal, foi preparada pelo próprio Mel, o que foi outra surpresa, ele
cozinhar. Sentia que ficara mais do que devia, mas havia sido bom demais. Ele
era solto, divertido, gostava de contar piadas e ambos haviam rido muito. Mel
apreciara seu jeito despojado, alegre, e sua gargalhada gostosa, ruidosa, leve.
Tanto que brincou chamando-a de agapornis, que significa pássaro do amor em
grego, uma espécie de periquito de canto forte. Yane se divertiu com isso e as
gargalhadas de ambos se uniram cortando o silêncio daquela imensidão de casa. Ela
voltou ao hotel animada em trabalhar com aquele homem e com os sentimentos em
ebulição.
Os
dias teriam passado rápido se ela tivesse conseguido se jogar inteiramente no
trabalho como antes, todavia o desejo de terminar o álbum e se lançar no
trabalho com Mel fizeram com que eles se arrastassem e a conclusão do mesmo
deram-lhe a sensação de uma eternidade. Ao cabo de seis dias no entanto ele lhe
telefonou ansioso para saber como andava o término do seu projeto.
- Mais uns dias e eu o concluo.
- Quantos?
- O que?
- Quantos dias?
- Talvez mais uma semana, um pouco menos. Não dá pra
determinar.
- Posso ir aí? – Houve uns segundos de silêncio. Ela não podia
crer que ele lhe telefonara querendo vê-la.
- Pode.
- Não vai atrapalhar?
- Não. Já dei o que tinha que dar por hoje. – Respondeu
com o coração acelerado, escutando ele dizer que em poucos minutos chegaria.
Não podia ser, pensava, estar acontecendo uma atração entre ambos. Aquilo
estava parecendo um sonho e acontecendo rápido demais. Ou ela estaria
fantasiando? Não, não tinha mais idade para fantasias, para enxergar o que
desejasse, para se iludir. Correu para pentear os cabelos, colocar um brilho nos
lábios e uma lavanda.
Quando
lhe informaram da sua chegada sentiu o coração quase a sair pela boca e as
pernas pareceram bambear. Há muito não se sentia daquela forma, ansiosa,
nervosa, de boca seca, tudo por saber que se encontraria com um homem que lhe
estava pondo de cabeça para baixo. Deu um sorriso de si para si, meneou a
cabeça e apressou o passo para abrir a porta.
Deus!
Aqueles olhos azuis tinham adquirido poder sobre ela. Estava com uma calça jeans
preta e uma camisa polo amarelo ovo que lhe realçavam ainda mais os olhos cor
de céu em dia ensolarado. Ele a olhava com um sorriso esperando que o
convidasse a entrar. Yane parecia paralisada, mas logo reagiu dando sinal para
que entrasse. Ele trazia uma caixa de bombons que lhe estendeu brincando que
era para ela engordar um quilinho e soltou uma ruidosa e gostosa gargalhada.
- Você acertou – disse ela pegando a caixa – sou
chocólatra. Por isso não compro, prefiro ganhar. Olhou para ele com um sorriso
largo. E ficaram se olhando por alguns segundos, até que ele se aproximou bem,
quase colando seu corpo ao dela, e tacou-lhe um beijo, que foi correspondido
sem hesitação. Não havia o que pensar, o ardor do coração e de seus corpos
falavam mais alto. Logo ele puxou-lhe a blusa enquanto ela lhe desabotoava as
calças, entregando-se a um desejo contido desde o primeiro instante. O cheiro
dele era inebriante, sua pele, gostosa, e seu beijo estonteante. Não era
possível que aquilo estivesse acontecendo. Aquele homem não podia ser tudo o
que estava demonstrando. Santo Deus, mas era e ela não podia negar a revolução
que estava causando no seu coração. Olhou para ele com admiração e observou uma
chama tão intensa de vida no seu olhar que, num pulo, pegou a sua câmera e o
fotografou solto na cama, com o fogo de vida a saltar-lhe dos olhos. Ele a
observou, surpreso, e questionou a foto. Mas aquela seria só dela, jamais a
usaria em seu trabalho. Depois, estirados, abraçadinhos, ela fez a observação
de que agiram insensatamente, como animais irracionais. Ele se sentou com os
olhos sobre ela e disse que apesar de racionais não deixavam de ser animais.
- Somos dotados de racionalidade para agirmos de maneira
sensata e não apenas por instinto como fazem os irracionais.
- Hummm!... Está arrependida?
Yane
sentou, passou as mãos nos cabelos, lhe acariciou o rosto e categoricamente
respondeu que não, embora preferisse que tivesse ocorrido de forma mais calma,
menos sôfrega. Não podia negar o que sentia por ele, mas não queria se arriscar
a sofrer. Não era uma menina para se deixar levar por um momento, como havia
acontecido. Lançando-lhe um sorriso, assegurou não ter nada haver com ele, sim
com ela. Era uma pessoa que agia com prudência, não se jogava sem antes se
sentir segura, conhecer o solo em que está pisando. Não era de se lançar a
aventuras, a não ser pelo trabalho. O que acontecera veio não só da atração, do
sentimento que surgira de forma intensa, mas também da admiração que sempre
tivera pelo profissional que ele é, a fã talvez tenha pesado muito, a fantasia
de ter o ídolo nos braços, enfim havia sido uma junção de coisas. Não desejava
um afastamento, até porque trabalhariam juntos, mas a seu ver seria bom para
ambos que se conhecessem melhor, que conversassem, que se percebessem
mutuamente. Seria bom até pelo lado profissional.
- Então você também é uma fã!?
- Sim. E isso de certa forma assusta. Entende porque é
melhor termos calma?
Mel
a escutou e admirou seu posicionamento. Uma mulher com equilíbrio, sensata.
Compreendeu sua cautela, respeitou sua decisão. Em seguida, com ar travesso
roubou-lhe um beijo.
- É só um beijinho!
Passaram
a se ver periodicamente. Almoçavam juntos num dia, jantavam no outro, iam ao
teatro juntos, passeavam. Yane terminou o álbum e se sentia plena, realizada.
No dia em que começou a trabalhar com Mel também acertou sua publicação.
Sentia-se feliz, num excelente momento profissional e como mulher. Mel, apesar
de certa instabilidade de humor, devido ao transtorno bipolar, era doce,
atencioso, divertido, um cavalheiro como poucos encontrara na vida, muito
diferente do que ouvira falar dele por muitos anos. Entretanto estar ao seu
lado profissionalmente e como mulher passou a pesar. Ela que sempre fotografara
agora estava sendo incansavelmente fotografada por paparazzos, o que a estava
irritando pelo nível de invasão. Ela respeitava a individualidade do próximo
caso alguém se manifestasse contra seus registros, o que não estava ocorrendo
com ela, que não era apenas clicada quando estava com Mel. Agora conseguia
compreender o porquê dele ser algumas vezes hostil com esses profissionais. Ter
sua vida devassada até na intimidade não era nada fácil. Já havia pedido
diversas vezes que não a fotografassem saindo do prédio onde estava morando
desde que deixara o hotel ou comendo em algum lugar, mas foi o mesmo que não
pedir nada. Em todas as revistas e meios de comunicação só se falava do novo
relacionamento do Mel com ela. Queriam saber da intimidade dos dois, se estavam
de fato namorando, se havia um compromisso sério, e chegaram até a disseminar o
casamento de ambos. Após terminarem as gravações do novo filme, durante o
lançamento do novo trabalho de Jodie Foster, Mel assumiu perante a imprensa o
relacionamento de ambos, não antes de ter sua aprovação. Agora haveria um
compromisso efetivo e eles se sentiam felizes com a decisão. Mas ao contrário
do que imaginara, o assédio dos flashes aumentara e ela passara a ser apontada
não mais como a Yane mas como a senhora Mel Gibson. Sua identidade profissional
foi afetada e ela não se sentia nem um pouco confortável com isso.
No
dia do lançamento do seu álbum a mídia anunciou o evento com “O Lançamento do
Álbum Fotográfico da futura senhora Gibson”, o que a irritou. Quando lhe
pediram uma entrevista, ela falou imediatamente e sem rodeios:
- Se querem entrevistar a profissional Yane Meireles
estou pronta, mas se querem a futura senhora Gibson, perdem seu tempo. Quero
que saibam que eu já era a fotógrafa Yane Meireles antes de conhecer o Mel. Não
quero e não vou me permitir ser, profissionalmente, a sombra dele.
Os
repórteres ficaram sem jeito e a julgaram grosseira, tanto que um dos críticos
do The New York Times se referiu a ela como uma senhora tão sem tato com a
imprensa quanto seu futuro companheiro.
Yane
se sentiu injuriada e, durante uma entrevista num Talk Show, declarou entender
os motivos de alguns artistas não serem tão simpáticos com a imprensa, visto a
mesma extrapolar em seus julgamentos, passando ao público a imagem que desejam
sobre eles e não o que são verdadeiramente, e isso porque invadem de forma
desrespeitosa a vida individual dos mesmos e não gostam de receber limites. Ela
estava irritada porque a invadiam como pessoa e a anulavam como profissional,
colocando-a como dependente do brilho e do nome do Mel. Isso ela não
permitiria. E por expor seus limites foi julgada como mal-educada e grosseira,
da mesma forma que Mel, por lhes impor limites à sua vida privada.
Sendo
questionada sobre a possibilidade de uma celebridade perder de certa forma sua
privacidade, ela reagiu asseverando que ninguém tem o direito de invadir a
individualidade de quem quer que seja a menos que isso lhe seja permitido, e a
permissão logicamente estará vinculada a um limite. Depois perguntou ao
apresentador como ele se sentiria e se permitiria caso viesse a público seu
modo de dormir, de tomar banho, de escovar os dentes, de fazer sexo com sua
esposa, obtendo como resposta que jamais permitiria tal invasão. Então Yane,
embora soubesse ter sido exagerada, disse ter de haver limites sim, e sempre,
quando se trata da vida de quem quer que seja. Ninguém gosta sequer que um
vizinho invada sua privacidade ao olhar seu quarto pela janela, e não importa
se é ou não uma celebridade. Estava falando de respeito. Olhou para a plateia
do programa e, ficando de pé, aplaudiu.
- O povo, os fãs, com raríssimas exceções, respeitam mil
vezes mais os artistas que os paparazzos e a mídia. Vocês se satisfazem com um
autografo, um abraço, um aceno, um sorriso, eles não, querem entrar dentro da
casa e quiçá no quarto. Por isso os artistas acabam sendo hostis. O mais
nojento nisso tudo é a hipocrisia em que se vive, porque os humoristas podem
gozar com a cara até do presidente mas outro artista não pode num momento em
que o levam a ficar de saco cheio, irritado, extravasar essa irritação, porque
tudo o que disser será ofensivo.
A
plateia aplaudiu e Yane agradeceu com um gesto de abraço. Havia sido
compreendida. O apresentador, no
entanto, se sentiu constrangido por se ver impelido a dar uma resposta que não
gostaria de ter exposto e deu logo um jeito de finalizar a entrevista. Mel, que
a esperava nos bastidores, exultou.
- Você foi demais! Não teve papas na língua; disse o que
nós temos vontade de dizer há muito tempo.
- Não sou de rodeios. E também não sou de engolir sapos.
- Gosto disso. Você é verdadeira, sabe se posicionar, se
fazer respeitar, não fica se escondendo atrás de máscaras. Tenho percebido essa
característica em você e a admiro cada dia mais.
Saíram
da emissora abraçadinhos, sem se preocuparem com o olhar de quem quer que
fosse. Dali foram jantar, depois resolveram caminhar na orla da praia e foram
juntos para a casa de Yane. Ela preferia assim. Era mais respeitoso com seus
filhos que sempre estavam presentes, ora um ora outro. Desejava conquista-los
aos poucos, sem se impor. Mel achava besteira, mas ela se colocava no lugar
deles e, assim, sabia perfeitamente que teria um pé atrás com qualquer mulher
que se aproximasse de seu pai até sentir no seu coração que havia realmente
amor dela por ele.
Uns
meses após, Yane ia entrando na casa de Mel para conversarem sobre mais um
projeto no qual trabalhariam juntos quando ouviu uma discussão dele com um dos
filhos e ficou claro que havia da parte deles uma dúvida quanto ao seu caráter
e sentimento. Embora tivesse escutado Mel defende-la, revolveu voltar para casa
e telefonar adiando a conversa para ter tempo de digerir o que ouvira e pensar.
Deu como desculpa estar se sentindo enjoada após ter ingerido um suco de maçã.
No dia seguinte, antes de tocarem no novo filme, Yane pediu que conversassem
sobre ambos. Ele assentiu, dando-lhe toda atenção.
- Não queria ser eu a tocar nesse assunto, mas ontem,
fiquei pensando em nós dois e acho que ficar esperando que seja você a se
posicionar não é, realmente, o melhor. Sinto que por mais que eu faça sua família
não confia realmente em mim e não desejo ficar adiando a nossa vida por causa
disso. Sou uma pessoa decidida e você sabe muito bem disso; portanto vou direto
ao assunto. Sempre fui independente, dona do meu nariz e prezo essa condição.
Não dependo e não quero depender de você economicamente, portanto creio já
estar mais que na hora de assinarmos um contrato pré-nupcial onde deve constar
claramente que não terei direito a um único centavo seu nem em se referendo a
uma possível separação nem após a sua morte. Não quero nada seu e isso deve
estar bem claro. Depois disso me sentirei a vontade para darmos a direção que
quisermos à nossa vida.
Mel
não acreditava no que ouvia. Aquela mulher diante dos seus olhos não lhe
parecia real e fugia aos parâmetros de mulher que conhecia. Não querer nada... Nem
um centavo... Seus filhos precisavam escutar aquilo. Levantou, disse compreendê-la, beijou-lhe o
rosto e disse que reuniria seus filhes para que sua decisão lhes fosse exposta.
Ela, no entanto, travou-lhe os passos. Aquela era uma decisão que dizia
respeito primeiramente aos dois e só deveria ser compartilhada após estar
juridicamente sacramentada. Antes de seus filhos era seu advogado que deveria
ser chamado, para que fosse realizado logo providenciado.
- Esse contrato, do jeito que você quer vai calar a boca
e sanar as desconfianças de muita gente, mas também vai ser um prato cheio para
fofocas e julgamento; e eu serei, com certeza, visto como mão e vaca.
- Sempre acham algum motivo para falar. Não me importo
com a imprensa, Mel, sim com sua família.
- Olha, amor, quero que saiba que embora tenha apreciado
seu posicionamento e concordar com ele a beneficio do sossego dos meus, não
acho que seja uma situação totalmente justa e, por isso, eu sei que vou
encontrar uma forma de lhe deixar alguma coisa.
- A única coisa que me interessa é o sentimento, o amor,
o respeito, a lealdade, a confiança que deve existir entre nós, porque sem isso
não relacionamento que se sustente. Eu quero ser feliz e fazer você feliz. Isso
é o que importa.
Quando
tudo estava resolvido em termos legais, eles reuniram a família, colocaram
todos cientes do contrato e marcaram o dia em que se uniriam perante a lei dos
homens, como Mel falou. Seria logo após o término das filmagens do novo
trabalho que se iniciava, já que ambos queriam passar um mês viajando pelas
ilhas gregas.
Durante
as filmagens começaram a se desentender devido ao ciúme dele em relação ao ator
que contracenava com ele. Adrian jogava charme e fazia de tudo para chamar a
atenção de Yane, que fingia não compreender seus objetivos. Mantinha com ele um
relacionamento bem profissional sem ser frisa. Mel se enraivecia e o clima nas
gravações se tornara tenso, o acabou por interferir no trabalho final de todos.
Numa das discussões que tiveram, ela cobrou-lhe confiança. Adrian não poderia
ser retirado do filme sem que a produção tivesse um significativo prejuízo, já
que as cenas gravadas teriam todas de ser refeitas. Yane não via sentido em nada
daquilo, achava que ambos se comportavam como moleques e, no meio de uma
filmagem, quando começaram as discussões, ela soltou um grito que assustou a
todos. Primeiro se dirigiu a Adrian dizendo que ele não era um homem de
verdade, digno, era amoral, e que jamais olharia para ele como mulher porque
sentia nojo de homens que não sabiam respeitar nem amigos, nem companheiros de
trabalho e nem mesmo os sentimentos de uma mulher; depois se dirigiu a Mel
dizendo-se decepcionada com sua atitude machista e de sua falta de confiança,
porque se acreditasse no seu amor saberia que nenhum homem na face da terra
poderia separá-los e que a benefício do trabalho estava se demitindo em caráter
irrevogável, indo passar umas semanas em seu país. Não permitindo que nem um
nem outro falasse, pegou a bolsa, as chaves do carro e saiu, deixando todos de
boca aberta. Mel, claro, suspendeu as gravações dos dia e foi atrás dela. Mas
Yane estava desnorteada, sua irritação era tal que não queria ouvir nem mesmo a
sua voz. Não deixou que entrasse em casa, queria estar só. Algumas horas antes
de pegar o avião, resolveu procura-lo. Não desejava ir sem que conversassem.
Ouviu os pedidos de desculpas, aceitou-as mas não voltou atrás. Seria bom dar
um tempo, repensar a relação, e desejava que Mel refletisse e percebesse não
ser seu dono para agir como tal, se referindo a ela sempre com sentido de
posse. Seriam um casal, duas pessoas com pensamentos, visões, sonhos, desejos,
planos diferentes, mas que compartilhariam sua vida íntima, solitária com o
outro se respeitando mutuamente. Assim era a sua visão de uma relação sadia e
se não fosse assim não valeria a pena irem adiante porque estariam se enganando
e logo o choque entre eles seria inevitável e o relacionamento não iria
adiante.
Na
hora do embarque Mel estava ao seu lado ouvindo a promessa de que ela voltaria.
No avião já sentia falta da sua alegria, do seu jeito doce, solto, despojado,
da sua simplicidade, suas brincadeiras, mesmo aquelas agridoces de quando
estava em crise bipolar. Sentiu ímpeto de saltar antes que decolasse e o
abraçar fortemente, mas seu coração dizia que aquilo não seria bom para ambos,
principalmente para ele, que deveria perceber que a estava magoando com seus
ciúmes e que isso demonstrava falta de confiança nela. Respirou fundo e observo
da janela que ele observava a decolagem acenando sem a certeza se ela podia
vê-lo ou não.
A
duras penas conseguiu não atender seus telefonemas por cerca de 17 dias,
deixando-o desnorteado e sem rumo, depois o atendia esporadicamente, embora
sentisse vontade de lhe falar várias vezes ao dia. Ele, por sua vez, só
conseguia deixar de pensar nela na hora do trabalho, que por sinal preferiu ter
prejuízo e refazer todas as cenas com Adrian a ter de conviver com ele
diariamente. Por causa dele Yane havia abandonado o trabalho ao seu lado. Essa,
no entanto foi uma decisão que lhe trouxe desconforto junto à equipe da
produtora e, principalmente, Bruce, seu sócio, que não concordava com o
prejuízo e discordando dele misturar seu lado profissional com o particular. Mel
até que tentou realizar mais algumas tomadas, mas não conseguiu, paralisava,
por isso a decisão. O filme, se Adrian permanecesse, seria um caos e talvez o
fim dele como ator. Não arriscaria mais sua carreira, ainda mais no momento em
que voltava a deslanchar. Apesar dos
desentendimentos, Bruce e os demais abaram por lhe dar razão ao observarem a
última cena gravada. Aquele de fato não era o Mel, estava frio na
interpretação, não passava emoção, não havia o brilho de sempre. Acabaram por
concordar que o prejuízo seria recompensado de outra forma, como afirmava Mel.
Chegando
de volta ao seu país Yane foi recebida pelos amigos com carinho e incredulidade.
Claro que todos já sabiam sobre seu relacionamento, mas havia uma certa incredulidade
misturada com curiosidade. No primeiro momento parecia estar passando por um
depoimento para ser julgada, depois que ela falava dele, de como se conheceram
e como as coisas se desenrolaram a curiosidade foi deixada de lado dando lugar
as brincadeiras que, em muitas ocasiões, julgava de mau gosto. Um mês havia se
passado quando decidiu que realizaria um trabalho para passar o tempo. Não
desejava nada que lhe prendesse por mais que uma semana, mas algo que lhe desse
prazer, ocupasse sua cabeça para não pensar nele sem parar, se sentindo vazia,
sufocada. Ficou ainda mais difícil após ter lhe atendido ao telefone. Se fosse
pessoa de permitir que a emoção tomasse as rédeas, teria voltado no dia
seguinte que chegara. Sua voz ao telefone acabava por levar-lhe às lágrimas
quando deligava ao terminar de falar com ele. Sua voz carinhosa e cheia de saudade dava-lhe vontade
de pegar o primeiro avião de volta, todavia julgava não ser apropriado no
momento, ainda mais após saber que mesmo deixando o trabalho ao seu lado, ele fez
o que ela queria ter evitado.
Quando
ele lhe contou que Adrian não continuaria como ator coadjuvante no filme, Yane
se sentiu mal, culpada por ter causado tanto transtorno, embora soubesse não
ter culpa de nada. Nesse dia brigaram ao telefone e ele acabou por desligá-lo
praticamente na sua cara. Isso a deixou bastante irritada. Minutos após ele tornou
a ligar pedindo desculpas e eles conversaram mais ou menos em paz. Havia lhe
explicado varias vezes que aquele afastamento não era um término, mas todas as
vezes que se falavam, perguntava se estava terminando, se ainda pensava em se
casar com ele. Sentia sua insegurança em relação a ela e não gostava disso,
tinha certeza de que não lhe dera motivos. No momento em que dividira com ele o
trabalho que havia pego sentiu, no seu silêncio, a insatisfação, o receio,
porque sua mudez e o tom de voz depois eram de uma tristeza que lhe cortara o
peito tal qual uma navalha.
- Mel, fala comigo! Fiquei feliz pelo trabalho que vou
realizar. Não diz nada?
- Parabéns.
- Assim... Sem emoção nenhuma?
- Não é o que quer ouvir!?
- Não. Esperei que ficasse feliz por mim, por estar
fazendo uma coisa que gosto.
- Podia estar aqui, fazendo a mesma coisa.
- Será que não entende que a sua possessividade pode nos
destruir!
- Entendo que você está se afastando.
- Pra você refletir. Não pode brigar com todo homem que
me olhar, der em cima; tem de confiar em mim, no meu amor. Por acaso fico
chateada quando você sai com sua ex-mulher?
- Meu Deus, Yane, é totalmente diferente! Estamos
separados e temos filhos juntos.
- É, mas você a amou muito! Eu poderia, sim, me sentir
insegura. Porque não? Ela lhe deu filhos, o que pesa muito entre vocês, e eu
jamais os poderei dar.
- Que bobagem! Não há como voltarmos.
- Eu sei. Mas se fosse insegura em relação a você, se não
confiasse nos seus sentimentos, poderia me sentir ameaçada. Mas não me sinto.
Será que deu para você perceber onde quero que chegue?
- Yes.
- Não há como sustentar um relacionamento sem confiança,
Mel. Você tem que confiar que meus olhos veem você, entretanto é bom que saiba
que não há quem me limite, quem me bote cabresto. Ou confia em mim ou não vamos
avante. É fato.
- Ok. Só tem olhos para mim, mas...
- Mas você não é meu dono. Nasci livre. Estamos juntos
porque nos amamos. Para mim o sentimento é o que prevalece. Não estou com você
por outro motivo. Não mantenho uma relação que não haja amor, companheirismo,
lealdade, respeito, confiança, admiração, fidelidade.
- Quero você ao meu lado.
- Se for para vivermos nossas vidas a dois, também quero
você inteiramente ao meu lado; se for para me sufocar, não. Pense nisso.
Termine seu trabalho aí enquanto realizo o meu aqui. Assim ambos teremos tempo.
- Não preciso de tempo. Respeito sua posição.
Ela
deu um sorriso que ele não viu e puxou outro assunto. Conversaram mais uma meia
hora e desligaram com o coração aos saltos. Cerca de quinze dias depois Yane
foi surpreendida pelo interfone da portaria do seu prédio perguntando se podia
deixar subir o Sr. Mel Gibson. Seu coração disparara tanto antes dele tocar a
campainha que sabia não conseguir resistir à imensa saudade que sentia e ao
desejo de apertá-lo em seus braços. Quando o viu à sua porta, um sorriso largo
e um buque de flores vermelhas na mão, mesmo antes de manda-lo entrar se atirou
em seu pescoço. Não dava para segurar a alegria de vê-lo. Sentia a cabeça a
mil. Ele largara tudo para ir até ela. O beijo que se seguiu foi longo, em
acordo com a saudade que sentiam. Ele a empurrou com delicadeza para dentro e
fechou a porta com os pés. As flores
foram colocadas rapidamente em cima da mesa, num esticar de braço. Logo estavam
no quarto, inteiramente entregues um ao outro. Era muito bom sentir o seu
cheiro, sua pele morna, seus lábios inigualáveis. Yane não pensava em nada que
não fosse aproveitar aquele momento. Ambos estavam felizes. Depois se entregaram
ao sono abraçadinhos, tão abraçados que quem olhasse de relance podia imaginar
ser apenas uma pessoa.
Já
havia escurecido quando Yane acordou. Se desvencilhou devagar para não
acordá-lo e ficou admirando seu rosto, cada detalhe, cada marca de expressão;
tudo nele era harmonioso, nem a idade havia alterado sua beleza, apenas
modificado. Cheirou seus cabelos, acariciando-os delicadamente. Ele abriu os
olhos minutos depois, percebendo sua admiração. Sorriu e recostou ao seu lado.
- Você é louco, amor!
- Acho que um de nós tem que ser. – Falou com um sorriso
maroto. Não dava mais, querida. Eu sei que fui infantil, que errei. Não é uma
justificativa, Yane, mas... Depois que me separei já tive tantas decepções! Sei
lá!... Bateu medo, insegurança. Afinal, você é uma mulher e tanto!
Yane
lhe acariciou o rosto, beijou-lhe a os lábios com delicadeza, puxou-lhe a
cabeça para seu colo com a ternura com que uma mãe o faz a um filho e sorriu
fitando longamente o fundo dos seus olhos.
- Não tem porque se sentir inseguro comigo. Não tive
muitos relacionamentos, não sou o tipo de mulher que não sabe lidar com a
solidão, muito pelo contrário. Gosto de estar comigo mesma. Os dois
relacionamentos que tive após o término do meu casamento não chagaram onde
estou chegando com você.
- Como assim?
- Você me pediu em casamento, planejamos uma vida a dois
de uma forma muito concreta. Com os outros não permiti que chegassem a tanto. Percebendo
que a paternidade seria um problema, não deixei que fossem avante; não queria
passar por tudo o que já havia experienciado antes. Não sou masoquista.
- Então o fato de eu não querer mais filhos foi o que me
deu uma chance com você!?
- Isso. Portanto não há motivo para fantasias bobas entre
nós. Você faz com que me sinta inteira, não uma árvore seca, embora eu aprecie
uma árvore sem folhas no outono, ou aparentemente sem vida, morta. Para mim são
a imagem da renovação. Taí, no meu próximo trabalho vou fazer o registro de
diversos tipos de árvores em diversos períodos e estações. O que acha?
- Magnífico. Se eu puder vou participar de alguns dos
seus registros.
- Farei questão, porque há árvores que são bem típicas de
certas regiões e países, o que me levará a viagens e não gostaria de ficar
muito tempo longe de você.
- Vem comigo. Espera eu acabar esse trabalho. Depois, só vou pegar outro no meio do próximo
ano.
- Tudo bem, Mel. Só não esquece que pássaros selvagens
não vivem em gaiolas.
- Eu sei. Por isso vim. Também não sou de me deixar
engaiolar.
Na
manhã seguinte Mel marcou o voo de volta para dali há uma semana, tempo em que
Yane poderia terminar o seu trabalho, arrumar seus pertences e se despedir do
pai, a quem não via há quase cinco anos, desde que brigaram após o enterro da
mãe. Ela queria vê-lo, fazer as pazes, convidá-lo para seu casamento. Era seu
único elo familiar desde que, ainda muito pequena, ele rompera com o resto da
família e mudou de cidade junto com sua mãe. Lembrava que ela desejava rever os
familiares e ele não permitia. Havia presenciado muitas brigas por causa disso.
O fato no entanto é que foi criada longe dos tios, primos e até dos avós. Não
havia entre ela e os familiares nenhum tipo de afeição, e sequer lembrava do
rosto deles. Mesmo assim, quando sua mãe faleceu, desejou entrar em contato e
notificar seu falecimento, mas seu pai não permitiu. Jamais compreendera essa
sua atitude e nem o motivo de nem ele falar na própria família. Parecia, quando
pequena, que ele não havia tido uma família, coisa que a intrigava, e as poucas
vezes que tocou no assunto ouviu como resposta que havia nascido de uma
chocadeira, o que cortava toda e qualquer possibilidade de continuar a querer
saber quem ele era antes de sua mãe. Conjeturara varias vezes a possibilidade
de ele ter sido abandonado em algum orfanato, mas aquilo não combinava com seu
histórico escolar, já que estudara em bons colégios. Seu pai era um enigma
amargo. Sua mãe uma mulher submissa que se resignara a ser uma pessoa sem
sonhos, sem desejos, sem vontade própria. Conhecia um pouco da família dela
porque às vezes, enquanto ele trabalhava, sua mãe falava-lhe sobre seus avós,
seu irmão e suas duas irmãs, mas quando ela perguntava do motivo que levou ao
afastamento ela desconversava e não respondia. Dizia apenas que havia certas
coisas que não deveriam ser relembradas e trocava de assunto. Todavia sentia o
quão aquilo a fazia sofrer Ela não era feliz. Acostumara ser a sombra do seu
pai.
Na
adolescência percebeu que não desejava para si uma vida na qual tivesse de se
anular, não ser ela mesma, e decidiu que sairia de casa tão logo tivesse
condições de se sustentar. Sentiu que se permanecesse ali seu pai faria o mesmo
com ela. Aos dezenove anos arranjou um emprego e começou a trabalhar e estudar,
o desagradou muito os pais, principalmente a ele, o que levou a muitas brigas
até que passou pra a faculdade e saiu de casa com o pretexto de que a mesma
ficava muito longe e que seria menos cansativo morar mais perto. Não voltou mais, a não ser para visita-los e
em datas comemorativas.
Quando
lhes disse que se casaria e lhe apresentou seu ex-marido, seu pai foi contra,
justificando que percebia que ele não era um homem de caráter, o que não era
verdade. Seu casamento não havia dado certo por outro motivo, não porque ele
não tinha caráter ou era desonesto. Ele poderia sim, ser acusado de não amá-la
o suficiente e de ter sensibilidade suficiente para lidar com a sua
impossibilidade de gerar um filho. Quando ela se separou não encontrou apoio
algum nos pais. Não que a mãe não a quisesse ao seu lado, mas porque fazia o
que lhe era imposto pelo marido. Muitas vezes ligara para ela para lhe
aconselhar, mas só quando ele não estava em casa. Assim se acostumou à solidão,
a estar com ela mesma, a resolver seus próprios problemas, a ser independente.
Ainda assim, desejava tentar mais uma vez uma convivência pacífica com o pai.
Ele estava velho e sozinho, talvez tivesse se tornado mais acessível. Assim,
antes de embarcar de volta a Malibu, voltou à casa em fora criada. Tocou a
campainha e uma moça de cerca de vinte anos, com um avental, veio atender. Ele
estava na cozinha tomando um prato de sopa quando ela entrou acompanhado do Mel
e ele a olhou sem com o rabo do olho sem se mover. Acabou de ingerir a sopa, se
levantou e se dirigiu à sala, onde ela o esperava. A moça, se sentido sem
graça, ofereceu-lhes um café e, se desculpando, disse estar na sua hora, que
tinha que ir embora. Yane não se surpreendeu. Era sua mãe quem fazia tudo
dentro de casa e apesar de saber que seu pai criticava a comida de todas as
pessoas com quem muito poucas vezes almoçara, agora, sem ela e sem saber
cozinhar ou cuidar de uma casa, nada mais normal que ele pagar a alguém para
fazê-lo.
Ao
aparecer na sala, ele a olhou, pigarreou e lhe perguntou o que a levara ali.
- Vim ver o senhor
e lhe apresentar meu futuro marido.
- Se foi para isso seria melhor não ter vindo. Sei quem
ele é e sei que mais uma vez você vai dar com os burros na água. Da outra vez
veio chorar no colo da sua mãe, mas dessa vez ela não estará aqui e eu não vou
querer saber. Já está com bastante idade pra fazer outra besteira.
- Pai, não vim brigar nem vim com o intuito de pedir sua
aprovação. Vim apenas por respeito, porque desejei que pudéssemos ter algum
tipo de convivência pacífica, como pai e filha, e que apresentar meu futuro
marido faz parte disso.
- Não goto de homens que batem em mulheres. Nunca
levantei a mão para sua mãe. Eu vi na tv.
- Ele não fez isso. A mídia fala sem saber, pra ter
ibope. Você não o conhece.
- Senhor, a coisa não foi exatamente o que a mídia e a
imprensa veicularam. Minha ralação com a mãe da minha filha mais nova foi bem
traumática e decepcionante. Ninguém sabe nada a esse respeito a não ser eu e
ela.
- Não gosto de você.
- Só pensei que talvez pudesse ir... Mas deixa pra lá,
acho que nunca vamos nos entender. É triste, porque sua família sou eu e... Só
tenho você. Se ao menos não tivesse se afastado de todos os familiares.
- Nunca mais toque nesse assunto! Eu a proíbo! – Gritou
com Yane.
- Você pode nunca ter batido na mamãe fisicamente, mas
bateu nela muitas e muitas vezes em palavras, como está fazendo comigo agora.
- Se veio me tirar a paz, pode ir embora.
- E vou. Só que dessa vez eu vou pra nunca mais voltar.
Nem pra enterrá-lo. Infelizmente você vai morrer sozinho, e isso porque nunca
se deu a ninguém. Nem a mim. E quer saber, nem à mamãe, porque sempre fez dela
uma empregada sua, sem direito a pensar por ela mesma, a desejar seja lá o que
fosse, a sonhar.
- Cala essa boca porque você está na minha casa! – Falou
aos berros.
- Bem, os meus berros não foram maiores que o do senhor
agora. – Falou Mel com certo sarcasmo.
Yane
pegou sua bolsa e saiu acompanhada de Mel. No carro caiu em pranto. Um choro
convulsivo, de dor. Não era uma dor física, mas tão cortante quanto. Mel a
acalmou tentando amenizar sugerindo que talvez ele não estivesse no seu juízo
perfeito. Entretanto ela sabia que ele sempre fora assim. No dia seguinte
acordou ainda triste, mas já capaz de prosseguir, levar a própria vida sem
pensar mais nele. Talvez um dia procurasse os familiares e talvez descobrisse o
porquê do pai ser como era. Naquele momento em que fechava as malar para voltar
a Malibú, queria apenas pensar que se casaria com Mel e que seriam felizes. Não
se permitia pensar em mais nada.
Da
janela do avião olhou para baixo como se tivesse se despedindo de um lugar para
onde não voltaria, muito embora no íntimo soubesse que o faria quantas vezes
fosse preciso para realizar algum trabalho e sua terra era rica em árvores
lindas e bem típicas. Não demoraria tanto a voltar. Deitou a cabeça no ombro do
Mel e apertou sua mão. Ele a beijou com ternura.
(do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)
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