III
Tivera uma semana estafante. Estava
exausta e chateada por não me sentir com oportunidade de crescer
profissionalmente. Sentia-me frustrada, entediada. Saí do trabalho e resolvi
andar pela orla da lagoa. Olhar o céu, me sentir livre. O sol estava se pondo.
Fique extasiada com a beleza do abóbora do sol iluminando o céu e refletido na água.
Andei até cansar. Até quase me sentir sem forças. Então parei num barzinho e
pedi um suco. Estava com muita sede. Depois pedi uma porção de batatas fritas e
mais um copo de suco, dessa vez de abacaxi. Estava fresco e me deixei ficar
ali, sentada, pensando na minha vida. Na solidão que era a minha vida. Olhei o relógio.
Vinte e quarenta. Dei graças a Deus de ser sexta-feira, não precisaria
trabalhar no dia seguinte e enfrentar o ambiente tenso, falso que me
circundava. Levantei e fui para casa.
Quando
cheguei meus pais já dormiam. O silêncio gritava nos meus ouvidos. Tomei um
banho morno e relaxante. Sentei na poltrona e liguei a tv. Nada de bom.
Sentia-me vazia, triste e não gostava de me sentir daquele jeito. Apaguei a tv,
me deitei, mas não consegui dormir. Vira pra cá, vira pra lá e, irritada, por
volta de duas horas da manhã, levantei. Tornei a me acomodar na poltrona
tentando relaxar. Pousei os olhos sobre o porta-retratos com o Mel e resolvi
colocar um filme dele para me distrair. O escolhido foi Teoria da Conspiração.
Gosto desse filme pela fragilidade humana que passa. Um homem bom que foi
levado a uma conturbação mental em relação à memória do seu passado, a viver
sob tensão e medo e que, apesar da sua fragilidade emocional é capaz de amar de
forma pura, inteira, doadora. Há tanta doçura no Jerry que corta o coração da
gente a sua conturbação, a sua solidão, e comove até a alma o amor que ele
sente pela Alice. Depois de assistir o filme, apesar da insônia persistir, me
sentia bem melhor. Como desejei ser amada como a Alice o é pelo Jerry! Então
fiquei imaginando um prolongamento do filme com o Jerry vivendo um outro amor,
já que a Alice não poderia saber que ele estava vivo, se apaixonando de novo
num outro contexto e inventei uma Maya, que no fundo era eu mesma. É sempre bom
manter uma proteção, um distanciamento.
Maya é
uma moça esguia, alta, de expressão forte, olhar firme, independente e de
grande sensibilidade. Uma mulher admirada no seu círculo social, mas que apesar
de já ter tido alguns relacionamentos nunca se jogou de cabeça em nenhum deles.
Não havia, até o momento, encontrado um homem que lhe demonstrasse respeito
pelo ser humano que ela era; alguém que a admirasse de verdade e não tentasse
sutilmente tolher seu caminho. Jamais se permitiria apagar por ninguém, jamais
se anularia nem se permitiria sentir-se um objeto. Era livre e queria um amor
que somasse, que viesse acrescentar e não subtrair. Não desejava ser apenas
admirada, mas respeitada como pessoa, como mulher. Já não era mais uma criança
e sabia não existir relação perfeita, sonhava com uma relação madura, onde ambos
se dessem as mãos para construírem juntos uma vida onde a superação dos
problemas não subjugasse a liberdade, os sonhos de nenhum dos dois. Queria para
sua vida um amor equilibrado, calcado no carinho mútuo, no diálogo
compreensivo. Vivia bem consigo mesma e não acreditava que a felicidade
estivesse atrelada a ter alguém ao seu lado, tanto que não se sentia só.
Era
dezembro e com a proximidade do Natal e da passagem do Ano, Maya resolveu
comprar dois vestidos novos. Passaria o Natal na casa de uma amiga e romperia o
Ano Novo em Copacabana, no meio da multidão. Por segundos lembrou-se da família
e desejou tê-los junto a ela, entretanto logo se lembrou de tal impossibilidade
e, conformada, parou em uma lanchonete para tomar um café e comer uma torta de
chocolate com nozes, sua predileta. Depois comprou dois pares de sapatos para
usar com os vestidos, fez mais uma horinha no shopping e foi para casa.
Sentia-se cansada. Fazer compras era bom, mas andar o dia inteiro como fizera
era exaustivo.
O
Réveillon chegou e Maya foi para a praia. A alegria era contagiante. Os fogos
subindo iluminando o céu, um símbolo de novas esperanças, novos caminhos a
serem trilhados, um recomeço, mesmo que apenas interior. Maya olhava tudo
extasiada. Depois à beira da água. Queria sentir o frescor em seus pés. Sentou
na areia úmida, silenciosa, atenta. Muitos ainda brindavam e ela observava
aquela confraternização, solitária. Foi quando ouviu uma voz e notou os pés de
alguém a seu lado. Levantou a cabeça e olhou os olhos mais lindos que já havia
visto até então a fitando com um sorriso.
- Brindemos! – Maya sorriu e se levantou pegando o copo que
aquele homem lhe estendia.
- Também está só?
- Sempre. É minha condição.
- Ao novo ano então!... Como se chama?
- Jerry. E você?
- Maya.
- Feliz Ano Novo, Maya.
- Pra você também, Jerry.
Ele
sentou ao seu lado. Ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Maya,
curiosa, lhe perguntou do porque ser a solidão uma condição para ele.
- É a vida. Quando não se tem ninguém torna-se uma condição
estar só. Não concorda?
- Não sei... Talvez em parte. Eu, por exemplo, não estou com
meus amigos porque não quis.
- Teve escolha então!
- É. (...) Você não?
- Não.
- Não tem amigos?! – Maya perguntou meio incrédula.
- Mais ou menos... Não. Não tenho.
- Não posso acreditar nisso. Ninguém vive sem amigos, sem se
relacionar.
- Bom... Não tenho amigos, tenho companheiros de trabalho.
- Por quê?
- Tenho problemas. Talvez isso acabe dificultando.
- Quem não tem problemas, Jerry! E não estou vendo dificuldades
em manter um diálogo com você.
- É. Não. Estou gostando de conversar. É que às vezes me dá
branco... Não me lembro de... Esqueço coisas...
- Tem algum problema de memória?
- É... Bom... Tenho. Mas agora estou bem melhor.
- O que ocasionou isso?
- O que?... Ah, sim... É... É Ano Novo. Passou.
- Tudo bem. Respeito se não quer falar.
- O céu está bonito. Não é bom nublá-lo.
Houve
um silêncio entre os dois. Maya ouvia, atenta, o barulho das ondas rebentando
na areia. Jerry se entretinha em sentir a areia entre os dedos. Num movimento
calmo, ele tocou-lhe com leveza o braço.
- A vida é semelhante a areia; grossa e acolhedora.
Maya o
fitou e ele sorriu. Levantou e lhe estendeu a mão, convidando-a a irem juntos à
beira do mar. Andaram lado a lado pela praia, em silêncio, se tocando
mutuamente com o olhar. Até que Maya parou, se colocando diante dele.
- Jerry, porque quis brindar comigo?
- Vi você sozinha... Seu rosto parecia à própria lua
refletindo no mar. Acho que quis companhia.
- Você me parece tão só! Não tem família?
- Não os vejo desde os dezesseis anos, quando saí de casa. Lembro
muito pouco do meu passado. Meu pai era violento, batia em minha mãe, em mim...
Não lembro se tenho irmãos. Se tenho, também apanhavam. Minha mãe era omissa. Não
me lembro do motivo que me levou a sair de casa, mas quase que posso ouvi-lo
dizendo para nunca mais voltar.
- Então temos um passado um pouco semelhante. Também saí de
casa. Meu pai faleceu e mamãe se casou com um cafajeste. Era louca por ele.
Dava-lhe razão em tudo. Eu e meu irmão, assim como você, apanhávamos muito, de
cinto. Mamãe, mesmo que achasse a surra uma arbitrariedade, nunca lhe negava a
razão, encontrando sempre uma justificativa para seus atos. Eu fiquei mocinha e
ele passou a me despir com o olhar. Falei com minha mãe, mas ao invés de
chamar-lhe a atenção, me defender, brigou comigo, me acusando de querer criar
uma maneira de infelicitá-la, de separá-los. Uma noite acordei com ele me
olhando, sentado na beira da minha cama. Estava na época com dezenove anos. Dei
um salto e o expulsei do quarto. Na manhã seguinte contei para mamãe o ocorrido
e levei uma bofetada. A culpa era minha por ficar me exibindo para ele andando
pela casa de shortinho. Nesse dia fiz minhas malas e saí de casa para nunca
mais voltar. Meu irmão me deu um dinheiro e vim para o Rio com a cara e a
coragem. Aqui, me hospedei numa pensão por uns dias e consegui me empregar numa
loja. Estudava e trabalhava. Me formei em comunicação e me especializei em
marketing. Trabalho para uma empresa de produtos eletrônicos. E você?
- Sou taxista. Quando saí de casa trabalhei numa oficina
mecânica. Aprendi um pouco de lanternagem com um amigo e foi o que me serviu
para arrumar trabalho. Mas não dava para estudar. Nunca fui bom aluno mesmo,
então não dei importância. Queria era pagar o quarto que arranjei e ter como
comer.
- Nunca desejou algo melhor?
- Desejei.
Os olhos de Jerry pareceram vagos,
perdidos no passado. Maya observou o olhar distante e não se encorajou a
perguntar mais nada. Olhou o relógio. Duas e vinte e oito. Era melhor ir para
casa descansar. Jerry ainda mantinha os olhos presos à escuridão do mar, olhar nebuloso
no horizonte.
- Jerry!... Jerry!
Ele a
fitou como saindo de um sonho negro.
- Foi um prazer conhece-lo, romper o ano ao seu lado. – Apertou-lhe
a mão. – Você é uma pessoa legal.
- É... Também gostei da noite. Você é uma boa companhia.
Maya
foi para casa e Jerry continuou andando pela praia até o dia clarear. Durante
toda a semana Maya pensava naquele homem solitário. Depois, os dias foram
passando, e a lembrança daquele réveillon foi se distanciando. Quase dois meses
haviam se passado. Perto do carnaval, ela foi a uma reunião da empresa em que
trabalhava, no Centro da Cidade. Estava um calor infernal e ela estava sem
carro, já que o havia levado à oficina para uma regulagem e troca de óleo. Saiu
da reunião sem a menor vontade de ir para o trabalho após o almoço. Apesar da
reunião ter transcorrido bem, a tensão que se instalava nesses momentos acabava
com ela. Desejava ir para casa e descansar. Além do cansaço estava com fome.
Andou um quarteirão até encontrar um lugar onde pudesse comer sem pressa, em
paz. Assim que terminou de almoçar decidiu que não seria bom não ir à empresa e
correu para dar sinal a um taxi. Ficou furiosa por ele não ter parado.
Assinalou para o que vinha logo atrás. Entrou e deu o nome da rua para onde
desejava ir, colocando a mão na bolsa e pegando o batom para retocar. Passou
uma escova nos cabelos e olhou para frente. Queria ver como estava o trânsito.
Nesse instante percebeu os olhos do taxista sobre ela, pelo retrovisor.
- Jerry!?
Ele
soltou uma gostosa gargalhada. Havia reconhecido Maya a distância e fez o
possível para parar para ela.
- Você nem me olhou quando entrou. É assim que trata nós
taxistas?
- Desculpa. Não costumo conversar com quem não conheço.
- Mas conversou comigo no réveillon.
- Era um dia especial e você foi muito gentil.
- Desde aquele dia tenho pensado em você.
Maya ia
confessar que também pensava nele de vez em quando, mas ficou calada; esboçou
apenas um leve sorriso. O carro parou. O trânsito estava congestionado. Jerry
coçou a cabeça, fez um trejeito com ela para o lado, olhou para trás e disse
que o dia estava a seu favor, porque pelo jeito iriam enfrentar muito tempo de
engarrafamento. Maya achou graça da simplicidade e sinceridade de Jerry, mas
suspirou fundo ao pensar no trabalho. Sua vontade de ir trabalhar diminuíra
ainda mais. Abriu a bolsa, pegou o celular e, decidida, ligou para a empresa
explicando que dificilmente chegaria antes do expediente acabar por estar presa
em um engarrafamento monstruoso. Compensaria o horário em outro dia. Sentiu-se leve. Fizera o que seu coração pedia. Não podia
negar que ver o Jerry havia mexido com ela. Queria se sentir livre. Queria
poder olhar aqueles olhos por mais tempo. Pediu que ele desse um jeito de parar
o carro em algum lugar até que o engarrafamento acabasse. Quase quarenta
minutos haviam se passado quando conseguiram parar num barzinho. Durante o
trajeto riu muito com as piadas que Jerry contou. O trânsito devia ser
esquecido o mais possível para não tirar o bom humor. Ela achou a forma que
encontrou de driblar a irritabilidade que um congestionamento causava
inteligente. Adotaria a fórmula. Jerry virou a cabeça para trás e sorriu.
Ambos
saltaram do carro com leveza. Jerry correu para abrir-lhe a porta num gesto
cavalheiro e deu-lhe a mão gentilmente. Sentaram e pediram um suco, estavam
sedentos. O calor estava escaldante. Ele a olhava com embevecimento e Maya
enrubesceu.
- Jerry, está me deixando sem graça.
- Por quê? – Ela sorriu. – Olha, vou ser sincero, você me
atrai de uma forma como há anos não sinto por uma mulher. Desde a primeira vez,
no réveillon, quando a vi sozinha no meio da multidão.
- Vou ser franca. Saí de um relacionamento há pouco tempo e
embora não tenha sido uma relação que possa dizer... bom, não foi uma relação
de meses, mas decepcionante o suficiente para eu desejar dar um bom tempo para
a minha cabeça, meu coração. Sou uma mulher independente, não gosto de ser
cerceada; lutei muito para conquistar uma boa posição na minha profissão e
desejo crescer mais profissionalmente, me realizar, e meus poucos namorados
acabaram me decepcionando justamente por não compreenderem o meu lado.
- Mas você também disse que pensou em mim.
- É verdade. Só quero que saiba que apesar de me sentir
atraída por você, jamais abrirei a mão dos meus sonhos.
- Não sou esse tipo de homem.
Continuaram
conversando até o fim da noite. A princípio manteriam apenas uma amizade. No
fundo Maya se preocupava com o futuro que poderiam ter juntos, já que
aparentemente havia um abismo cultural entre eles. Ela, uma marqueteira, e ele
um taxista. Passaram a se encontrar quase todo fim de semana. Eles tinham muito
em comum, como o gosto por comidas exóticas e o bom humor. A atração entre
ambos era inegável, mas Maya mantinha a distância da amizade. Uma coisa a
intrigava, ele evitava falar do seu passado. Havia ausências repentinas que
levavam Maya a algumas especulações. Chegava às vezes a pensar que ele podia
ter algum distúrbio mental. Todavia ele era extremamente carinhoso, gentil,
cavalheiro. Ela tinha medo de admitir sua paixão, enquanto Jerry a mostrava
claramente; ora com palavras, ora com gestos e flores. Mas ela precisava saber
mais sobre ele, precisava entender porque ele tinha ausências e ficava agitado,
confuso sem mais nem menos.
- Jerry, porque você apaga de repente? Os olhos ficam vagos,
como se não estivesse aqui.
- Tive problemas. Talvez seja sequelas. Não quero falar
sobre isso.
- Como quer que tenhamos um relacionamento se não sei
realmente quem você é? Sei apenas que é taxista, que deixou a família cedo, que
é sozinho e passa o dia e parte da noite trabalhando. Ah!, e que o taxi é seu.
Mais nada.
- Não é suficiente?
- Não. Porque sinto que você me esconde alguma coisa. Tem
algum problema psiquiátrico, Jerry?
- Não seu louco; se é isso que quer saber. – Jerry falou sem
jeito, com os olhos baixos.
- Mas há alguma coisa no seu passado que explica essas sua
ausências e eu preciso saber. Como quer que confie em você se não confia em
mim?
- Se importa de irmos para a praia? Aqui tem muita gente. Na
praia vou me sentir mais seguro. Eu sei que pode parecer paranoia, mas depois
que eu falar você vai entender.
Maya
foi com ele, mas, por uma questão de precaução, preferiu ficar em frente a um
hotel, onde havia um quiosque, embora tivessem se sentado bem mais distante. Durante
o caminho Jerry não abriu a boca. Estava tenso. Não sabia ainda por onde
começar e sentia que deveria ser bem claro, caso contrário assustaria Maya.
- Você me perguntou outro dia se eu nunca tive vontade de
crescer, ter um trabalho melhor. Como todo mundo eu procurei algo melhor sim. Soube
que estavam realizando uma pesquisa científica e recrutando gente para fazer
parte das pesquisas. Achei que seria bom colaborar com um programa desses e me inscrevi
para fazer parte. Não fazia a mínima ideia do que era uma pesquisa desse tipo,
mas julguei que fosse uma coisa boa, onde ganharia bem e poderia ter um futuro
melhor. O programa chamava-se MK-Ultra. Eles pegavam um homem com o objetivo de
controlar a sua mente e torna-lo um assassino. Eles usavam alucinógenos,
eletrochoques para induzir a estados vegetativos, chegaram a levar alguns a
estados terminais com perda sensorial, e quando chegavam nessa etapa, todos
morriam. Eu passei por isso, só que comigo não foram até que me levassem a
morte. Eles queriam me programar para ser um assassino. E talvez eu tivesse me
tornado, Maya. Queria me ver livre daquele inferno.
- Você se tornou um prisioneiro dos pesquisadores? Que coisa
sórdida!
- Eu fui uma cobaia. E como qualquer cobaia, você não é
livre.
- Você chegou a matar?
- Não. Graças a Deus, não. Eles pensaram que tinham
conseguido controlar a minha mente e me incumbiram de matar um homem, um
advogado. Fui ao tribunal com esse fim. Quando cheguei para fazer o que me
haviam ordenado, conheci a filha dele, Alice. Ela era linda! Depois que a vi
não consegui mata-lo. Me apaixonei por Alice. Sabia que havia me sujado com o
chefão do programa, o Jonas, e que com certeza ele mandaria gente atrás de mim,
além de colocar outra pessoa no meu lugar para fazer o que não consegui. Então
procurei o pai da Alice, me apresentei e contei-lhe tudo. Ele acreditou em mim,
nos tornamos amigos, ele passou a me ajudar a recuperar a memória e eu passei a
lhe protege. Ele ia denunciar o Jonas, o programa. Não teve tempo. Fui atrás
dele na fazenda. Queria evitar que conseguissem matá-lo, mas cheguei tarde.
Desde aquele dia passei a proteger a Alice e a ficar atento para não ser pego. Um dia ela foi assaltada e eu a defendi. Aí,
passei a procura-la, queria estar mais próximo. Nessa mesma época passei a
escrever um jornal que era editado por mim mesmo e o enviei para cinco pessoas.
Teoria da Conspiração era o título. Não sei se ele caiu nas mãos do Jonas e
jamais saberei, mas tentava fazer a Alice investigar certos fatos que eu achava
que eram uma conspiração e que iam acontecer. Sei que ela não acreditava em
nada do que eu dizia. Talvez na época, no lugar dela, nem eu acreditasse em
mim. Não conseguia ordenar com clareza e lógica os meus pensamentos, embora
para mim tudo tivesse sentido. Hoje sei que algumas de minhas teorias tinham
fundamento, mas a maioria não; eram frutos da minha mente conturbada e
aterrorizada. Vivia em alerta, com medo de que me pegassem, e por isso meu
apartamento tinha a porta de aço por dentro e um guarda-fogo para incinerá-lo
se fosse necessário. E foi.
- Você incinerou o apartamento?
- É.
- E os outros apartamentos?
- Fiz de um jeito que só o meu fosse atingido. Mas eu sabia,
Maya, que se chegasse a esse ponto, os bombeiros seriam logo acionados e que
não colocaria em risco os outros moradores. O fato é que eles me pagaram um dia
desprevenido, sei lá!, me colocaram num furgão e me lavaram. Entrei em pânico.
Eles queriam que eu dissesse o que sabia e eu não podia mostrar que sabia
alguma coisa, que me lembrava. A sessão de tortura começou. Prenderam minhas
pálpebras com esparadrapo para que não fechasse os olhos, jogaram uma luz forte
nos meus olhos, me aplicaram o que eles chamavam de estimulante cerebral, e,
amarado a uma cadeira de rodas me mergulharam num tanque de água. Quando me
ergueram do tanque, mal conseguia respirar. O desespero era total. Não sei
como, mas mordi com vontade o nariz do Jonas, mordi de tirar sangue, o empurrei
e sei lá de que maneira, porque agia praticamente no impulso do pavor, consegui
sair dali.
- Como se soltou da cadeira?
- Me joguei escada abaixo em cima de um homem que vinha em
minha direção. Na queda a cadeira quebrou... Não me lembro bem; sei que me feri
com um ferrinho que me furou o abdômen... Não sei bem como me soltei, lembro do
alívio que senti ao liberar as pálpebras. Saí dali e fui para o Departamento de
Justiça, onde a Alice trabalhava. Como não me queriam deixar entrar para falar
com ela tomei o revólver de um dos guardas e os rendi. A Alice ia descendo e
falou comigo, me acalmou, e eu estava tão exausto que apaguei ali mesmo, no
colo dela. Como estava ferido fui levado como preso para um hospital. Quando
acordei estava em um quarto, algemado na cama e tinha como companheiro um real
assassino sedado, acho eu, e também algemado ao leito. Queria sair dali, estava
com medo, sabia que Jonas tentaria acabar de vez comigo. Como estava agitado me
deram um sedativo bem na hora em que a Alice chegou. Então pedi que ela
salvasse a minha vida trocando os nomes da papeleta das camas. Foi o que ela
fez. No dia seguinte o cara que estava comigo amanheceu morto, aparentemente
com um ataque cardíaco. Mas eu sabia que ele havia sido morto. Eles o mataram
achando que fosse eu. Alice me ajudou a sair do hospital e me levou para casa.
Sabia que seria caçado, mas não imaginei que me encontrariam tão rápido. Percebi
que tentavam entrar na minha casa e incinerei o apartamento. Saí de lá com a
Alice e, depois, mantive contato com ela. Quando decidi tentar contar tudo para
ela, levei-a para a fazenda do seu pai. Rastrearam o celular dela e nos
pegaram. Pensei que tivessem matado ela, como me disserem, mas um tempo depois
Alice apareceu onde estava preso e ia me libertar quando Jonas chegou com seus
homens. Ela procurava saber ao certo quem havia assassinado o pai e ele, ao
vê-la ali comigo, assumiu o assassinato. Eu me atraquei com ele, mas ele atirou
em mim, levei quatro tiros, aí a Alice atirou nele varias vezes para salvar
minha vida. Antes de perder a consciência ela disse que me amava. Desde então
nunca mais a vi. Fui dado como morto e, para protegê-la, não poderia nem
imaginar que eu estou vivo. A polícia me dava notícias dela e, com tratamento,
fui recuperando a memória, lembrando do meu passado e de tudo o que sabia. Uns
dois anos depois ela se casou e já tem dois filhos. Bom, foi então que pedi
para sair do país e vim para cá. Não havia mais motivos para eu ficar; queria a
minha identidade de volta e vindo para cá pude tê-la. Pronto. Você já sabe de
tudo.
- Meu Deus! Jarry, é tudo muito louco, desumano! Jamais
poderia imaginar uma situação tão horrorosa.
- Por isso evito contar. Perdi um amigo por isso. Ele não acreditou, disse que era paranoico. Eu
fiquei mal, Maya, confuso por muito tempo. Sei que os fatos se embaralhavam na
minha cabeça e que tinha dificuldades de falar com ordenação, mas depois que
fiz o tratamento para recuperar a memória não aconteceu mais. Sei que às vezes
saio do ar, fico distante, mas sei o que digo. Ninguém passa por um processo de
controle mental e torturas sem que isso deixe marcas, sequelas. Por isso tenho
momentos em que sinto receio de estar sendo seguido, tenho mania de segurança, mas
é só. Acho que isso não chega a ser um problema.
Maya
sentiu imensa compaixão pelo drama de Jerry. Ele não queria ser olhado com
piedade nem ser julgado um alucinado e ela compreendia. Por alguns anos, por
mais que se esforçasse para parecer normal ele havia tido consciência de não
agir como tal e agora que havia recuperado sua identidade, seu equilíbrio
racional, tinha pavor de ser olhado como um insano.
Após
saber do drama por que Jarry passou, sentiu-se capaz de se entregar ao amor que
tinha por ele como até então não o havia se entregue a ninguém. Ela o amava
ainda mais, o admirava por ter tido a coragem de não se entregar, não se deixar
dominar, virar uma marionete assassina.
Sentira sinceridade nos olhos dele. Jerry fitou o horizonte e falou
muito mais para si mesmo que para Maya, que não julgava viver por muito tempo.
No entanto ele estava livre, podendo fazer planos sem receios.
Maya o
abraçou num gesto de total entrega e Jerry a beijou calorosamente. Ela se
largou em seus braços, correspondendo às suas carícias. Ao cair à noite foram
para o apartamento de Jerry, um quitinete bem desorganizado, que o levou a se
desculpar pela bagunça. Ele não parava em casa, não gostava da sensação de
estar só e não tinha o menor motivo para manter o lugar todo arrumadinho.
Restringia-se a tirar o pó, dar uma varrida no chão e trocar a roupa de cama,
visto suar muito no verão. Isso, entretanto, só o fazia uma vez na semana,
quando decidia não trabalhar. Já ela não conseguiria conviver um único dia
naquela bagunça. Ambos riram e a desarrumação foi posta de lado, queriam se
amar, sentirem-se mutuamente.
Por
volta das 23 horas Jerry saiu para comprar uma pizza e Maya aproveitou para dar
uma ligeira ajeitada no ambiente. Jamais havia feito algo semelhante com nenhum
namorado e, no entanto, agora sentia prazer em colocar um pouco de ordem na
casa daquele homem que a estava virando do avesso. Deveria ter cuidado para não
se deixar cair nos erros que observava em suas amigas e se transformar em uma
mulher faz tudo dentro de casa. Pensando assim, parou. Não acostumaria mal o
Jerry. Já trabalhava muito para ter de chegar em casa e dar conta dos afazeres
domésticos sozinha. Dera um jeito
superficial, colocando roupas no armário e tirou o pó dos pouquíssimos móveis,
uma mesa para duas pessoas, um guarda-roupa, uma mesinha de cabeceira, uma
poltrona, um minúsculo rack onde se via a televisão, um fogão de duas bocas e
uma geladeira. Aparentemente nada daquilo combinava com ela, mas ao lembrar do
jeito doce do Jerry seu coração enchia de alegria e nada daquilo tinha
realmente valor. Aquele havia sido um dia especial, de um sabor jamais provado
até então. Agora tinha certeza de que amava aquele homem de uma forma que nunca
imaginara amar alguém. Um taxista por quem jamais julgara se interessar, um
homem simples, mas que possuía uma enorme doçura no olhar e gestos meigos. Um
homem a quem ela admirava mais, muito mais que qualquer outro que conhecia. Com
ele já se pegara imaginando ter uma família. Riu de si mesmo ao se tocar de
pensara nisso mesmo antes de conhecer o drama vivido por Jerry.
Ele
voltou com uma pizza e um litro de Coca-Cola. Era o tipo da coisa que ela
evitava ao máximo comer, mas, naquele momento, adquirira um sabor especial.
Jerry sorriu se desculpando por não ter encontrado coisa melhor por perto. Foi
a pizza mais gostosa que já havia saboreado. Maya estava nas nuvens. Sentia-se
inteira, de uma forma totalmente nova.
Aquele
foi o início de muitos outros encontros cheios de carinho, amor, e o
relacionamento de ambos foi se estreitando. Um ano e pouco se passara e Jerry,
numa noite quente e enluarada a levou a uma boate para dançarem. Não era muito
o seu gênero, mas Maya gostava e ele lhe queria proporcionar uma noite
inesquecível. Comeram, dançaram e, no meio de uma dança, Jerry a pediu em
casamento. Ele jamais pensara em amar alguém e se casar com outra pessoa que
não fosse Alice, no entanto amava imensamente Maya e desejava construir com ela
uma família. Naquela mesma noite ele foi morar no apartamento dela e dobrou
suas horas de trabalho. Não queria ser sustentado por ela, mas manter ao máximo
a casa. A felicidade deles irradiava às pessoas a sua volta. Resolveram marcar
o casamento, que seria uma reunião bem simples, apenas para poucos amigos, os
mais íntimos, um padre e o juiz de paz para tornarem a relação legal. A única
coisa de que Maya fazia questão era do vestido de noiva, por isso a cerimônia
foi marcada para dali há dois meses. Apesar de simples, ela queria uma
cerimônia aconchegante.
Numa
tarde de sábado, após saíres do shopping onde compraram algumas pequenas
necessidades para colocarem a casa parecida com os dois, foram dar uma volta na
praia, lugar preferido de ambos. Sentaram numa das mesas de um quiosque e
pediram suco para dois e uma espiga de milho para cada um. Conversaram por
bastante tempo e voltaram para casa. Porém ao se dirigirem para o carro, Jerry
sentiu uma sensação estranha, foi como se ouvisse a voz de Alison em seu
coração. Desejou voltar, andar nas areias, molhar os pés, mas Maya estava
cansada e ele não quis contrariá-la. Ficou inquieta sem saber ao certo o
motivo. Entraram em casa e ele ficou zanzando de um lado para o outro feito
animal enjaulado. Maya estava tão exausta que não percebeu sua inquietação. De
repente não se segurou mais, pegou as chaves e disse que iria dar uma volta.
Voltou para a praia.
Caminhava
nas áreas sem muito pensar, ora olhando o céu, ora fitando o mar. Sentia-se
angustiado e não entendia o motivo. Dirigiu-se a um quiosque e pediu um
refrigerante sem prestar atenção em nada a sua volta. De repente escutou uma
voz ao seu lado pronunciar seu nome.
- Jerry!?...
Ele se
virou num susto e não podia crer ver Alice diante dele.
- Jerry, você está vivo!? Não posso crer!
Jerry
fechou os olhos com o coração acelerado. Pensou estar tendo uma alucinação. Mas
não. Era verdade. Era Alice. Ele pronunciou seu nome num sussurro quase
inaudível.
- Como pode?!
Jerry
tinha os olhos arregalados de espanto. Disse que explicaria.
- Eu chorei a sua morte e você...
- Foi a única forma de te proteger. Foi o trato que fizeram
comigo. Enquanto eu estivesse morto, nada aconteceria a você, conseguiriam te
proteger caso houvesse algum homem ligado ao Jonas te vigiando.
- Você nem tentou falar comigo!?
Sua cabeça de repente estava há mil;
porque a amara por anos e sonhara com aquele momento muitas e muitas vezes. Não
sabia o que lhe dizer ao certo, mas tinha consciência de que não daria mais
para omitir nada.
- Logo que saí do hospital, quando me deram por morto,
tentei falar com você enviando um bilhete que foi interceptado. Chamaram-me
atenção e disseram que dependia de mim você permanecer a salvo. Eu ainda não
tinha recuperado a memória e ainda estava fraco, então achei melhor cooperar.
Depois que me recuperei integralmente, tentei me comunicar e liguei para o seu
trabalho. Sua secretária atendeu e disse que você havia saído, como forcei para
saber onde poderia lhe encontrar, ela me disse não ser apropriado, porque você
se casaria dali há onze dias. Fiquei sem chão na hora, Alice, e resolvi não
procura-la mais, embora eu a tivesse observando todo o tempo. Quando soube que
estava grávida da sua primeira filha percebi não haver mais motivo para
continuar naquela vida, preso a condições que me eram impostas e sem
identidade. Foi quando solicitei vir para cá, porque sabia que aqui poderia ter
pelo menos meu nome de volta, começar uma nova vida. Você estava feliz e não
havia mais nada que eu pudesse fazer.
- Eu nunca esqueci você. Nunca esqueci seu rosto. E também
não fui feliz, embora tenha realmente tentado.
- Não sei o que dizer, Alice. – Houve um silêncio entre
ambos. O que faz aqui?
- Vim passear com minhas filhas.
- Seu marido?...
- Estamos separados, Jerry. Há pouco mais de dois anos.
- Sinto muito. Queria que estivesse feliz.
- E você? Como está sua vida?
De
repente Jerry se sentiu perdido. Amava Maya, mas agora tinha a sua frente a
mulher com quem havia desejado ter uma família, a quem havia amado por anos
livre diante dele. O que responderia a ela? Como falaria de Maya? Todavia sabia
não poder esconder-lhe nada, não seria justo depois de tanto tempo. Não seria
justo com ambas. Então respondeu que estava bem e que havia encontrado alguém
que o fazia feliz.
Alice o
fitou entre surpresa e decepcionada. Em nenhum momento havia, até então,
passado por sua cabeça a possibilidade de que ele pudesse ter lhe esquecido. Mesmo
o supondo morto, sempre que pensava nele o imaginava ao seu lado. Para ela, se
ele estivesse vivo jamais a abandonaria, e agora o ouvia dizer ter encontrado
alguém que o fazia feliz. No instante seguinte percebeu ser totalmente infantil
e ridículo cobrar-lhe qualquer coisa, porque jamais tivera um relacionamento
com ele. Seu desapontamento não tinha a menor razão de ser, afinal ela seguira
seu caminho, casou, teve duas filhas, separou e já estava até flertando com um
juiz.
Jerry
percebeu o desapontamento de Alice e sentiu um aperto no peito. Não desejava
entristece-la. Então olhou em seus olhos e foi bem sincero. Havia passado muito
tempo a observá-la de longe, mas desde o momento em que ela constituíra uma
família não conseguira mais ficar vendo-a feliz ao lado de outra pessoa e
decidiu viver a própria vida; por isso havia saído do país. Ficara ainda por
muito tempo sozinho, até que conhecera Maya, encontrando uma razão a mais para
viver. Passara muito tempo só, em silêncio, principalmente ao chegar no país
sem saber a língua, os costumes, sem conhecer absolutamente nada. Todo o
dinheiro que tinha empregou na compra de um taxi e de um minúsculo apartamento,
onde se refugiava a maior parte do tempo. Depois, aos poucos, foi dominando a
língua, conhecendo a cidade, e começou a trabalhar. Para não sentir o vazio em
que se transformou a sua vida trabalhava cerca de quinze horas por dia. Aos
poucos foi travando conhecimento com outros taxistas, com donos de quiosques,
lanchonetes, e até algumas pessoas em alguns hotéis. E desde que conhecera Maya
sua vida passara a ter sentido. Não estava mais só, ela era uma excelente
companheira e ele desejava fazê-la feliz. Estavam juntos há quase dois anos e
pensavam em se casar até o fim daquele ano.
Enquanto
falava sentia um turbilhão de emoções devastarem seu ser. Alice o ouvia, séria
e ele temia não vê-la nunca mais. Por outro lado temia voltar a se encontrar
com ela e pô-la em risco. Entraria em contato com o Agente Lowry e contaria
sobre o encontro com Alice para saber qual era a situação dela em relação a ele
naquele país. Não faria nada que pudesse prejudica-la.
Alice
olhou o relógio e demonstrou preocupação. Tinha que voltar ao hotel, as filhas
estavam sozinhas com a babá há muito tempo. Jerry logo se predispôs a leva-la
ao hotel. Queria saber onde estava hospedada, desejando vê-la de novo, nem que
fosse uma única vez. De início ela disse não precisar, mas ele foi tão gentil e
prestativo que ela acabou aceitando e até convidando-o a subir para conhecer
suas filhas, coisa que o deixou bastante comovido.
As
meninas já estavam dormindo, mesmo assim ele as viu e se encantou. Elas eram
muito parecidas com a mãe. Ele a olhou e sentiu uma ponta de tristeza, pois
aquela poderia ter sido sua família, não fosse ter tido de se afastar para
protegê-la. Depois se despediu e, com uma sensação de vazio no peito, foi para
casa. Só quando chegou no carro se deu conta do quão tarde era, já que passava
de uma hora da madrugada. Pensou em Maya. Com certeza ela estaria preocupada,
porque quando saiu disse que iria dar uma volta e nunca havia demorado tanto na
rua como hoje. O que lhe diria? Se contasse a verdade qual poderia ser sua
reação? E como negaria que esse encontro mexeu com ele a ponto de não saber
mais ao certo sobre seus sentimentos. De qualquer forma lhe devia uma
explicação o mais honesta possível e isso implicava em não lhe dizer o quanto
isso o afetara emocionalmente; pelo menos não até ter certeza do que queria de
verdade.
Quando
Jerry saiu, Maya ficou deitada, estava exausta, e até cochilou por quase uma
hora. Depois se levantou e tomou um copo de iogurte. Olhou o relógio. Já eram
onze horas e alguns minutos. Jerry ainda não havia voltado e ela se questionou
do porque ele lhe pareceu inquieto. Não que isso não fosse comum, ele, com
certa frequência, tinha lá seus momentos de inquietude; o que era justificável
após o que passou. E também tinha momentos de cismas, desconfiando de pessoas
que não conhecia do nada, achando que estava sendo observado, seguido, mas
depois a desconfiança passava e ele se acalmava. Tudo isso ela compreendia. Era
uma espécie de paranoia, uma consequência do trauma de ter sido uma cobaia
humana, torturado. Mas essa noite foi meio diferente. Eles tiveram um dia
feliz, fizeram muitos planos, e até sobre filhos chegaram a conversar, não
fazia sentido. Geralmente ele se inquietava em dias tensos, se se aborrecesse
por algum motivo; mas hoje... Foi verificar o telefone e o celular para ver se,
como de costume quando se atrasava por algum motivo, não tentara se comunicar e
ela não ouviu. Nada. Nenhum telefonema registrado. Não era típico dele esse
comportamento. Esperaria mais um pouco. Pegou um livro para ler. Essa era a
intensão, mas como não conseguia prestar atenção no que lia, jogou o livro de
lado e se prostrou diante da tv embora não conseguisse parar de pensar no
Jerry.
Passava
de duas da madrugada quando escutou o barulho da chave na porta da frente e deu
um salto do sofá. Jerry abriu a porta devagar e entrou. Maya correu para
abraça-lo e logo percebeu sua tensão. Quis saber o motivo de tanta demora,
porque a deixara aflita. Ele, então, suspirou fundo, passou as mãos nos
cabelos, um gesto muito dele quando estava preocupado, e a puxou para junto
dele, abraçando-a. Em seguida contou sobre o encontro com Alice. Maya ouviu
tudo calada, atenta, sabia o quanto aquela mulher havia sido importante na vida
dele e se perguntou se ainda era e até que ponto. Esperou que ele terminasse e
quis saber como se sentia.
- Estou preocupado. Não sei se esse encontro, aqui, num
outro país, pode ser prejudicial para a segurança dela. Amanhã vou falar com
Lowry.
- Não me refiro a isso e você sabe. Quero saber como se sente, se isso afeta de
alguma forma a nós dois.
- A única coisa que posso dizer é que não desejo que nos
afete. Não quero perder você. Mas não me pergunte mais; minha cabeça está
fervilhando.
- Como posso entender isso?
- Não sei... Nada muda.
Maya
não quis perguntar mais nada. Era evidente que ele estava abalado. Talvez fosse
natural, talvez não. Afinal ele a amara por anos e não teria se afastado dela,
não fossem as circunstâncias da vida. Sentiu uma tristeza por ele ter ficado
tocado, todavia o amava como jamais pensara amar um homem e se fosse preciso
lutaria por ele. Jerry tinha sensibilidade e a respeitava, senão não lhe teria
contado a verdade. Vira isso muitas vezes com as amigas que, não raro, pegavam
mentiras ou distorções da realidade por terem seus companheiros pisado na bola.
Com Jerry era diferente, ela sentia que podia confiar nele e, até aquele
instante, não o pegara em nenhuma mentira.
Ela não
conseguiu dormir aquela noite observando o sono inquieto de Jerry, que se mexeu
o tempo todo. Só quando o dia clareou foi que conseguiu cochilar por alguns
minutos. Nesse meio tempo ele acordou. Quando Maya se levantou ele estava na
varanda com um copo de café na mão e o olhar perdido no céu. Ela o chamou, mas
ele não a ouviu, então ela se aproximou beijando-lhe os lábios. Jerry levantou
a cabeça retribuindo-lhe o beijo, todavia sua fisionomia era tensa. Tinha feito
o café e colocado a mesa. Ambos tomaram o café da manhã juntos, apesar de haver
total silêncio entre ele. Ao se dirigir para a porta para ir trabalhar, ele,
pondo-os a sua frente, disse que a levaria de carro e que a buscaria também.
Ela estranhou porque sempre ia para o trabalho com o próprio carro e
questionou.
- Preciso de você. Preciso estar o mais perto de você
possível. Estou me sentindo no ar, sem chão.
Pela
primeira vez na vida Maya decidiu não ir trabalhar para ficar com ele. Nunca
passara pela sua cabeça um gesto desses. Simplesmente telefonou para o trabalho
avisando que não iria por motivo de ordem particular. Ele sorriu e a estreitou
longamente nos braços. Nesse momento Maya teve uma crise de choro. Percebia que
ele estava dividido e, insegura, sentia medo de perdê-lo. Jerry se assustou com
seu pranto e, embora soubesse que ela estava angustiada com seu encontro com
Alice, quis saber o que a levou a um choro convulsivo. Ela o olhou fixamente
nos olhos respondendo com franqueza não poder deixar de notar o quanto ele estava
dividido, angustiado; podia perceber que ele não estava mais inteiro com ela.
Jerry
colocou as mãos na cabeça num gesto de quase desespero e, andando pela casa
como um animal enjaulado, afirmava ama-la, mas confessava não saber ainda se
sentia o mesmo por Alice. Encontra-la lhe havia trazido de volta uma sensação
de querer estar ao seu lado, e ver suas filhas fez com que sentisse tristeza
por elas não serem filhas dele. No entanto não conseguia entender tudo isso,
sentia-se sem direção, no ar, mas podia afirmar que experimentava certa
segurança ao lado dela, Maya. Ela, tentando compreender, questionou a
possibilidade desse sentimento ser causado não por amor como antes era, mas por
ter sido interrompido. Depois lhe
perguntou se ele voltaria com Alice para o seu país a fim de terem uma vida
juntos. Ele a olhou sério respondendo com firmeza que não, lá ele era um homem
morto, não tinha vida, não era livre. Em seguida ela lhe fez outra pergunta; se
Alice largaria tudo para vir morar com ele. Mais uma vez ele a fitou com
espanto e disse que provavelmente não, porque lá ela tinha uma carreira já
estável e aqui teria de recomeçar do zero, se conseguisse, já que lá tinha um
cargo alto num departamento de justiça. Na situação dela, com duas filhas,
jogar tudo para o alto seria loucura e ela é uma mulher bem equilibrada, que
sabe o que quer, não se arriscaria numa aventura e nem às filhas.
- Jerry, se ela não pode vir e você não tem como ir...
- É... Eu sei... Mas não penso e nem quero deixar você.
- Desculpa, mas nada disso faz sentido. Estou tentando
ajudar a entender o que está sentindo, o que quer, passando por cima dos meus
receios, mas nada entre você e essa tal de Alice se encaixa. Acho que parte de
você se sente de certa forma preso a uma ilusão, um desejo lá atrás que nunca
se tornará uma realidade. Houve um momento em que vocês se encontraram, que
você a amou, mas em nenhum instante vocês se encontraram de fato. O mundo de
vocês se tornou ou até já era totalmente distinto. Porque não vai conversar com
ela agora que já passou o impacto do reencontro?
- Farei isso; mas só depois de falar com Lowry.
Maya
sentou numa cadeira, na varanda, para onde ele havia se dirigido, e, sem
rodeios, foi direta com Jerry. Ele a havia transformado muito, jamais há uns
meses atrás aturaria uma situação igual ou mesmo parecida. Todavia se conhecia
muito bem, compreendia as suas dificuldades, mas sabia não conseguir conviver
com aquele impasse por muito tempo. Ela o amava como jamais amara alguém, no
entanto havia limites de suportabilidade e o dela não era tão extenso.
Preferiria sofrer a embarcar num relacionamento caótico, inserto. Não nascera
para esse tipo de coisa, não se anularia nem deixaria que sua autoestima
baixasse por homem algum. Estava sendo compreensiva, amiga, porém lhe pedia que
se encontrasse logo porque, caso contrário, iria preferir tomar caminho
diferente, ele que se resolvesse com outra pessoa. Jerry se assustou com a
firmeza com que ela lhe falara. Havia decisão em sua voz, em seu olhar. Em
silêncio abraçou Maya como se a quisesse reter nos braços para sempre. Seu
coração disparou. Porque estava confuso? Ela tinha razão, jamais poderia ter um
relacionamento com Alice, que no fundo não passou de um sonho, um amor não
correspondido, já que ouvira ela dizer que o amava apenas segundos antes de
perder a consciência, após ser baleado por Jonas. Depois nunca mais esteve com
ela até o dia anterior. Viu ela ao lado de outro homem, feliz, sorrindo, a viu
grávida da primeira filha, enfim nunca estiveram juntos efetivamente, ao
contrario do que vivia ao lado de Maia; com quem compartilhava de verdade a
vida, com quem desejava formar uma família.
Ficaram
juntos, em silêncio, aconchegados um ao outro até que ele se deu conta da hora
e resolveu ligar para Lowry. Enquanto falava, ela observava sua fisionomia se
contrair, preocupado. Ele desligou, olhou para ela e disse que ter se
encontrado com Alice não havia gerado propriamente problema por estar em outro
país, mas que não a deveria ver outra vez, por segurança. Abraçou Maya fortemente.
Ela tornara-se sua maior referência como ser humano. Havia sido forçado a sair
do seu país, a não procurar nunca mais sua família, seus poucos amigos e nem
podia se quer ser amigo da mulher a quem amara. Num suspiro percebeu o quanto
amava aquela mulher em seus braços, ela não era apenas a mulher com quem queria
viver o resto dos seus dias, construir uma família; ela era seu posto seguro,
sua identidade restabelecida. Estreitou-a em seus braços com mais força, como
se assim não corresse risco de se perder. Beijou-a com ternura sôfrega,
acariciando-lhe os cabelos. Naquele instante sentira-se totalmente entregue.
Maya
sentiu o peito apertar. Jerry lhe parecia mais sofrido que nunca. Percebeu sua
insegurança e, sem compreender, o amou ainda mais. Percebia no fundo da alma
seu amor. Sua carência a sensibilizava de forma intraduzível, tornando claro a
consciência de que não se via mais na vida sem Jerry. O envolvimento e a entrega de ambos foi tal
que se amaram como jamais haviam se amado até então. As horas passaram e, quase
no fim da tarde ele pediu que ela o acompanhasse até Alice. Seria a última vez.
Havia lhe prometido voltar para que suas filhas o conhecessem. Não faltaria com
sua palavra. Também explicaria a Alice que não poderiam se ver mais. Isso lhe
doeria, mas o que fazer? Era a realidade.
Maya o
fitou concordando em ir com ele mas o alertou para o fato de que duas crianças
o veriam e que isso poderia ser perigoso, já que crianças não possuem noção de
perigo. Elas poderiam, ao voltarem para casa, comentarem sobre o amigo que a
mãe havia encontrado e falarem o seu nome. Jerry silenciou por alguns instantes
e, decidido, pegou o telefone e ligou para o hotel. Precisava falar com Alice.
Explicou que antes que as meninas o conhecessem necessitava falar com ela, e o
assunto era sério. Então marcaram num restaurante perto do hotel, em frente à
praia.
Quando
Alice chegou, Jerry e Maya já se encontravam a sua espera. Jerry as apresentou
e, sem rodeios, foi logo ao assunto, uma forma também de amenizar o
constrangimento que sentia por estar junto às duas. Ela jamais deveria ter
descoberto que ele estava vivo e deveria esquecer o fato. Eles não poderiam se
encontrar mais e nem para suas filhas era seguro saber da sua existência. Eram
crianças, poderiam comentar e acabarem por descobrirem que sua morte foi uma
mentira, o que as colocaria, tanto quanto a ela, Alice, em risco.
- Não entendo e não aceito, Jerry! Estamos em outro país!
- Você é vigiada, Alice, e não sabemos até que ponto.
- Eu sou vigiada?!
- É. Eles sabem que você tem conhecimento de que foi Jonas
que matou seu pai. Sabem do seu envolvimento comigo, mas não possuem certeza do
quanto do programa você conhece.
- O que você sabe que eu não posso saber?
- Há órgãos governamentais envolvidos. A coisa é muito maior
do que você possa imaginar e o meu silêncio é a garantia da sua, da minha vida
e agora da de Maya também. Prometi a seu pai olhar por você e, infelizmente,
fazer isso agora significa não termos nenhum tipo de contato.
- Isso é cerceamento de liberdade! Inadmissível!
Nesse
instante ouviu-se um estouro e Alice caiu para o lado desmaiada. Um tiro a
havia atingido. Jerry, num salto automático jogou Maya no chão abaixando-lhe a
cabeça e se dirigindo em socorro a Alice, que sangrava bastante na altura do
peito. Ele era a imagem do desespero e uma enxurrada de perguntas passavam-lhe
pela cabeça sem que concatenasse com respostas. Suas mãos tremiam, estava
gelado, chamava por Alice na esperança de ouvir algum som de seus lábios. Maya,
agachada, se aproximou dele enquanto o gerente do local chamava a ambulância.
- Ó, Deus, o que eu fiz?! – Falava alisando os cabelos de Alice.
- Jerry, não é culpa sua. Talvez não tenha nada haver com
você.
- É muita coincidência; não acredito nisso.
Ele a
abraçou forte e pediu que ela se afastasse dele. Havia pavor em sua voz.
Receava que ela também fosse alvo de algum atentado por sua causa. Entretanto,
apesar do medo que sentia, Maya se negou a se afastar. Não o deixaria só
naquele desespero. A ambulância levou Alice e ambos a acompanharam. O
atendimento no hospital foi imediato para Alice, mas para Jerry e Maya a espera
foi uma eternidade. Ela perdeu muito sangue porque a bala passou rente ao
coração, mas este não foi afetado. O estado dela inspirava cuidados devido ao
local, mas não havia, a princípio, risco de vida. Ao saber dos detalhes Jerry
caiu num pranto que assustou não só Maya como ao médico, que lhe aplicou um
calmante. Quando conseguiu parar de chorar, expressou sua preocupação com as
filhas dela, que estavam com a babá no hotel. Precisava fazer alguma coisa, mas
tinha medo de se aproximar delas. Então Maya pediu que ele se acalmasse porque
ela iria ao hotel e levaria as meninas para casa. Era o melhor a fazer. Se
houvesse alguma ligação dele com o que acontecera, eles não chegariam mais tão
perto, porque seria então uma evidência que se Jerry desse parte deflagraria um
problema de ordem internacional.
- Não creio que eles se importem com isso.
- Jerry, tenta se acalmar. O gerente do restaurante acionou
a polícia e foi aberto um inquérito para saber o que realmente aconteceu. Havia
muitas pessoas ali, testemunhas que, como nós, vão ser chamadas a depor. Até
que tudo seja esclarecido, não tem sentido você entrar em pânico.
- Você não sabe o que é ser caçado como um animal, viver sob
a tensão de ser descoberto a qualquer momento e ser usado como cobaia.
Maya
não encontrou palavras para lhe dizer em resposta. E ele fez uma observação que
não podia ser ignorada: No meio de tanta gente só Alice foi atingida. Suas
palavras fizeram Maya estremecer. Ela o abraçou, pediu que ele fosse para casa
e a esperasse com as crianças.
Depois
de explicar à baba o que houve, ela disse às meninas que a mamãe delas tinha
tido um probleminha que elas não entenderiam, mas que não demoraria muito para
voltar e que enquanto isso elas ficariam com a Mary na sua casa. As meninas
choraram um pouco querendo a mãe mas ela e a babá, com carinho e brincadeiras,
as acalmaram.
Chegando
em casa, Jerry as recebeu com emoção e carinho. Ambas eram muito parecidas com
a mãe e a presença delas deu uma certa leveza ao ambiente. No dia seguinte
deixou-as com a babá e foi, junto com Maya, que não o deixava sozinho, ver
Alice. Encontrou-a lúcida e, logo que os viu se esforçou no intuito de saber
das filhas. Maya a tranquilizou ao dizer que as meninas estavam na casa deles,
em segurança. Saíram do hospital e foram à delegacia. Lá encontraram o gerente
e dois garçons que também foram depor. Durante a conversa, enquanto esperavam,
ficaram sabendo que um dos garçons presenciou uma correria de três rapazes e
que um deles estava armado. Na hora em que o que estava sendo perseguido correu
em direção ao restaurante, esse garçom entrou para avisar o gerente e chamarem
a polícia. Foi quando ouviram o barulho do tiro. Com certeza o que estava
armado atirou em direção ao que fugia, mas o tiro atingiu Alice. Para o
delegado e todos que estavam ali tudo parecia esclarecido e o garçom tentou
fazer o retrato falado de um deles, assim como o gerente levou as gravações das
câmeras que filmavam todo o ambiente; mas para Jerry parecia que algo não se
encaixava, que era tudo muito simples para ser verdade. Apesar de parecer
concordar com a conclusão dos fatos, por não poder falar a verdade sobre sua
vida e o que o ligava ao governo do seu país, ele foi tomado pelo medo da
realidade ser totalmente diversa. Pessoas que foram ligadas a Jonas e que ainda
não tinham sido presas poderiam ter aproveitado a situação de confusão para
atingirem Alice, ou até o alvo não fosse ela; e sim para ele. Não parava de
pensar nessa possibilidade, colocando-o num estado paranoico. Vivia olhando
para ver se não estava sendo seguido. Dormia aos sobressaltos. Ia ver Alice
usando roupas estranhas, cada dia tendo uma aparência diferente, como se fosse
outra pessoa, disfarçando-se.
Maya
começou a se preocupar com o estado emocional de Jerry e o questionou do porque
ele não contara a Lowry o ocorrido com Alice, talvez ele até pudesse dar uma
checada para ver se Jerry tinha realmente razão em se sentir tão ameaçado. Ele
havia pensado nisso, mas receou que Lowry o chamasse de volta. Não desejava
perder outra vez a identidade nem viver escondido, como sentia pavor de ter de
se afastar dela. Depois que Alice saísse do hospital e retornasse à sua vida
normal talvez ele entrasse em contato com Lowry, porque estando distante dela
era possível que se o fato estivesse associado à Alice eles não mexessem com
ele, ou talvez, no máximo, pediriam que mudasse de cidade. Se isso ocorresse
seria mais fácil de gerenciar. Apesar de não concordar inteiramente com ele,
ela respeitou sua decisão, seu ponto de vista; afinal só ele mesmo poderia avaliar
todas as experiências pelas quais havia passado.
Cerca
de treze dias depois de Alice deixar o hospital, ao conversarem ela que
confidenciou que embora não achasse provável, os temores de Jerry podiam
realmente ter fundamento e que de maneira bastante cautelosa quando retornasse
ao trabalho faria uma investigação da forma mais sutil possível sobre o caso e,
se visse alguma coisa que pudesse colocar o Jerry em risco o informaria através
de Maya, que lhe passou seus telefones, particulares e do trabalho, e seu
e-mail. Alguns dias após voltou para casa, deixando Jerry pouco mais calmo,
apesar de ainda se achar observado.
Quando
Alice foi embora Maya voltou a fazer planos para o casamento e, pegando-a de
espanto e surpresa, Jerry confessou-lhe preferir adiar a cerimônia para depois
de ele ter certeza de que nada do que havia acontecido tivera relação com ele
ter sido descoberto vivo. Ela achara aquilo um absurdo, um despropósito, já que
mais nada acontecera que justificasse aquele temor paranoico. Começava a julgar
a possibilidade de Jerry, devido às torturas, ter desenvolvido algum tipo de
transtorno mental. Queria que ele procurasse um apoio psicológico, mas Jerry se
ofendeu. Não era nenhum louco, seu medo tinha razão de ser. Em meio a discussão
ele pegou o telefone e ligou para Lowry. Maya se colocou a seu lado escutando a
conversa. Contou sobre o ocorrido com Alice e enquanto escutava o que Lowry lhe
dizia seu semblante foi ficando descontraído e todo o seu corpo era um só
tremor.
Lowri
lhe explicara que o tiro que ela levou não tinha ligação alguma com ele, embora
pudesse até ter tido, mas que na última semana eles haviam conseguido se
infiltrar na casa dos dois últimos comparsas de Jonas monitorando-os vinte e
quatro horas por dia e que até o fim da semana que entraria, no máximo, eles
conseguiriam prendê-los. Ele estaria livre e Alice também. Ao ouvir suas
últimas palavras Jerry mal conseguia segurar o telefone de tão trêmulo. Após
tantos anos estaria livre, poderia dormir tranquilo, sem medo. A única restrição
era a sua volta ao país, porque sua morte fora forjada e isso geraria um
problema governamental de ordem interna, já que envolvia setores do alto
escalão do governo. Isso, contudo, era o de menos; só desejava mesmo era a
liberdade de viver em paz. Mesmo assim, para realmente se certificar, perguntou
se poderia pensar em ter uma família sem temer que as coisas puder reverter de
novo.
- Está pensando em se casar, Jerry?
- Seriamente.
- Bem, para mim é uma enorme surpresa. Alice já sabe?
- Não é com ela, Lowry.
- Como? Está aí uma coisa que jamais imaginei acontecer:
Você se apaixonar por outra mulher!
- Ela é muito especial.
- Deve ser mesmo. Não duvido. Pois então seja feliz, Jerry,
e relaxe. Pode respirar aliviado. Ah! Quem sabe um dia possamos nos encontrar e
eu conheça sua família!?
- É... Quem sabe.
Jerry
desligou o telefone suando muito e abraçou Maya repetindo em pranto estar
livre. Estava tendo agora sua vida integralmente de volta. Podia casar quando
ela quisesse, poderiam viajar sem temor, dormir em paz. Era o fim de anos de
tortura emocional.
Maya
sentia sua emoção com felicidade. Beijou seus lábios com ternura envolvendo-o
num abraço amoroso. Sentiu no seu coração que nunca mais se afastaria de Jerry
e que Alice não era risco para a felicidade deles; era passado, ficara em Jerry
como uma lembrança boa, apenas isso.
O dia
já começava a clarear quando consegui pegar no sono. Estava então feliz,
relaxada. Não teria de trabalhar e quando levantasse iria atrás das últimas
notícias sobre Mel. Ele exerce um poder sobre mim que me transforma, que me
deixa sempre de bem com a vida. Não sei explicar essa capacidade que ele tem
de, através do seu trabalho, me colocar sempre pra cima. Algumas pessoas da
família me dizem que sou apaixonada por ele. Acho isso ridículo, porque ninguém
pode amar a quem não conhece. Admirar, sim. E eu sinto uma admiração
intraduzível em palavras. Talvez até se eu o conhecesse me apaixonasse
perdidamente; ou não, se fosse verdade parte do que dizem a respeito dele,
coisa que não acredito por tudo o que sei e acompanho da sua vida. Analiso cada
fato e sei que se sentisse que ele é o que dizem, minha admiração murcharia,
embora saiba que continuaria gostando do trabalho que ele faz, visto não
misturar o profissional que ele é com o ser humano na vida particular, que por
sinal, no fundo, não me diz respeito. E, além disso, ele é casado, e homem
casado para mim é padre. Podem rir. Os padres não devem ser desejados e sim
respeitados, já que escolheram por livre vontade a vida dedicada ao Cristo e o
celibato. Apesar de julgar uma condição retrógada e ultrapassada, respeito.
Após
levantar, comprar o pão e tomar meu café da manhã fui para o computador. Precisava
saber se havia notícias do Mel. Entrei no site TMZ e lá, em letras garrafais,
estava uma bomba. Meu Deus! O que jamais suspeitei aconteceu. Mel se divorciou.
Fiquei triste com a notícia. Achava o máximo o relacionamento que eles passavam
ter. Sei que ele está com outra e creio que não vai longe esse relacionamento.
Ela tem aspecto de que não o olha, mas vê nele apenas a grana que poderá tirar.
Homens quando chegam aos cinquenta, principalmente nos primeiros anos, ficam
inseguros e fazem besteira. Se envolvem com mulheres mais novas, mesmo que não
sejam tão mais novas, como é o caso dele. Sinto pena, porque sempre dão com os
burros n’água. E com ele não vai ser diferente. Em contra partida, como ele já
não está mais casado, deixou de ter a mesma importância de um padre e, sendo
assim, posso sonhar com ele sem que sinta estar cometendo um pecado. Afinal ele
agora é um homem livre. No entanto, intimamente torço para que após a
tempestade ele e a esposa consigam se reconciliar. Quanto a namorada, por
enquanto não sinto ter que ter nenhum olhar do tipo não desejo seu homem,
afinal ela não respeitou o fato dele ser casado e ter sete filhos. Não sinto
ter de olhar para ela da mesma forma que olhava para a sua ex-mulher, com
respeito e admiração. Pelo menos não por enquanto.
Estou
cansada da noite mal dormida, quase que em claro. E já que este homem com olhar
encantador está livre, não vou sonhar com suas criações, vou me dar o direito
de imaginá-lo todinho meu. Porque não? Se ganhasse na loteria ou simplesmente
uma excelente soma em dinheiro, a primeira coisa que faria era ir atrás dele.
Não que tenha a ilusão de ter um relacionamento com ele, mas meu maior desejo é
conhecê-lo. Desejo olhar bem no fundo dos seus olhos e sentir sua alma, saber
de pequeninos detalhes referente a como ele sente o mundo a sua volta. Acho que
é isso. E também, se tivesse sorte, gostaria de beijá-lo para saber se a fama
de que ele é o melhor beijo de Hollywood é mesmo verdade. Nossa! Iria às
nuvens! Depois voltaria para a minha vida rotineira e viveria para o resto dos
meus dias recordando as horas ou os poucos dias que passei ao seu lado. O resto
continuaria a fazer parte de sonhos.
(do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)
(do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)
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