Caro leitor, seja muito bem vindo a essas despretensiosas páginas.
Desejo falar ao seu coração não apenas com os meus poemas, mas também pelas mensagens, orações e reflexões aqui colocadas a seu dispor.
Que o coração do Divino Mestre Jesus os ilumine e abençoe sempre.
Aqui, você está livre também para desabafar seus problemas e angústias.
Darei um retorno tão logo possa e opinarei se assim você desejar.
Fique a vontade. Aqui você, internauta, vai encontrar uma amiga com o coração aberto a lhe auxiliar dentro dos meus limites, mas sempre com carinho, respeito e espírito fraterno.
NAMASTÉ.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

IV

                Fim de semana, esgotamento físico e mental, sem dinheiro para sair e me divertir, relaxar. Pensei: Nesta situação o que pode me dar alegria? Conclusão: Ver filmes com o Mel Gibson. Resolvido. Passaria o fim de semana vendo seus trabalhos e lendo um bom livro. Creio ter visto uns seis filmes dele e tanto ri quanto me emocionei. Domingo a noite, quando a casa já estava às escuras e em silêncio, resolvi sonhar um pouco mais com o Mel. Agora ele estava livre e eu não me sentiria mal em imaginar um relacionamento com ele. Porque não fantasiar uma felicidade ao seu lado? Jamais seria verdade mesmo! Seria como escrever uma estória ficcional. Tranquei-me no quarto, coloquei músicas de seus filmes que havia baixado da internet e me soltei. Só que para manter total distanciamento da minha realidade me imaginei com outro nome, seria Yane, e, já que eu seria uma ficção, porque não me imaginar também. É. Total distanciamento até mesmo da minha própria imagem. Fantástico!
                Yane é uma mulher esguia, pele morena, cabelos ondulados e compridos, um metro e setenta e dois de altura. Pessoa de atitude, sensível, romântica, porém de um romantismo equilibrado, uma postura suave e firme ao mesmo tempo. Mulher de fibra, havia se divorciado por ter se dado conta de que vivia muito mais sozinha após o casamento que antes. Na profissão, fotógrafa bem sucedida, conquistou nome e um currículo que lhe garantia uma bela situação econômica. Circulava por todas as classes sociais em busca de imagens marcantes, todavia o que mais gostava de registrar com sua máquina eram expressões masculinas. Eram forte e, não raro, continham uma delicadeza que não era expressada nem no corpo nem na forma de se comunicar, o que era instigante. Por isso gostava de focalizar bem o rosto, e mais especificamente os olhos.
                Desejando montar um álbum com fotografias apenas de rostos masculinos, rostos que fizessem parte do mundo, decidiu viajar para vários países. Queria o registro não só de fisionomias anônimas, desejava misturá-las a celebridades, políticos, pessoas de alta sociedade em todo o mundo. E com esse objetivo começou seu catálogo pela Ásia, indo a Cabul, Astana, Pequim, Cingapura, Pyongyang, Seul, Nova Délhi, Jacarta, Teerã, Bagdá, Jerusalém, Tóquio, Amã, Beirute, Male, Katmandu, Islamabad, Damasco, Moscou (na parte asiática); foi para a Oceania, onde visitou Camberra, Sidney, Suva, Wellington e Apia; depois se dirigiu para a África, onde se tocou muito com os registros da suavidade debaixo do sofrimento, e foi a Cidade do Cabo (parte legislativa da África do Sul), Luanda, Argel, Cairo, Trípoli, Abuja, Mogadíscio, Cartum, Tunis e Lusaka; após, voltou à América do Sul, fazendo registros em Buenos Aires, Sucre, Brasília, Santiago, Quito, Assunção, Lima, Montevidéo e Caracas; seguiu para a América Central registrando rostos em Nassau, Belmopan, São José, Havana, Cidade da Guatemala, Porto Príncipe, Kingston, Manágua, Cidade de Panamá e Castries; continuou, indo para a Europa, realizando registros em Berlim, Viena, Bruxelas, Sarajevo, Sofia, Madrid, Helsinque, Paris, Atenas, Dublin, Roma, onde também fez registros no Vaticano, Varsóvia, Lisboa, Londres, Moscou, Estocolmo e  Kiev; se dirigiu para o Canadá, onde foi às cidades de Otawwa, Toronto, Montreal, Quebec, Estevan e Sainte-Julie; do Canadá foi para o México onde fez registros na Cidade do México, Acapulco, Monterrey, Cancún, Xalapa e Culiacán; após, se dirigiu aos Estados Unidos fazendo registros em Nova Iorque, Miami, Pittsburgh, Orlando, Atlanta, Las Vegas, Dallas, New Orleans, Washington, Boston, São Francisco, Detroit, Filadélfia e, por fim Los Angeles, indo a Woodland Hills, Anaheim, Compton, Torrance, South Los Angeles, Beverly Hills, Disneylandia – local onde além do trabalho se divertiu muito, sentindo-se um pouco criança outra vez, Hollywood Boulevard, Venice Beach, Santa Mônica e por fim Malibu, desejando o registro da fisionomia de algumas celebridades. Em todos esses lugares registrou fisionomias no centro das capitais e nas periferias. Queria os olhares humanos, de sensibilidade, mas também os olhares endurecidos pela vida difícil, pelos sonhos mortos, pela falta do necessário.
                O último lugar escolhido foi Malibu, por achar que ali teria um pouco mais de trabalho para o registro das fisionomias das celebridades. Desejava pegá-las naturalmente e também com a permissão das mesmas, registrando as diferenças no dia a dia e em estúdio. Interessava-lhe o humano de cada uma, o que está por trás do glamour, e isso daria, com certeza, mais trabalho. Iria ter de entrar em  contato com os agentes, explicar o objetivo do trabalho, mostrar o material já coletado e esperar a resposta da celebridade em questão. De todas as que queria fotografar, achava que iria ter problemas com Justin Bieber, Ashton Kutcher, Jay Leno, Johnny Depp, Nicolas Cage, Bruce Willis, Paul McCartney, Alec Baldwin, Sylvester Stallone, John Travolta, Leonardo DiCaprio, Ton Cruise, Brad Pitt, Michael Douglas, Robert De Niro, Morgam Freeman, Robin Williams, Tom Hanks, George Clooney, Denzel Washington, Matt Damon, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Robert Pattinson, Russel Crowe, Daniel Craig,  Danny Glover, Robert Downey Jr e Mel Gibson; todavia para sua surpresa eles não foram tão difíceis de aceitar fazer parte do álbum, principalmente o Mel, que não fez nenhuma objeção e aceitou seu convite de uma forma bastante gentil. E foi com quem mais ela se surpreendeu por lhe terem dito ser ele arisco e grosseiro. Pelo contrário, foi bem gentil e se interessou pelo seu projeto. Conversaram muito e ela compartilhou com ele os detalhes do seu álbum. Tinha o desejo de captar a alma, os sentimentos, as angústias e alegrias do ser humano homem em diversas realidades de vida. Por interesse dele, mostrou-lhe com mais detalhes, parte do material já fotografado e ambos se emocionaram bastante com o sofrimento das crianças e dos idosos masculinos em diversas realidades, ante a fome, a dor, o abandono, e até a solidão no meio da multidão. Mel foi o único que se interessou em ver detalhes e isso a fez ter um outro olhar para ele.
                Após o encontro com seu agente, ela foi surpreendida pela presença do próprio para lhe dar a resposta se aceitava se deixar fotografar. Viu diante de si um homem simples, com uma bermuda amassada pelo uso, uma camisa de malha caída por cima e uma sandália bem batida. Aquele homem não lhe parecia nem um pouco uma celebridade. Depois se deixou fotografar ali mesmo, sem aparatos, sem maquiagem, ele mesmo. Após as fotografias que retrataram o homem simples, quis trabalhar seu visual com uma cor a mais à pele, e uma roupa mais colorida, mais pelo lado de um esporte fino, e ele não se opôs, pelo contrário, colaborou até dando opinião e expressando se se sentia bem ou não. Uma experiência muito gratificante, a mais gratificante que havia tido ali, em Malibu.
                Três dias após fotografá-lo, ele ligou e marcaram de almoçarem juntos. Yane estava entusiasmada, queria contar-lhe das fotografias que havia tirado dos jovens surfistas nas praias, de idosos andando pela orla e no parque de Malibu. Por outro lado estava surpresa com o convite recebido para almoçar. Mel foi extremamente gentil e se mostrou bastante interessado em lhe rever. Homem instigante. Nos seu olhar havia força e docilidade. Era um homem generoso, porque enquanto andava pela rua, por duas vezes parou para ajudar duas senhoras a atravessar a rua e, ao entrar no restaurante, antes mesmo de se sentar, pediu ao maître que desse um prato de comida ao senhor que estava à porta e lhe havia solicitado um sanduiche. Sentia pena de ver pessoas, crianças e idosos, passando fome. Sentiu-se ainda mais confortável ao seu lado após este pequeno, mas significativo gesto. Yane se sentia cada vez mais encantada com aquela celebridade que não agia como tal.
                Após o almoço foram dar uma volta pelo parque de Malibu. Era simpático com algumas pessoas que lhe abordavam, ao contrário do que diziam, principalmente com senhoras e crianças, dando-lhes beijinhos no rosto. Quando percebeu estar sendo observado e clicado por paparazzos, pediu que não continuassem por estar num momento ao qual queria privacidade, mas eles continuaram, deixando-o bastante chateado. Então os abordou uma segunda vez, agora de forma mais seca e incisiva, proibindo que continuassem a segui-lo e a fotografá-lo. Como percebeu que não adiantou, olhou-os com ar de quem os fuzilava. Irritado, perguntou se Yane se importava de irem conversar em sua residência. Ela fez que não com um gesto, mas intimamente havia amado toda aquela chateação porque desejava conhecer aquele homem no seu reduto, mais intimamente. Aqueles olhos azuis estavam mexendo na sua estrutura de uma forma que a surpreendia.
- Porque se chateou tanto deles fotografá-lo se sabe que isso não vai deixar de ocorrer? Está cansado de saber que é assim, que uma celebridade só consegue privacidade dentro do próprio lar.
- Isso se não tentarem invadir, como já o fizeram várias vezes.
- Bom, aí já é mais que abuso, é total desrespeito. Aliás, acho que os paparazzos ultrapassam o limite do bom senso. A privacidade alheia não deve ser colocada em uma prateleira só porque uma pessoa ficou famosa por chamar atenção devido ao seu talento. O público gosta de saber tudo sobre o artista a quem admira, mas é o próprio artista que deve dosar esse limite, que, com certeza, os fãs respeitam.
                Mel se surpreendeu com a opinião de Yane. Ela respeitava o artista. Mas logo lembrou que ela mesma também era uma artista.
- Você já se sentiu assediada com sua profissão?
                Ela riu e negou com um movimento de cabeça. Fotógrafos não são, normalmente, alvo de interesse para um grande público nem possuem o peso de um ator, um cantor, um músico. O trabalho é realizado atrás de câmeras. Ele sabia, e Yane achou estranho a pergunta. Ele estava dirigindo e ela o olhou de rabo de olho com vontade de rir. Para Mel lhe ter feito essa pergunta passara alguma coisa por sua cabeça que ela não havia atingido. Em poucos minutos estavam passando pelo portão da sua residência.
                Yane observava cada detalhe que seus olhos conseguiam registrar. O carro parecia ter entrado num mundo a parte, imenso, mas muito florido. Sentiu como se tivesse andado muito para chegar à garagem e depois lhe pareceu outro estirão até à porta de entrada da casa. Tudo de muito bom gosto e harmônico, porém nada ostensivo, o que vinha combinar com a forma do Mel se vestir e do carro que utilizava no seu dia a dia. Após adentrar a casa, ele a mostrou meio superficialmente e a deixou bem a vontade. Serviu-lhe um refrigerante e se sentou ao seu lado. Pelo modo como a olhou, Yane compreendeu que ele estava tentando uma forma de lhe falar alguma coisa. Para facilitar, foi direta, pedindo que ele fosse logo ao assunto. Só então compreendeu que aquele almoço tinha um objetivo maior que ia além do seu projeto.
                Ela estava certa. Mel, queria uma oportunidade de conhecer seus comprometimentos na vida; isso porque sua sensibilidade para captar o humano, o que desejava através das lentes das câmeras o tinha interessado, havia tocado sua emoção e, como tinha o projeto para um filme em que queria que as expressões fisionômicas falassem mais que as palavras,  ela seria a profissional ideal.
- Você quer que eu faça parte do projeto do seu próximo filme?
- Isso. Mas vou precisar de entrega total, dedicação exclusiva. É um projeto ambicioso, quero que as expressões fisionômicas tenham um peso maior que o diálogo, as palavras, embora não vá retirá-las ou pretenda que o filme tenha pouca comunicação verbal. Durante a execução do projeto todo o resto deve ficar em segundo plano, inclusive família.
- Meus projetos profissionais sempre estão acima de qualquer coisa. Não sou uma mulher compromissada com família. Desde que me separei, foquei minha vida no trabalho, e, como não tive filhos...
- Nunca desejou ser mãe?!
- Desejei. E como! Mas não posso ser mãe. Até inseminação artificial tentei. Cinco tentativas frustradas. Cheguei mesmo a pensar em barriga de aluguel, mas na época meu marido foi contra e eu acabei concordando com ele. Isso desgastou muito nosso relacionamento porque ele queria muito ser pai.
- Podiam ter adotado.
- É. Mas também foi uma coisa que ele não aceitava. Brigamos muito. Por fim o casamento foi para o espaço.
- Não casou de novo?
- Até tive alguns relacionamentos em que acreditei pudessem dar certo; mas o fato de não poder ter um filho sempre pesou. Eles desejavam um filho que continuassem a sua história, um herdeiro. Achei por bem então não me casar outra vez, preferi seguir meu caminho sem ninguém no meu pé, me cobrando uma família, isso ou aquilo. Houve até um momento em que pensei adotar uma criança, mas depois desisti. Não achei certo. Uma criança que já havia passado pela dor do abandono merecia um lar normal, com pai, cachorro, papagaio, enfim tudo o que pudesse constituir uma família com base sólida. Trabalhando, acabaria por ter de coloca-la numa creche em tempo integral e receei que isso pudesse prejudicar ainda mais o emocional de um serzinho já castigado por uma solidão interna. É isso.
- Então posso contar com você? Ou tem algum trabalho fixo, um contrato a ser cumprido...
- Não. Sou meu próprio patrão, dona do meu nariz. Pode contar. Só quero saber quando vai ter início, porque pretendo terminar meu projeto primeiro.
- Penso em começar lá pro meio do mês que vem. Dá pra você?
- Creio que sim. Pretendo trabalhar redobrado para concluir o álbum até o fim do mês. Conseguindo concluí-lo talvez até consiga ter uns dias de descanso. Estou precisando.
                Eles ficaram conversando sobre o trabalho de ambos e Mel ainda falou um pouco sobre os filhos. A admiração e o amor que sentia por cada um de forma a respeitar a individualidade e a personalidade deles encantou ainda mais Yane. Por outro lado a dedicação esfuziante dela pelo que fazia, o interesse que tinha pela dor do ser humano, pelos problemas com os animais e pela agressão à terra, levou-o a admirá-la como há muito não admirava ninguém. As horas passaram sem que ambos sentissem. No entanto foi ela quem se deu conta do passar das horas, por ter se tocado já ser quase uma da manhã, logo após terem comido uma comida japonesa que, por sinal, foi preparada pelo próprio Mel, o que foi outra surpresa, ele cozinhar. Sentia que ficara mais do que devia, mas havia sido bom demais. Ele era solto, divertido, gostava de contar piadas e ambos haviam rido muito. Mel apreciara seu jeito despojado, alegre, e sua gargalhada gostosa, ruidosa, leve. Tanto que brincou chamando-a de agapornis, que significa pássaro do amor em grego, uma espécie de periquito de canto forte. Yane se divertiu com isso e as gargalhadas de ambos se uniram cortando o silêncio daquela imensidão de casa. Ela voltou ao hotel animada em trabalhar com aquele homem e com os sentimentos em ebulição.
                Os dias teriam passado rápido se ela tivesse conseguido se jogar inteiramente no trabalho como antes, todavia o desejo de terminar o álbum e se lançar no trabalho com Mel fizeram com que eles se arrastassem e a conclusão do mesmo deram-lhe a sensação de uma eternidade. Ao cabo de seis dias no entanto ele lhe telefonou ansioso para saber como andava o término do seu projeto.
- Mais uns dias e eu o concluo.
- Quantos?
- O que?
- Quantos dias?
- Talvez mais uma semana, um pouco menos. Não dá pra determinar.
- Posso ir aí? – Houve uns segundos de silêncio. Ela não podia crer que ele lhe telefonara querendo vê-la.
- Pode.
- Não vai atrapalhar?
- Não. Já dei o que tinha que dar por hoje. – Respondeu com o coração acelerado, escutando ele dizer que em poucos minutos chegaria. Não podia ser, pensava, estar acontecendo uma atração entre ambos. Aquilo estava parecendo um sonho e acontecendo rápido demais. Ou ela estaria fantasiando? Não, não tinha mais idade para fantasias, para enxergar o que desejasse, para se iludir. Correu para pentear os cabelos, colocar um brilho nos lábios e uma lavanda.
                Quando lhe informaram da sua chegada sentiu o coração quase a sair pela boca e as pernas pareceram bambear. Há muito não se sentia daquela forma, ansiosa, nervosa, de boca seca, tudo por saber que se encontraria com um homem que lhe estava pondo de cabeça para baixo. Deu um sorriso de si para si, meneou a cabeça e apressou o passo para abrir a porta.
                Deus! Aqueles olhos azuis tinham adquirido poder sobre ela. Estava com uma calça jeans preta e uma camisa polo amarelo ovo que lhe realçavam ainda mais os olhos cor de céu em dia ensolarado. Ele a olhava com um sorriso esperando que o convidasse a entrar. Yane parecia paralisada, mas logo reagiu dando sinal para que entrasse. Ele trazia uma caixa de bombons que lhe estendeu brincando que era para ela engordar um quilinho e soltou uma ruidosa e gostosa gargalhada.
- Você acertou – disse ela pegando a caixa – sou chocólatra. Por isso não compro, prefiro ganhar. Olhou para ele com um sorriso largo. E ficaram se olhando por alguns segundos, até que ele se aproximou bem, quase colando seu corpo ao dela, e tacou-lhe um beijo, que foi correspondido sem hesitação. Não havia o que pensar, o ardor do coração e de seus corpos falavam mais alto. Logo ele puxou-lhe a blusa enquanto ela lhe desabotoava as calças, entregando-se a um desejo contido desde o primeiro instante. O cheiro dele era inebriante, sua pele, gostosa, e seu beijo estonteante. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo. Aquele homem não podia ser tudo o que estava demonstrando. Santo Deus, mas era e ela não podia negar a revolução que estava causando no seu coração. Olhou para ele com admiração e observou uma chama tão intensa de vida no seu olhar que, num pulo, pegou a sua câmera e o fotografou solto na cama, com o fogo de vida a saltar-lhe dos olhos. Ele a observou, surpreso, e questionou a foto. Mas aquela seria só dela, jamais a usaria em seu trabalho. Depois, estirados, abraçadinhos, ela fez a observação de que agiram insensatamente, como animais irracionais. Ele se sentou com os olhos sobre ela e disse que apesar de racionais não deixavam de ser animais.
- Somos dotados de racionalidade para agirmos de maneira sensata e não apenas por instinto como fazem os irracionais.
- Hummm!... Está arrependida?
                Yane sentou, passou as mãos nos cabelos, lhe acariciou o rosto e categoricamente respondeu que não, embora preferisse que tivesse ocorrido de forma mais calma, menos sôfrega. Não podia negar o que sentia por ele, mas não queria se arriscar a sofrer. Não era uma menina para se deixar levar por um momento, como havia acontecido. Lançando-lhe um sorriso, assegurou não ter nada haver com ele, sim com ela. Era uma pessoa que agia com prudência, não se jogava sem antes se sentir segura, conhecer o solo em que está pisando. Não era de se lançar a aventuras, a não ser pelo trabalho. O que acontecera veio não só da atração, do sentimento que surgira de forma intensa, mas também da admiração que sempre tivera pelo profissional que ele é, a fã talvez tenha pesado muito, a fantasia de ter o ídolo nos braços, enfim havia sido uma junção de coisas. Não desejava um afastamento, até porque trabalhariam juntos, mas a seu ver seria bom para ambos que se conhecessem melhor, que conversassem, que se percebessem mutuamente. Seria bom até pelo lado profissional.
- Então você também é uma fã!?
- Sim. E isso de certa forma assusta. Entende porque é melhor termos calma?
                Mel a escutou e admirou seu posicionamento. Uma mulher com equilíbrio, sensata. Compreendeu sua cautela, respeitou sua decisão. Em seguida, com ar travesso roubou-lhe um beijo.
- É só um beijinho!
                Passaram a se ver periodicamente. Almoçavam juntos num dia, jantavam no outro, iam ao teatro juntos, passeavam. Yane terminou o álbum e se sentia plena, realizada. No dia em que começou a trabalhar com Mel também acertou sua publicação. Sentia-se feliz, num excelente momento profissional e como mulher. Mel, apesar de certa instabilidade de humor, devido ao transtorno bipolar, era doce, atencioso, divertido, um cavalheiro como poucos encontrara na vida, muito diferente do que ouvira falar dele por muitos anos. Entretanto estar ao seu lado profissionalmente e como mulher passou a pesar. Ela que sempre fotografara agora estava sendo incansavelmente fotografada por paparazzos, o que a estava irritando pelo nível de invasão. Ela respeitava a individualidade do próximo caso alguém se manifestasse contra seus registros, o que não estava ocorrendo com ela, que não era apenas clicada quando estava com Mel. Agora conseguia compreender o porquê dele ser algumas vezes hostil com esses profissionais. Ter sua vida devassada até na intimidade não era nada fácil. Já havia pedido diversas vezes que não a fotografassem saindo do prédio onde estava morando desde que deixara o hotel ou comendo em algum lugar, mas foi o mesmo que não pedir nada. Em todas as revistas e meios de comunicação só se falava do novo relacionamento do Mel com ela. Queriam saber da intimidade dos dois, se estavam de fato namorando, se havia um compromisso sério, e chegaram até a disseminar o casamento de ambos. Após terminarem as gravações do novo filme, durante o lançamento do novo trabalho de Jodie Foster, Mel assumiu perante a imprensa o relacionamento de ambos, não antes de ter sua aprovação. Agora haveria um compromisso efetivo e eles se sentiam felizes com a decisão. Mas ao contrário do que imaginara, o assédio dos flashes aumentara e ela passara a ser apontada não mais como a Yane mas como a senhora Mel Gibson. Sua identidade profissional foi afetada e ela não se sentia nem um pouco confortável com isso.
                No dia do lançamento do seu álbum a mídia anunciou o evento com “O Lançamento do Álbum Fotográfico da futura senhora Gibson”, o que a irritou. Quando lhe pediram uma entrevista, ela falou imediatamente e sem rodeios:
- Se querem entrevistar a profissional Yane Meireles estou pronta, mas se querem a futura senhora Gibson, perdem seu tempo. Quero que saibam que eu já era a fotógrafa Yane Meireles antes de conhecer o Mel. Não quero e não vou me permitir ser, profissionalmente, a sombra dele.
                Os repórteres ficaram sem jeito e a julgaram grosseira, tanto que um dos críticos do The New York Times se referiu a ela como uma senhora tão sem tato com a imprensa quanto seu futuro companheiro.
                Yane se sentiu injuriada e, durante uma entrevista num Talk Show, declarou entender os motivos de alguns artistas não serem tão simpáticos com a imprensa, visto a mesma extrapolar em seus julgamentos, passando ao público a imagem que desejam sobre eles e não o que são verdadeiramente, e isso porque invadem de forma desrespeitosa a vida individual dos mesmos e não gostam de receber limites. Ela estava irritada porque a invadiam como pessoa e a anulavam como profissional, colocando-a como dependente do brilho e do nome do Mel. Isso ela não permitiria. E por expor seus limites foi julgada como mal-educada e grosseira, da mesma forma que Mel, por lhes impor limites à sua vida privada.
                Sendo questionada sobre a possibilidade de uma celebridade perder de certa forma sua privacidade, ela reagiu asseverando que ninguém tem o direito de invadir a individualidade de quem quer que seja a menos que isso lhe seja permitido, e a permissão logicamente estará vinculada a um limite. Depois perguntou ao apresentador como ele se sentiria e se permitiria caso viesse a público seu modo de dormir, de tomar banho, de escovar os dentes, de fazer sexo com sua esposa, obtendo como resposta que jamais permitiria tal invasão. Então Yane, embora soubesse ter sido exagerada, disse ter de haver limites sim, e sempre, quando se trata da vida de quem quer que seja. Ninguém gosta sequer que um vizinho invada sua privacidade ao olhar seu quarto pela janela, e não importa se é ou não uma celebridade. Estava falando de respeito. Olhou para a plateia do programa e, ficando de pé, aplaudiu.
- O povo, os fãs, com raríssimas exceções, respeitam mil vezes mais os artistas que os paparazzos e a mídia. Vocês se satisfazem com um autografo, um abraço, um aceno, um sorriso, eles não, querem entrar dentro da casa e quiçá no quarto. Por isso os artistas acabam sendo hostis. O mais nojento nisso tudo é a hipocrisia em que se vive, porque os humoristas podem gozar com a cara até do presidente mas outro artista não pode num momento em que o levam a ficar de saco cheio, irritado, extravasar essa irritação, porque tudo o que disser será ofensivo.
                A plateia aplaudiu e Yane agradeceu com um gesto de abraço. Havia sido compreendida.  O apresentador, no entanto, se sentiu constrangido por se ver impelido a dar uma resposta que não gostaria de ter exposto e deu logo um jeito de finalizar a entrevista. Mel, que a esperava nos bastidores, exultou.
- Você foi demais! Não teve papas na língua; disse o que nós temos vontade de dizer há muito tempo.
- Não sou de rodeios. E também não sou de engolir sapos.
- Gosto disso. Você é verdadeira, sabe se posicionar, se fazer respeitar, não fica se escondendo atrás de máscaras. Tenho percebido essa característica em você e a admiro cada dia mais.
                Saíram da emissora abraçadinhos, sem se preocuparem com o olhar de quem quer que fosse. Dali foram jantar, depois resolveram caminhar na orla da praia e foram juntos para a casa de Yane. Ela preferia assim. Era mais respeitoso com seus filhos que sempre estavam presentes, ora um ora outro. Desejava conquista-los aos poucos, sem se impor. Mel achava besteira, mas ela se colocava no lugar deles e, assim, sabia perfeitamente que teria um pé atrás com qualquer mulher que se aproximasse de seu pai até sentir no seu coração que havia realmente amor dela por ele.
                Uns meses após, Yane ia entrando na casa de Mel para conversarem sobre mais um projeto no qual trabalhariam juntos quando ouviu uma discussão dele com um dos filhos e ficou claro que havia da parte deles uma dúvida quanto ao seu caráter e sentimento. Embora tivesse escutado Mel defende-la, revolveu voltar para casa e telefonar adiando a conversa para ter tempo de digerir o que ouvira e pensar. Deu como desculpa estar se sentindo enjoada após ter ingerido um suco de maçã. No dia seguinte, antes de tocarem no novo filme, Yane pediu que conversassem sobre ambos. Ele assentiu, dando-lhe toda atenção.
- Não queria ser eu a tocar nesse assunto, mas ontem, fiquei pensando em nós dois e acho que ficar esperando que seja você a se posicionar não é, realmente, o melhor. Sinto que por mais que eu faça sua família não confia realmente em mim e não desejo ficar adiando a nossa vida por causa disso. Sou uma pessoa decidida e você sabe muito bem disso; portanto vou direto ao assunto. Sempre fui independente, dona do meu nariz e prezo essa condição. Não dependo e não quero depender de você economicamente, portanto creio já estar mais que na hora de assinarmos um contrato pré-nupcial onde deve constar claramente que não terei direito a um único centavo seu nem em se referendo a uma possível separação nem após a sua morte. Não quero nada seu e isso deve estar bem claro. Depois disso me sentirei a vontade para darmos a direção que quisermos à nossa vida.
                Mel não acreditava no que ouvia. Aquela mulher diante dos seus olhos não lhe parecia real e fugia aos parâmetros de mulher que conhecia. Não querer nada... Nem um centavo... Seus filhos precisavam escutar aquilo.  Levantou, disse compreendê-la, beijou-lhe o rosto e disse que reuniria seus filhes para que sua decisão lhes fosse exposta. Ela, no entanto, travou-lhe os passos. Aquela era uma decisão que dizia respeito primeiramente aos dois e só deveria ser compartilhada após estar juridicamente sacramentada. Antes de seus filhos era seu advogado que deveria ser chamado, para que fosse realizado logo providenciado.
- Esse contrato, do jeito que você quer vai calar a boca e sanar as desconfianças de muita gente, mas também vai ser um prato cheio para fofocas e julgamento; e eu serei, com certeza, visto como mão e vaca.
- Sempre acham algum motivo para falar. Não me importo com a imprensa, Mel, sim com sua família.
- Olha, amor, quero que saiba que embora tenha apreciado seu posicionamento e concordar com ele a beneficio do sossego dos meus, não acho que seja uma situação totalmente justa e, por isso, eu sei que vou encontrar uma forma de lhe deixar alguma coisa.
- A única coisa que me interessa é o sentimento, o amor, o respeito, a lealdade, a confiança que deve existir entre nós, porque sem isso não relacionamento que se sustente. Eu quero ser feliz e fazer você feliz. Isso é o que importa.
                Quando tudo estava resolvido em termos legais, eles reuniram a família, colocaram todos cientes do contrato e marcaram o dia em que se uniriam perante a lei dos homens, como Mel falou. Seria logo após o término das filmagens do novo trabalho que se iniciava, já que ambos queriam passar um mês viajando pelas ilhas gregas.
                Durante as filmagens começaram a se desentender devido ao ciúme dele em relação ao ator que contracenava com ele. Adrian jogava charme e fazia de tudo para chamar a atenção de Yane, que fingia não compreender seus objetivos. Mantinha com ele um relacionamento bem profissional sem ser frisa. Mel se enraivecia e o clima nas gravações se tornara tenso, o acabou por interferir no trabalho final de todos. Numa das discussões que tiveram, ela cobrou-lhe confiança. Adrian não poderia ser retirado do filme sem que a produção tivesse um significativo prejuízo, já que as cenas gravadas teriam todas de ser refeitas. Yane não via sentido em nada daquilo, achava que ambos se comportavam como moleques e, no meio de uma filmagem, quando começaram as discussões, ela soltou um grito que assustou a todos. Primeiro se dirigiu a Adrian dizendo que ele não era um homem de verdade, digno, era amoral, e que jamais olharia para ele como mulher porque sentia nojo de homens que não sabiam respeitar nem amigos, nem companheiros de trabalho e nem mesmo os sentimentos de uma mulher; depois se dirigiu a Mel dizendo-se decepcionada com sua atitude machista e de sua falta de confiança, porque se acreditasse no seu amor saberia que nenhum homem na face da terra poderia separá-los e que a benefício do trabalho estava se demitindo em caráter irrevogável, indo passar umas semanas em seu país. Não permitindo que nem um nem outro falasse, pegou a bolsa, as chaves do carro e saiu, deixando todos de boca aberta. Mel, claro, suspendeu as gravações dos dia e foi atrás dela. Mas Yane estava desnorteada, sua irritação era tal que não queria ouvir nem mesmo a sua voz. Não deixou que entrasse em casa, queria estar só. Algumas horas antes de pegar o avião, resolveu procura-lo. Não desejava ir sem que conversassem. Ouviu os pedidos de desculpas, aceitou-as mas não voltou atrás. Seria bom dar um tempo, repensar a relação, e desejava que Mel refletisse e percebesse não ser seu dono para agir como tal, se referindo a ela sempre com sentido de posse. Seriam um casal, duas pessoas com pensamentos, visões, sonhos, desejos, planos diferentes, mas que compartilhariam sua vida íntima, solitária com o outro se respeitando mutuamente. Assim era a sua visão de uma relação sadia e se não fosse assim não valeria a pena irem adiante porque estariam se enganando e logo o choque entre eles seria inevitável e o relacionamento não iria adiante.
                Na hora do embarque Mel estava ao seu lado ouvindo a promessa de que ela voltaria. No avião já sentia falta da sua alegria, do seu jeito doce, solto, despojado, da sua simplicidade, suas brincadeiras, mesmo aquelas agridoces de quando estava em crise bipolar. Sentiu ímpeto de saltar antes que decolasse e o abraçar fortemente, mas seu coração dizia que aquilo não seria bom para ambos, principalmente para ele, que deveria perceber que a estava magoando com seus ciúmes e que isso demonstrava falta de confiança nela. Respirou fundo e observo da janela que ele observava a decolagem acenando sem a certeza se ela podia vê-lo ou não.
                A duras penas conseguiu não atender seus telefonemas por cerca de 17 dias, deixando-o desnorteado e sem rumo, depois o atendia esporadicamente, embora sentisse vontade de lhe falar várias vezes ao dia. Ele, por sua vez, só conseguia deixar de pensar nela na hora do trabalho, que por sinal preferiu ter prejuízo e refazer todas as cenas com Adrian a ter de conviver com ele diariamente. Por causa dele Yane havia abandonado o trabalho ao seu lado. Essa, no entanto foi uma decisão que lhe trouxe desconforto junto à equipe da produtora e, principalmente, Bruce, seu sócio, que não concordava com o prejuízo e discordando dele misturar seu lado profissional com o particular. Mel até que tentou realizar mais algumas tomadas, mas não conseguiu, paralisava, por isso a decisão. O filme, se Adrian permanecesse, seria um caos e talvez o fim dele como ator. Não arriscaria mais sua carreira, ainda mais no momento em que voltava a deslanchar.  Apesar dos desentendimentos, Bruce e os demais abaram por lhe dar razão ao observarem a última cena gravada. Aquele de fato não era o Mel, estava frio na interpretação, não passava emoção, não havia o brilho de sempre. Acabaram por concordar que o prejuízo seria recompensado de outra forma, como afirmava Mel.
                Chegando de volta ao seu país Yane foi recebida pelos amigos com carinho e incredulidade. Claro que todos já sabiam sobre seu relacionamento, mas havia uma certa incredulidade misturada com curiosidade. No primeiro momento parecia estar passando por um depoimento para ser julgada, depois que ela falava dele, de como se conheceram e como as coisas se desenrolaram a curiosidade foi deixada de lado dando lugar as brincadeiras que, em muitas ocasiões, julgava de mau gosto. Um mês havia se passado quando decidiu que realizaria um trabalho para passar o tempo. Não desejava nada que lhe prendesse por mais que uma semana, mas algo que lhe desse prazer, ocupasse sua cabeça para não pensar nele sem parar, se sentindo vazia, sufocada. Ficou ainda mais difícil após ter lhe atendido ao telefone. Se fosse pessoa de permitir que a emoção tomasse as rédeas, teria voltado no dia seguinte que chegara. Sua voz ao telefone acabava por levar-lhe às lágrimas quando deligava ao terminar de falar com ele. Sua voz  carinhosa e cheia de saudade dava-lhe vontade de pegar o primeiro avião de volta, todavia julgava não ser apropriado no momento, ainda mais após saber que mesmo deixando o trabalho ao seu lado, ele fez o que ela queria ter evitado.
                Quando ele lhe contou que Adrian não continuaria como ator coadjuvante no filme, Yane se sentiu mal, culpada por ter causado tanto transtorno, embora soubesse não ter culpa de nada. Nesse dia brigaram ao telefone e ele acabou por desligá-lo praticamente na sua cara. Isso a deixou bastante irritada. Minutos após ele tornou a ligar pedindo desculpas e eles conversaram mais ou menos em paz. Havia lhe explicado varias vezes que aquele afastamento não era um término, mas todas as vezes que se falavam, perguntava se estava terminando, se ainda pensava em se casar com ele. Sentia sua insegurança em relação a ela e não gostava disso, tinha certeza de que não lhe dera motivos. No momento em que dividira com ele o trabalho que havia pego sentiu, no seu silêncio, a insatisfação, o receio, porque sua mudez e o tom de voz depois eram de uma tristeza que lhe cortara o peito tal qual uma navalha.
- Mel, fala comigo! Fiquei feliz pelo trabalho que vou realizar. Não diz nada?
- Parabéns.
- Assim... Sem emoção nenhuma?
- Não é o que quer ouvir!?
- Não. Esperei que ficasse feliz por mim, por estar fazendo uma coisa que gosto.
- Podia estar aqui, fazendo a mesma coisa.
- Será que não entende que a sua possessividade pode nos destruir!
- Entendo que você está se afastando.
- Pra você refletir. Não pode brigar com todo homem que me olhar, der em cima; tem de confiar em mim, no meu amor. Por acaso fico chateada quando você sai com sua ex-mulher?
- Meu Deus, Yane, é totalmente diferente! Estamos separados e temos filhos juntos.
- É, mas você a amou muito! Eu poderia, sim, me sentir insegura. Porque não? Ela lhe deu filhos, o que pesa muito entre vocês, e eu jamais os poderei dar.
- Que bobagem! Não há como voltarmos.
- Eu sei. Mas se fosse insegura em relação a você, se não confiasse nos seus sentimentos, poderia me sentir ameaçada. Mas não me sinto. Será que deu para você perceber onde quero que chegue?
- Yes.
- Não há como sustentar um relacionamento sem confiança, Mel. Você tem que confiar que meus olhos veem você, entretanto é bom que saiba que não há quem me limite, quem me bote cabresto. Ou confia em mim ou não vamos avante. É fato.
- Ok. Só tem olhos para mim, mas...
- Mas você não é meu dono. Nasci livre. Estamos juntos porque nos amamos. Para mim o sentimento é o que prevalece. Não estou com você por outro motivo. Não mantenho uma relação que não haja amor, companheirismo, lealdade, respeito, confiança, admiração, fidelidade.
- Quero você ao meu lado.
- Se for para vivermos nossas vidas a dois, também quero você inteiramente ao meu lado; se for para me sufocar, não. Pense nisso. Termine seu trabalho aí enquanto realizo o meu aqui. Assim ambos teremos tempo.
- Não preciso de tempo. Respeito sua posição.
                Ela deu um sorriso que ele não viu e puxou outro assunto. Conversaram mais uma meia hora e desligaram com o coração aos saltos. Cerca de quinze dias depois Yane foi surpreendida pelo interfone da portaria do seu prédio perguntando se podia deixar subir o Sr. Mel Gibson. Seu coração disparara tanto antes dele tocar a campainha que sabia não conseguir resistir à imensa saudade que sentia e ao desejo de apertá-lo em seus braços. Quando o viu à sua porta, um sorriso largo e um buque de flores vermelhas na mão, mesmo antes de manda-lo entrar se atirou em seu pescoço. Não dava para segurar a alegria de vê-lo. Sentia a cabeça a mil. Ele largara tudo para ir até ela. O beijo que se seguiu foi longo, em acordo com a saudade que sentiam. Ele a empurrou com delicadeza para dentro e fechou a porta com os pés.  As flores foram colocadas rapidamente em cima da mesa, num esticar de braço. Logo estavam no quarto, inteiramente entregues um ao outro. Era muito bom sentir o seu cheiro, sua pele morna, seus lábios inigualáveis. Yane não pensava em nada que não fosse aproveitar aquele momento. Ambos estavam felizes. Depois se entregaram ao sono abraçadinhos, tão abraçados que quem olhasse de relance podia imaginar ser apenas uma pessoa.
                Já havia escurecido quando Yane acordou. Se desvencilhou devagar para não acordá-lo e ficou admirando seu rosto, cada detalhe, cada marca de expressão; tudo nele era harmonioso, nem a idade havia alterado sua beleza, apenas modificado. Cheirou seus cabelos, acariciando-os delicadamente. Ele abriu os olhos minutos depois, percebendo sua admiração. Sorriu e recostou ao seu lado.
- Você é louco, amor!
- Acho que um de nós tem que ser. – Falou com um sorriso maroto. Não dava mais, querida. Eu sei que fui infantil, que errei. Não é uma justificativa, Yane, mas... Depois que me separei já tive tantas decepções! Sei lá!... Bateu medo, insegurança. Afinal, você é uma mulher e tanto!
                Yane lhe acariciou o rosto, beijou-lhe a os lábios com delicadeza, puxou-lhe a cabeça para seu colo com a ternura com que uma mãe o faz a um filho e sorriu fitando longamente o fundo dos seus olhos.
- Não tem porque se sentir inseguro comigo. Não tive muitos relacionamentos, não sou o tipo de mulher que não sabe lidar com a solidão, muito pelo contrário. Gosto de estar comigo mesma. Os dois relacionamentos que tive após o término do meu casamento não chagaram onde estou chegando com você.
- Como assim?
- Você me pediu em casamento, planejamos uma vida a dois de uma forma muito concreta. Com os outros não permiti que chegassem a tanto. Percebendo que a paternidade seria um problema, não deixei que fossem avante; não queria passar por tudo o que já havia experienciado antes. Não sou masoquista.
- Então o fato de eu não querer mais filhos foi o que me deu uma chance com você!?
- Isso. Portanto não há motivo para fantasias bobas entre nós. Você faz com que me sinta inteira, não uma árvore seca, embora eu aprecie uma árvore sem folhas no outono, ou aparentemente sem vida, morta. Para mim são a imagem da renovação. Taí, no meu próximo trabalho vou fazer o registro de diversos tipos de árvores em diversos períodos e estações. O que acha?
- Magnífico. Se eu puder vou participar de alguns dos seus registros.
- Farei questão, porque há árvores que são bem típicas de certas regiões e países, o que me levará a viagens e não gostaria de ficar muito tempo longe de você.
- Vem comigo. Espera eu acabar esse trabalho.  Depois, só vou pegar outro no meio do próximo ano.
- Tudo bem, Mel. Só não esquece que pássaros selvagens não vivem em gaiolas.
- Eu sei. Por isso vim. Também não sou de me deixar engaiolar.
                Na manhã seguinte Mel marcou o voo de volta para dali há uma semana, tempo em que Yane poderia terminar o seu trabalho, arrumar seus pertences e se despedir do pai, a quem não via há quase cinco anos, desde que brigaram após o enterro da mãe. Ela queria vê-lo, fazer as pazes, convidá-lo para seu casamento. Era seu único elo familiar desde que, ainda muito pequena, ele rompera com o resto da família e mudou de cidade junto com sua mãe. Lembrava que ela desejava rever os familiares e ele não permitia. Havia presenciado muitas brigas por causa disso. O fato no entanto é que foi criada longe dos tios, primos e até dos avós. Não havia entre ela e os familiares nenhum tipo de afeição, e sequer lembrava do rosto deles. Mesmo assim, quando sua mãe faleceu, desejou entrar em contato e notificar seu falecimento, mas seu pai não permitiu. Jamais compreendera essa sua atitude e nem o motivo de nem ele falar na própria família. Parecia, quando pequena, que ele não havia tido uma família, coisa que a intrigava, e as poucas vezes que tocou no assunto ouviu como resposta que havia nascido de uma chocadeira, o que cortava toda e qualquer possibilidade de continuar a querer saber quem ele era antes de sua mãe. Conjeturara varias vezes a possibilidade de ele ter sido abandonado em algum orfanato, mas aquilo não combinava com seu histórico escolar, já que estudara em bons colégios. Seu pai era um enigma amargo. Sua mãe uma mulher submissa que se resignara a ser uma pessoa sem sonhos, sem desejos, sem vontade própria. Conhecia um pouco da família dela porque às vezes, enquanto ele trabalhava, sua mãe falava-lhe sobre seus avós, seu irmão e suas duas irmãs, mas quando ela perguntava do motivo que levou ao afastamento ela desconversava e não respondia. Dizia apenas que havia certas coisas que não deveriam ser relembradas e trocava de assunto. Todavia sentia o quão aquilo a fazia sofrer Ela não era feliz. Acostumara ser a sombra do seu pai.
                Na adolescência percebeu que não desejava para si uma vida na qual tivesse de se anular, não ser ela mesma, e decidiu que sairia de casa tão logo tivesse condições de se sustentar. Sentiu que se permanecesse ali seu pai faria o mesmo com ela. Aos dezenove anos arranjou um emprego e começou a trabalhar e estudar, o desagradou muito os pais, principalmente a ele, o que levou a muitas brigas até que passou pra a faculdade e saiu de casa com o pretexto de que a mesma ficava muito longe e que seria menos cansativo morar mais perto.  Não voltou mais, a não ser para visita-los e em datas comemorativas.
                Quando lhes disse que se casaria e lhe apresentou seu ex-marido, seu pai foi contra, justificando que percebia que ele não era um homem de caráter, o que não era verdade. Seu casamento não havia dado certo por outro motivo, não porque ele não tinha caráter ou era desonesto. Ele poderia sim, ser acusado de não amá-la o suficiente e de ter sensibilidade suficiente para lidar com a sua impossibilidade de gerar um filho. Quando ela se separou não encontrou apoio algum nos pais. Não que a mãe não a quisesse ao seu lado, mas porque fazia o que lhe era imposto pelo marido. Muitas vezes ligara para ela para lhe aconselhar, mas só quando ele não estava em casa. Assim se acostumou à solidão, a estar com ela mesma, a resolver seus próprios problemas, a ser independente. Ainda assim, desejava tentar mais uma vez uma convivência pacífica com o pai. Ele estava velho e sozinho, talvez tivesse se tornado mais acessível. Assim, antes de embarcar de volta a Malibu, voltou à casa em fora criada. Tocou a campainha e uma moça de cerca de vinte anos, com um avental, veio atender. Ele estava na cozinha tomando um prato de sopa quando ela entrou acompanhado do Mel e ele a olhou sem com o rabo do olho sem se mover. Acabou de ingerir a sopa, se levantou e se dirigiu à sala, onde ela o esperava. A moça, se sentido sem graça, ofereceu-lhes um café e, se desculpando, disse estar na sua hora, que tinha que ir embora. Yane não se surpreendeu. Era sua mãe quem fazia tudo dentro de casa e apesar de saber que seu pai criticava a comida de todas as pessoas com quem muito poucas vezes almoçara, agora, sem ela e sem saber cozinhar ou cuidar de uma casa, nada mais normal que ele pagar a alguém para fazê-lo.
                Ao aparecer na sala, ele a olhou, pigarreou e lhe perguntou o que a levara ali.
-  Vim ver o senhor e lhe apresentar meu futuro marido.
- Se foi para isso seria melhor não ter vindo. Sei quem ele é e sei que mais uma vez você vai dar com os burros na água. Da outra vez veio chorar no colo da sua mãe, mas dessa vez ela não estará aqui e eu não vou querer saber. Já está com bastante idade pra fazer outra besteira.
- Pai, não vim brigar nem vim com o intuito de pedir sua aprovação. Vim apenas por respeito, porque desejei que pudéssemos ter algum tipo de convivência pacífica, como pai e filha, e que apresentar meu futuro marido faz parte disso.
- Não goto de homens que batem em mulheres. Nunca levantei a mão para sua mãe. Eu vi na tv.
- Ele não fez isso. A mídia fala sem saber, pra ter ibope. Você não o conhece.
- Senhor, a coisa não foi exatamente o que a mídia e a imprensa veicularam. Minha ralação com a mãe da minha filha mais nova foi bem traumática e decepcionante. Ninguém sabe nada a esse respeito a não ser eu e ela.
- Não gosto de você.
- Só pensei que talvez pudesse ir... Mas deixa pra lá, acho que nunca vamos nos entender. É triste, porque sua família sou eu e... Só tenho você. Se ao menos não tivesse se afastado de todos os familiares.
- Nunca mais toque nesse assunto! Eu a proíbo! – Gritou com Yane.
- Você pode nunca ter batido na mamãe fisicamente, mas bateu nela muitas e muitas vezes em palavras, como está fazendo comigo agora.
- Se veio me tirar a paz, pode ir embora.
- E vou. Só que dessa vez eu vou pra nunca mais voltar. Nem pra enterrá-lo. Infelizmente você vai morrer sozinho, e isso porque nunca se deu a ninguém. Nem a mim. E quer saber, nem à mamãe, porque sempre fez dela uma empregada sua, sem direito a pensar por ela mesma, a desejar seja lá o que fosse, a sonhar.
- Cala essa boca porque você está na minha casa! – Falou aos berros.
- Bem, os meus berros não foram maiores que o do senhor agora. – Falou Mel com certo sarcasmo.
                Yane pegou sua bolsa e saiu acompanhada de Mel. No carro caiu em pranto. Um choro convulsivo, de dor. Não era uma dor física, mas tão cortante quanto. Mel a acalmou tentando amenizar sugerindo que talvez ele não estivesse no seu juízo perfeito. Entretanto ela sabia que ele sempre fora assim. No dia seguinte acordou ainda triste, mas já capaz de prosseguir, levar a própria vida sem pensar mais nele. Talvez um dia procurasse os familiares e talvez descobrisse o porquê do pai ser como era. Naquele momento em que fechava as malar para voltar a Malibú, queria apenas pensar que se casaria com Mel e que seriam felizes. Não se permitia pensar em mais nada.
                Da janela do avião olhou para baixo como se tivesse se despedindo de um lugar para onde não voltaria, muito embora no íntimo soubesse que o faria quantas vezes fosse preciso para realizar algum trabalho e sua terra era rica em árvores lindas e bem típicas. Não demoraria tanto a voltar. Deitou a cabeça no ombro do Mel e apertou sua mão. Ele a beijou com ternura.


              Voltar a realidade não é tão bom, mas ninguém pode viver de fantasias. Eu sei que meus sonhos, nunca vão parar, que vou sempre estar imaginando alguma estória vivida ao lado do meu ator favorito, de um ser humano que sei que não é perfeito mas também não é o que a imprensa pinta. A Yane tinha uma coisa minha, o saber lidar com a solidão, saber estar consigo mesma. Eu gosto de estar comigo. Gostaria de estar ao lado de alguém que me amasse, mas como a Yane, só se respeitassem a minha individualidade e não quisessem me cortar as asas. Como não encontrei alguém que me respeite como sou, prefiro minhas fantasias e a companhia do Mel.


                             (do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)

                    

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