II
De madrugada não há quem possa escutar
os meus sussurros ao falar comigo mesma, com os personagens que imagino, com
Mel. Não há como alguém me ver beijando o dorso da minha própria mão como se
estivesse beijando a boca do meu amor ficcional. A madrugada é leal aos nossos
segredos. E depois, se eu choro na minha ficção, não preocupo a ninguém, nem
dou margem a especulações sem sentido. É um momento de liberdade total, sem
possibilidades de julgamentos.
Era uma noite muito fria e eu andava na
praia; pés descalços para sentir a areia sob meus pés. Adoro essa sensação de
pisar em areia, de sentir o cheiro da maresia e ouvir o som das ondas
estourando na orla, batendo nas pedras. A solidão gritava em mim e eu me sentia
meio anestesiada pelo meu próprio abismo interior. Agachei e peguei um punhado
de areia nas mãos. Areia úmida, tão úmida quanto meu coração. Depois corri de
um lado a outro num círculo em volta de mim mesma. Olhei a lua e corri em
direção a ela, de encontro às pedras. Nesse momento, a uma certa distância, vi
um cão correndo em direção às pedras. Olhei, curiosa, e vi um homem sentado. Ao
longe me pareceu olhar em direção ao mar. Sem perceber caminhei em sua direção.
Parei a uma pequena distância observando-o a conversar com seu Collie, que parecia
atento às suas palavras.
O cachorro denunciou minha presença com
um latido em minha direção. O homem me olhou. Nossos olhares se cruzaram sob a
luz da lua sem que disséssemos nada por alguns segundos; o único som era o das
ondas dançando e da noite. Podem achar estranho, mas a noite tem seu som
próprio. Um som calmante, acalentador.
De repente ele tomou mais um gole da
sua cerveja, passou a mão pelos cabelos meio crespos e um pouquinho longos,
abaixo da orelha, e disse em bom tom:
- O que faz aqui moça?
- Talvez o mesmo que você. Admiro a noite, o mar, o luar.
- Procuro paz.
- Eu também. Por isso escolho a noite. Mas não vou lhe perturbar.
Tchau!
Dei uns passos e senti alguém tocar-me
o braço. Era ele.
- Espera! Não quero me meter, mas é melhor você ir pra casa.
Não é nada seguro andar a noite por aqui. É muito deserto.
- Bem... então porque está aqui?
- Talvez eu seja maluco. O perigo não me intimida. Estou
acostumado com ele. E depois... moro aqui. Naquele trailer.
- Também não sou de me deixar intimidar pelo medo.
- Mas sabe que está se expondo. Porquê? Problemas em casa?
- Não. Moro sozinha. E você, porque procura a solidão da noite?
Porque se coloca tão isolado?
- Não procuro. Ela se impõe. O isolamento também. Já você...
porque procura?
- Estou buscando a mim mesma. Durante o dia é mais fácil a
gente se esconder. O burburinho da cidade, o trabalho, as pessoas, tudo ajuda a
gente a não enxergar com clareza, a colocar uma máscara e se esconder. Mas
sozinha; o ambiente em casa é sufocante. Preciso respirar, pensar, me sentir.
- Sei bem como é. Mesmo assim, a essa hora, não é lugar pra
uma moça.
- Sei. Tenho consciência disso. Mas sabe, há coisas que se
tornam necessárias. Talvez correr o risco de ser assaltada não seja pior que
ser enganada.
- Então é isso... Magoaram profundamente você.
- Me mataram por dentro. Estou juntando os cacos, me
refazendo. E você? Porque disse estar
acostumado ao perigo? Porque também se expõe, se esconde?
Ele deu um sorriso, um lindo sorriso
que não pude ignorar, passou a mão nos cabelos, olhou em direção ao céu, depois
me fitou com um fundo suspiro e disse:
- Está vendo o trailer ali? Já que vamos juntar a nossa
solidão, não acha melhor sair desse frio e tomar alguma coisa que esquente?
Fiquei surpresa com seu convite. Olhei
em direção ao escuro mar e fitei seus olhos, que me inspiraram confiança.
Aceitei.
- Você não me respondeu.
Ele meneou a cabeça, abriu a porta do
trailer, se desculpou pela bagunça e me ofereceu uma cerveja.
- Obrigada. Não bebo.
- Quer um refrigerante então?
- Aceito.
- Não pense que estou fugindo da resposta. É que não costumo
falar de mim.
- Desculpa. Talvez a resposta seja muito particular.
Esquece. Na verdade nem nos conhecemos.
- Sou policial. Investigador. Vivo no perigo. Ah!... E acho
que seria melhor nos apresentarmos, afinal estamos conversando há um bom tempinho
sem que saibamos nossos nomes. Riggs. Martin Riggs. Prazer. – E estendeu-me a
mão.
- Lara. Prazer é meu. – Também lhe estendi a mão.
Não sei porque mas depois desse ato, de
repente, foi como se já nos conhecêssemos há séculos. Surgiu uma leveza entre
nós. Uns segundos após revelarmos nossos nomes caímos numa gargalhada
incompreensível, sem motivo e, após, surgiu essa espécie de mágica que pareceu
nos enlaçar. Ele sentou ao meu lado e, meio inquieto, se levantou algumas vezes
enquanto falava sobre a relação de afeto que tinha com seu cão. Isso porque
quando Riggs me serviu o refrigerante ele latiu frente a geladeira como a pedir
algo. Riggs sorriu e colocou mate numa vasilha, servindo-lhe.
- Você disse que mora sozinha. Gosta de estar só?
- Não. Na verdade moro sozinha há pouco mais de um mês. Meus
pais bem que gostariam que eu voltasse pra casa deles, mas teria de deixar
minhas coisas, mudar drasticamente meu ritmo de vida, voltar a me preocupar com
horários, enfim, depois que a gente casa acho que não dá mais pra voltar a
morar com os pais, a menos que seja realmente necessário. E também preciso me reorganizar
interiormente; minha cabeça ainda está uma bagunça só.
- O casamento não foi o que você esperava; foi uma decepção.
- Posso dizer que mais que isso. Nós convivemos durante três
anos. Abri meu coração, fui absolutamente sincera, verdadeira. Deixei claro que
queria que nosso relacionamento se pautasse na confiança mútua, na lealdade, na
franqueza. Ele concordava inteiramente
com isso e pensei que fosse ter um companheiro... Quatro meses depois, quatro
meses de aparente total felicidade, ao chegar do trabalho encontrei uma carta
em cima da mesa da sala. Ele dizia que eu era uma mulher incrível e que por
isso pensou que pudesse ser feliz comigo e esquecer o seu eu interior,
refazê-lo da forma que a sociedade espera dos homens; mas ele estava enganado,
não conseguia negar a sua verdade e ter uma relação, como dizem, normal. Ele
possuía um corpo masculino, mas uma alma feminina e que sua alma amava
perdidamente outra alma feminina em corpo masculino. Ele havia ido embora para
assumir de uma vez seu homossexualismo.
- Uau! Que loucura!
- Fiquei sem chão. Minha cabeça parecia oca e foi difícil
acreditar no que estava lendo. Eu fui abandonada por causa de um outro homem.
Não tenho nada contra a homossexualidade e respeito a escolha de vida de cada
pessoa, até porque não acredito ser bem uma escolha, pra mim a pessoa já nasce com essa tendência ou a
adquire por sérios problemas psicológicos, não dá mesmo pra negar a sua
realidade interior. O que me deixou
arrasada foi ele não me ter dito a verdade antes, ter concretizado uma união já
falida, mentirosa. Ele me destruiu por dentro e eu não merecia isso. Por isso
me perdi de mim, me sinto do avesso, entende!?
- Puxa! E Como!
- Eu entenderia se ele tivesse dito antes.
- E seus pais? Qual foi a reação deles?
- Raiva. Incredulidade.
De repente observei a expressão de
consternação de Riggs e me senti envergonhada por ter desabafado com um homem
que mal conhecia. Mas ao mesmo tempo, seu olhar tinha uma ternura compreensiva
que me deixou leve. Fiquei em silêncio sem saber mais o que dizer e Riggs,
percebendo meu constrangimento, me chamou para darmos uma andada pela praia. Aceitei.
Sentia-me meio sufocada. Com delicado jogo de cintura Riggs puxou a conversa
para amenidades, chegando a contar algumas piadas que me tiraram gargalhadas. Sem
que percebêssemos a madrugada deu lugar a um lindo amanhecer que contemplamos
juntos, sentados lado a lado na areia. Pela primeira vez em mais de dois meses
sentia-me relaxada, tranquila.
Apenas quando vimos o céu bem abóbora,
quase avermelhado, foi que nos demos conta de que havíamos passado toda a
madrugada conversando sem sentir o passar das horas, o frio. Foi como se o
tempo não existisse. Mas logo veio a consciência de que tínhamos que trabalhar
e levantamos.
Riggs me chamou para o trailer e
tomamos o café da manhã juntos. Depois ele se ofereceu me levar em casa para
que pudesse me arrumar. Enquanto o esperava observei quando pegou uma arma e
enfiou na cintura. Lembrei de que ele havia dito ser um policial.
- Você usa isso mesmo? Perguntei olhando em direção a arma.
- O quê? Ah!, a arma? É. Muitas vezes. Sou bom nisso.
- Sente orgulho em atirar nas pessoas?
- Não. Gosto de pegar bandidos que acabam com a vida e a paz
de famílias, arrasam com a vida de pessoas inocentes. E se tiver que lhes tirar
a vida não sinto nenhum peso na consciência.
- Eu acho que não conseguiria.
Ele me olhou com um sorriso largo e
disse que por isso eu nunca havia cogitado em ser policial. Pegou a chave do carro e o segui. Antes de
entrar no prédio ele pediu meu telefone. A noite ele me ligou. Dessa vez não
ficamos na praia, jantamos juntos e ficamos conversando. Aliás, passamos dias e
dias nos encontrando após o trabalho e nos fins de semana. Riggs era
extrovertido e divertido. Apesar do trabalho frio, era um homem doce,
carinhoso, atencioso e também meio moleque. Um final de tarde apareceu no meu
trabalho com um buquê de rosas vermelhas e comunicou que me esperaria no
trailer. Senti que aquela noite marcaria definitivamente nossas vidas.
Quando cheguei, Toby, o Collie de
Riggs, estava deitado bem frente ao trailer e latiu como a avisá-lo. Logo Riggs
abriu a porta. Estava lindo, com uma calça jeans e uma camisa pólo azul royal
escuro, que realçavam ainda mais seus olhos azuis. O sorriso sincero e alegre
fez meu coração acelerar e tive, naquele instante, de admitir para mim mesma
estar totalmente apaixonada por esse homem, para mim ainda misterioso.
Riggs arrumou a pequena mesa com um jarrinho
de flores e duas bonitas velas com cheirinho de framboesa. Ele mesmo fez uma lasanha de bacalhau que
nunca havia comido em lugar algum e que estava uma delícia. Ele me falou sobre
as proezas do seu dia, fatos que me deixavam um pouco assustada por ele, mas
que Riggs contava com a maior naturalidade. Também lhe contei meu dia e sobre o
desejo que tinha de fazer um curso de paisagismo, ao que ele me deu o maior
incentivo. Depois levantou e me puxou para o seu lado no sofá posicionado em
frente a TV. Ali, ele me olhou firme nos olhos e disse um “eu te amo” tão
carinhoso, que me senti no ar. Passou as mãos nos meus cabelos e foi,
mansamente, aproximando seus lábios dos meus. Foi nosso primeiro beijo. Um
beijo repleto de ternura, ânsia e sofreguidão. A urgência era tanta que agíamos
sem falar, sem pensar. Não havia experimentado ainda um prazer tão intenso, tão
voraz. Riggs era ardente e doce ao mesmo tempo. Exaustos, nos deixamos ficar
deitados lado a lado, um apenas sentindo a respiração, o cheiro, o calor do
outro.
- Pensei nunca mais me sentir feliz. No entanto a felicidade
que sinto jamais havia experimentado. Você devolveu luz a minha vida, me
devolveu a esperança.
Riggs sentou-se na cama, pensativo.
- Que foi Riggs?
- Não quero que crie expectativas, Lara. Não podemos ter
mais que isso.
- Como assim? Não entendo.
- Teremos momentos, não futuro. Não posso te prometer
futuro.
- Riggs, até hoje tenho falado de mim, tenho sido totalmente
franca e aberta com você, mas toda vez que tento te conhecer mais profundamente
você se esquiva, puxa outro assunto, foge. Você sabe do meu passado, dos meus
sonhos e anseios enquanto eu sei apenas do seu presente. Você sempre fala do
que houve hoje com você, e assim mesmo diz que não pode dizer tudo, que há
fatos, detalhes guardados a sete chaves por fazerem parte de esquemas. Isso eu
entendo. É o seu trabalho. Mas quem é você, Riggs? Qual é a sua origem, o que
aconteceu no seu passado? Quem são seus pais? Você nunca fala deles! Eu estou
me entregando a um homem a quem eu não conheço, que é envolto em mistério. Devo
estar maluca. Depois de tudo o que me aconteceu, de tanta decepção, me envolvo
com um homem nebuloso, um enigma. Pior é que me apaixonei, que amo esse homem
que você mostra, mas que não sei quem é de fato.
Levantei, me vestindo, com a intenção
de ir embora e nunca mais vê-lo de novo. Mas Riggs se ergueu tentando me
impedir de prosseguir.
- Olha, eu sei que é loucura; você tem razão, mas... é que é
difícil relembrar. Por favor, Lara, apesar de não poder lhe oferecer a garantia
de um futuro, não quero perder você.
- Ninguém vive sem futuro, Riggs. Há sempre um amanhã. Essa
é a realidade. Tanto é que daqui há trinta e cinco minutos será um novo dia, um
novo amanhã. É fato da vida. Eu não quero uma aventura, Riggs! Eu quero um
amanhã! Falei em alto e bom tom. E saí feito uma flecha, batendo a porta,
andando a passos largos pela areia da praia.
Riggs veio logo atrás, esbaforido,
ainda acabando de abotoar as calças.
- Espera, Lara! Espera! Por favor! Você está coberta de
razão. Lara, me escuta. Para um instante, me dá uma chance de explicar. Olha,
por mais que me doa, vou me abrir com você. – Pegou-me pelos braços,
parando-me. – Lara, não quero que a noite acabe dessa forma, me escuta!
Olhei
firme no fundo dos seus olhos.
- Ok. Mas por favor seja verdadeiro, por pior que seja a
situação. Não minta, não omita.
Riggs
me levou de volta ao trailer. Sentou-me no sofá, pegou uma cadeira e se sentou
frente a mim. Estava visivelmente tenso. Nervoso.
- Fala Riggs.
Ele
pegou um retrato numa gaveta e me mostrou. Era ele com uma moça vestida de
noiva. Gelei.
- Não sou casado. Ela faleceu. Foi assassinada. Pensaram que
fosse eu porque ela estava no meu carro. Ela ainda estava viva quando
perceberam o engano e, mesmo quase morta, eles ainda a torturaram por ser minha
mulher.
- Meu deus! Que horror! Sinto muito. Mas quem são eles?
- Acredite ou não faziam parte de uma quadrilha de
traficantes do corpo diplomático da África do Sul, na época do apartheid. Eu
trabalhava na narcóticos e, mesmo sem saber ao certo, estava chegando bem
próximo de descobrir tudo o que eles faziam. Com a morte da minha mulher,
fiquei mal e fui afastado do trabalho por um tempo. Quando voltei, não fui mais
para o mesmo setor. Na verdade ninguém queria que eu voltasse ao trabalho ou
ser meu parceiro. Uns pensavam que eu estava doido e que era um suicida em potencial,
como a psicóloga, outros achavam que eu estava fazendo onda para forçar uma
aposentadoria antecipada. Ninguém conseguia ver o meu desespero, a minha
solidão.
- E sua família? Ninguém lhe deu uma força?
- Minha família... Lara, eu não tenho ninguém. Não tenho
família. É difícil pra mim... Toda a minha família morreu num terremoto quando
tinha onze anos. Eu só não morri porque saí para comprar pão e umas frutas pra
minha mãe. Eu esta na outra esquina quando a terra tremeu e vi o prédio onde
morávamos desabando. Fiz um esforço sobre humano pra chegar perto da minha
família, mas foi impossível; aconteceu tudo muito rápido. O asfalto sob meu pés
rachou e uma senhora me puxou sei lá pra onde. Estava tonto, em choque. Quando
a terra parou de tremer corri em direção ao prédio, procurando desesperadamente
por meus pais, meus irmãos. Ninguém naquela rua a não ser eu sobreviveu. Fui
levado a um abrigo para crianças que não possuem família e fiquei lá até meus
dezoito anos, quando me jogaram no mundo.
Escutava
Riggs estarrecida e arrependida de tê-lo forçado a relembrar tanta dor.
- O jardineiro a quem auxiliava no abrigo e com quem
conversava muito foi que me deu uma ajuda. Deu o endereço de uma amiga dele e
pediu que ela me recebesse por um mês, tempo que ele julgava suficiente para eu
arrumar trabalho. O lugar na verdade era uma pocilga, em pardieiro, um prostíbulo.
Muita mulher da vida, muito bêbado, um pouco de tudo, uma realidade promiscua.
Na verdade foi aí que aprendi o que era fazer sexo. No fim do mês a dona me
botou na rua. Não tinha dinheiro nem para onde ir.
- Não tinha uma tia, uma avó, um primo, sei lá, alguém...
Riggs
fez um gesto negativo e prosseguiu.
- Perdido, sem saber o que fazer, procurei o Sr. Frank, o
jardineiro, no abrigo. Ele não podia fazer nada, me acolher, também não tinha
família, mas me deu um conselho. Disse para eu me alistar no exército, porque
assim teria salário e um teto onde dormir. Foi o que fiz. Mesmo assim ainda dormi
ao relento por uns dias. Depois do alistamento fui treinado e mandado para o
Vietnã, de onde pensei não sair com vida. Aquilo foi um inferno. Vi de tudo um
pouco. Dois anos depois, mais ou menos, fui ferido e me mandaram de volta. Bom,
como fui considerado um bom soldado, meu superior simpatizou comigo e me
orientou. Com sua ajuda entrei para a polícia, depois me especializei em
investigação, consegui alugar um quarto, para onde ia nas folgas. Nesse meio
tempo conheci minha mulher, casei, e fui feliz por mais de nove anos. Quando
voltei a trabalhar, depois que ela se foi, me impingiram como parceiro de um
cara bem mais velho que eu, com esposa, filhos, uma família. A princípio me
olhava receoso, mas depois se tornou meu melhor amigo e sua família passou a
ser minha família. Ele não queria se aposentar por mim, no entanto o coração
fez ele parar. Fiquei sem chão. Meses depois eles me mandaram pra cá. Essa é
minha história. Minha vida.
- Você e sua mulher não quiseram filhos?
- Planejamos organizar a vida primeiro. Quando começamos a
pensar que já era hora... Meu mundo virou de cabeça para baixo.
- Não teve mais ninguém?
- Tive. Uns três anos depois conheci uma policial por quem
me interessei; embora não conseguisse esquecer minha mulher nem tirar a
aliança. Moramos juntos uns meses e ela engravidou. Fiquei feliz. Teria um
filho. Mas ele nasceu com uma anomalia nos rins e não sobreviveu mais que três
meses. Acho que isso deu um nó na cabeça dela. Eu fiquei com um vazio no peito.
Sei lá! A gente começou a se desentender por qualquer coisa, briga em cima de
briga. Aí chegamos a conclusão que era melhor separar e manter apenas um
relacionamento de amizade. Hoje ela está casada e tem dois filhinhos. Não era
pra ser.
- E depois?
- Não me envolvi com mais ninguém, se é o que quer saber.
Lorna foi diferente por ser policial como eu. Não é seguro fazer parte da vida
de mulher alguma.
Compreendi,
então, porque Riggs não desejava um relacionamento real, com futuro. Sua vida
havia sido marcada por perdas e solidão. Não devia ser fácil para ele pensar em
dividir de verdade a vida com alguém. O medo da perda, de sentir a mesma dor de
novo com certeza mexia com seu emocional de forma destrutiva. Ninguém que
cortou o dedo uma vez quer passar pela experiência de novo. É natural. Todos
nós, de alguma forma, fazemos de tudo para evitar a dor. Eu mesma receava
passar pela experiência de ser abandonada outra vez. Isso de certa forma me
dividia em relação à Riggs. Ele passou a ser um ponto de interrogação em minha
vida, um mistério a ser desvendado dia após dia. E sempre que nos despedíamos,
sentia receio de não vê-lo nunca mais.
O que
me impressionou mais depois do dia em que me resumiu sua vida foi o fato de vez
ou outra ele falar naturalmente de alguns pequenos momentos do seu passado de
forma espontânea. Talvez a forma com eu o escutava, sempre procurando um olhar
natural e não dramático, tenha lhe dado a base estrutural para lembrar e, de
certa forma, desabafar. Senti algumas vezes que lembrar o deixava leve depois.
Sentia-me feliz por ser eu a lhe proporcionar esse espaço. E por mais que eu
detestasse admitir, tinha que reconhecer que o amava a cada dia mais. E apesar
da insegurança do nosso relacionamento, uma força atrativa crescia entre nós de
forma tal que passávamos juntos todo o tempo que as nossas vidas nos permitiam.
Além de
toda essa incógnita, vivia vendo Riggs aparecer com certa frequência todo
ferido, roxo, e muitas dessas vezes o vi ficar alguns dias de molho, com
dificuldade de se mexer em decorrência de dores pelo corpo. Isso também gerava
uma tensão, porque passei a sentir medo de perdê-lo de verdade, medo de vê-lo
morto. Talvez até o tenha passado a compreender ainda mais.
Após
uns meses, sob a luz da lua, à beira mar, confessei a Riggs meu temor. Ele me
olhou nos olhos, passou as mãos nos cabelos, levantou, andou de um lado para o
outro como se buscasse alguma coisa dentro de si mesmo, deixou que os pés se
molhassem nas águas do mar, virou em minha direção e, sem que eu compreendesse,
abriu os braços em direção a lua e soltou uma gargalhada. Em seguida,
acocorou-se na minha frente, alisou meu rosto com doçura no olhar e disse
mansamente:
- Caí numa armadilha.
- O quê? – Perguntei sem compreender.
- Calma. Explico. Não vivo de amanhã. Você sabe. Mas agora,
quando me disse sentir medo de me perder... Também sinto... De perder você.
Tentei me proteger e acabei preso no medo de ter medo; agora no de perder você.
Isso é piada! Estava numa jaula pensando estar livre e acabei ainda mais enjaulado.(...)
É melhor você ir agora.
- Está tentando fugir de si mesmo, Riggs! Mas ninguém
consegue fugir dos próprios sentimentos. Será que ainda não deu pra perceber? A
gente pode não querer ver ou fazer de conta que não vê; mas um dia a vida
coloca um espelho na nossa frente e nos obriga a enxergar, a admitir. É o que
está acontecendo. Você, então, está fechando os olhos, mas não dá pra viver de
olhos fechados. É morte certa.
- Eu preciso pensar, Lara. – Riggs abaixou a cabeça e deu um
grito. – Olha aqui, você não sabe o quanto está sendo difícil pra mim cada vez
que nos encontramos. Faço malabarismos no trânsito e fico observando o dia todo
para ver se não estou sendo seguido, observado, e tudo isso cresce pelo pavor
que tenho de que peguem você. Minha missão no momento é bem delicada; envolve
até forças governamentais. Lara a tensão é grande, você não faz ideia. E nem
sempre a organização pra qual trabalho consegue nos proteger eficazmente.
- Não vou dizer que quando você fala assim não sinta medo;
só que não vou me entregar a ele. É injusto.
- Lara, amo você. Mas meu mundo está de pernas pro ar.
Estava já acostumado na minha solidão, em chegar em casa ferido e me virar
sozinho, em sempre comer olhando as ondas baterem na areia com meu cão ao lado
e agora me acostumei a sentir suas mãos cuidarem de mim, sua cabeça no meu
ombro enquanto falo... Tudo isso é bom e ao mesmo tempo um tormento. Não queria
sentir o que estou sentindo. Por favor...
- Ok. Se você quer ficar sozinho... Mas cuidado, Riggs! Seu
medo pode destruir a nós dois. Vou ficar te esperando amanhã no meu
apartamento.
Fui
para casa, mas não consegui dormir. Meu coração estava apertado. Telefonei para
ele duas vezes. Pareceu-me estar ao lado do telefone, porque o atendeu quase
que de imediato. Riggs também não pregou olho e me ligou uma vez. Todas as
vezes que nos falamos havia tristeza na sua voz. A mim, pareceu que ele estava
em depressão. Fiquei ainda mais angustiada. As horas foram-me uma eternidade.
No meio do caminho para o trabalho dei meia volta e voltei para casa. Os
minutos davam-me a impressão de horas e estas de dias. Na hora do almoço ele me
telefonou, mas ao atender ouvi uma espécie de som abafado, tive a sensação de
escutar o barulho de algo caindo e houve uma mudez total do outro lado. Tentei
me comunicar com Riggs diversas vezes, mas o som era de ocupado. Entrei em
pânico. Não sabia o que fazer, como agir, a quem avisar, já que ele não havia
me dado nenhum tipo de contato que não o seu celular. Intimamente sabia haver
algo errado com ele e em meu coração sentia ter de fazer alguma coisa. Resolvi,
então, ir até o trailer. Parei o carro na praia, quase a 1 km de distância e
fui andando, como quem está simplesmente caminhando sem objetivo algum,
admirando o mar. Antes de me aproximar efetivamente decidi telefonar para a
polícia e pedir auxílio sem, no entanto, dizer meu nome. Fiz uma espécie de
denúncia anônima de uma briga em um trailer, dando o local exato. Depois fui me
aproximando com cautela, olhando em sua direção como uma pessoa curiosa. De
repente, sei lá porque, me coloquei atrás de uma pedra, curiosamente a mesma onde
costumávamos ficar conversando. Nesse momento vi sair do trailer quatro homens,
dois dos quais seguravam Riggs, e Toby logo atrás deles, amordaçado e preso
numa coleira, puxado por um quinto homem.
Sentia
meu coração quase a sair pela boca enquanto observava o esforço de Riggs para
tentar se desvencilhar dos monstros, porque para mim não passavam disso, que o
seguravam. Ele se debatia, xingava, dava ponta pés que ficavam apenas no ar.
Quando o forçaram a ficar de joelhos, ele foi colocado de forma que ficava de
frente para mim e observei que seu rosto estava sangrando. Não conseguia escutar o que eles falavam, mas
pude ver claramente quando Riggs encarou um deles com ódio e pavor. Em seguida
colocaram Toby bem na sua frente e, sem a menor piedade, deram-lhe um tiro na
cabeça. O sangue espirrou em cima de Riggs, que se deixou cair de cabeça na
areia. Chorei com ele, porque Toby era a sua família, seu maior companheiro.
Toby parecia compreender até mesmo um olhar, um pequeno gesto, um movimento que
parecesse estranho ele logo chamava a atenção de Riggs. Havia uma verdadeira
cumplicidade e compreensão entre os dois. E enquanto Riggs dormia, ele ficava
do lado, atento, zelando pelo seu dono e amigo. Por isso sabia o quanto o homem
que amava estava sofrendo naquele momento. Entretanto não lhe deixaram espaço
para a dor emocional, pois logo em seguida o cravaram de socos, murros, ponta
pés, joelhadas; puxavam-lhe os cabelos e acho que lhe faziam alguma pergunta da
qual não obtinham resposta, porque logo voltavam a bater.
Depois
pegaram um martelo batendo em seus pés. A essa altura Riggs berrava e falava um
monte de coisas que não conseguia compreender, mas que enfureciam ainda mais o
cabeça daquele grupo de seres frios, sanguinários, sem um mínimo de sentimento.
E eu me desesperava a cada segundo. Tornei a telefonar para a polícia. Agora
conseguia compreender o medo que ele tinha de assumir uma vida a dois. No
entanto desejei ainda mais estar a seu lado e cuidar dele. Riggs, então, era
sangue para todos os lados e já não possuía mais forças. Arrastaram ele até à
beira mar e o soltaram de rosto para baixo para
que se afogasse. Nesse instante a polícia chegou e foi um tiroteio só.
Vi o esforço do Riggs para virar de frente e se arrastar devagarinho para fora
do alcance das águas. Foi então que, sem pensar, agachada, corri em sua direção
e consegui, num esforço quase sobre-humano, puxá-lo o mais possível para fora
do alcance das balas, atrás da nossa pedra. Seu corpo pesava, ele não possuía a
menor força, porém estava consciente. Olhou-me com os olhos vermelhos e
sussurrou para que eu o deixasse e fosse embora. As dores o faziam tremer e,
mesmo meio que semimorto, se preocupava comigo. Como poderia deixá-lo ali, sem
saber o que aconteceria, como as coisas se desenrolariam e o que fariam com
ele? Claro que ignorei seu pedido, jamais o deixaria ali naquele estado, mesmo
que tivesse que morrer com ele.
Vendo
que não o deixaria, Riggs, com muita dificuldade, pediu-me o celular e, com as
mãos trêmulas, ligou para um tal de Gustavo, pedindo a ele que avisasse a um
tal de James que “os caras” estavam na sua mira, em conflito com policiais e
que ele estava bastante ferido, precisando de ajuda. Riggs gemia e de repente
vomitou sangue. Fiquei assustada. Pensei que morreria em meus braços. No
entanto, ele era forte e não perdeu totalmente os sentidos. Em menos de meia
hora um grupo de homens à paisana se unia aos policiais ali presentes, cercando
“os caras”, que, sem saída, se renderam. Em seguida, o tal de James se
aproximou de Riggs dando sinal para que três homens de branco, um médico e dois
enfermeiros o socorressem. Ele urrou ao ser colocado na maca. Olhou em minha
direção e fitou fixamente o tal do James que, compreendendo o que não
compreendi, pediu que os acompanhassem. Fomos de helicóptero até o hospital.
Fiquei atenta aos menores detalhes e percebi que o médico, Dr. Almir, olhava
com ar de preocupação para o Sr. James. O estado do Riggs não era nada bom.
Chegando ao hospital Riggs foi levado
imediatamente à sala de cirurgia. O tempo não passava. Oito horas e meia de
angústia. Junto comigo estava o Sr. James que, a princípio, não parava de me
olhar sem me dirigir a palavra, mas com o passar do tempo e vendo que toda
hora eu levantava, andando inquieta,
feito uma barata tonta, cortou o silêncio existente entre nós.
- Você é amiga do Riggs?
- Sou. Amiga... Namorada.
- Então é você a Lara; pra quem ele pediu proteção.
- Não sabia disso.
- Ele me falou de você. Disse ter encontrado a felicidade.
- Fico surpresa dele ter dito isso. Riggs é uma pessoa
emocionalmente dividida. – Fitei-o firmemente nos olhos. – Desculpa, mas você
tem família? Não há problema em relação a isso?
- Tenho. Sem problemas em relação ao trabalho, se é o que
quer saber. Nossas famílias são protegidas. Às vezes a gente pode ter que se
afastar temporariamente, mas tudo se acomoda no final. Como em qualquer
profissão, há suas vantagens e desvantagens.
- Parece que Riggs só vê desvantagem.
- Ele tem seus motivos. Eu entendo. Sofreu muito com a perda
da mulher. E dos nossos, por ser o melhor, também é o mais exposto, o mais
vulnerável. Você viu hoje.
- Porque não o protegem mais?
- Não é possível fazer mais. Riggs é quem se mete no meio
dos lobos, se é que me entende.
- Claro. E agora ele está numa sala de cirurgia, correndo
risco de vida! E o máximo que você pode dizer é que ele é o melhor dentre
vocês, mas que nem por isso conseguem proteger realmente a vida dele.
- Está nos culpando, Lara?
- Não. É apenas uma constatação.
- Todos sabemos os riscos que enfrentamos. Fizemos nossa
escolha.
Olhei
para James e não pude deixar de observar sua sinceridade. Riggs mesmo por
várias vezes me disse que embora não tenha tido opção, amava o que fazia.
Fiquei calada. Minha preocupação era imensa para eu ficar de conversa com quem
quer que fosse, até porque jamais conseguiria compreender uma opção de vida tão
perigosa.
Quando
o médico saiu do centro cirúrgico, disse que Riggs havia quebrado não só ossos
dos pés, mas 5 costelas, tíbia, deslocou o ombro esquerdo, teve uma ruptura nos
intestinos e estava com inflamação aguda no pulmão direito. A cirurgia havia
sido um sucesso, entretanto seu estado requeria bastante cuidado dado seu
quadro clínico ser bastante delicado. Ele havia sido levado para a UTI.
Depois
que ele nos colocou a par do estado do Riggs, perguntei se podia vê-lo. Dr.
Almir nos olhou por instantes e perguntou se éramos da família. Respondi
rapidamente, sem pensar, antes que James falasse alguma coisa, que eu era sua
mulher e único parente dele. Diante da minha declaração, ele permitiu que o
visse e me conduziu até Riggs. Ao vê-lo senti um arrepio a percorrer meu corpo
e me controlei para não chorar. Ele estava cheio de fios, ligado à aparelhos e
respirando com o auxílio de oxigênio. Estava consciente e, ao me ver, uma
lágrima rolou do canto dos seus olhos. Ele tentou me dizer alguma coisa, mas
não permiti que fizesse esforços. Após um instante observei seu corpo enrijecer
e Riggs soltar um gemido fraco. Perguntei-lhe se estava com dor, mas que me
respondesse afirmativamente piscando duas vezes seguidas, ao que ele reagiu
prontamente confirmando estar com dor. Chamei a enfermeira e a coloquei a par
da situação. Minutos depois ela voltou colocando medicamento no soro e
solicitou a minha saída do recinto. Saí com o coração apertado de deixá-lo,
todavia não fui para casa, permaneci no hospital até o dia seguinte. O estado
clínico dele continuou estável. Fui para casa um pouquinho antes do almoço.
Estava exausta. Não consegui trabalhar. Na verdade pedi minhas férias e fiquei
o máximo possível ao lado de Riggs. E depois que ele foi para o quarto
permaneci ao seu lado dia após dia, noite após noite.
Quando
no quarto, ele me pediu que fosse embora muitas vezes, que não me queria ali,
mas sua boca falava o contrário dos seus olhos, que sempre me procuravam ao
acordar. Seu olhar era revelador para mim, por mais que tentasse se esconder.
Após alguns dias, vendo que realmente não o deixaria sozinho, depois de fazer
uma punção no pulmão, momento que o fez gemer e chorar como uma criança, Riggs,
olhando para mim, ainda com os olhos vermelhos e cansado, disse-me baixinho:
- Sabe, devo admitir... é muito bom você aqui, nessas horas.
É bom olhar e sentir que existe alguém que se importa, que chora junto, que dá
a mão. Já não me lembrava mais de como era.
Riggs
falava com tanta emoção e sinceridade que fiquei engasgada, queria dizer alguma
coisa, mas não consegui, então expressei meu amor, minha compreensão, passando
a mão carinhosamente em seus cabelos e beijando-lhe os lábios com ternura. Ele,
que mesmo na dor insuportável, chorando como um menino, mantinha uma certa
expressão de fortaleza, desabou diante dos meus olhos. Tive a impressão de que
ele colocava para fora uma dor de muitos anos, uma dor tão retida que, pelo que
soube por James, levou-o a atitudes que permitiu que o julgassem por muitos
anos um suicida em potencial e, depois, um homem durão, de uma coragem feroz e
fria, capaz de eliminar um bandido sem peso algum na consciência. Talvez por
isso ninguém se preocupasse realmente com seu emocional. James mesmo, quando o
visitava, só falava de forma dura, fria com ele, contando fatos ocorridos com
detalhes tão cruz que me arrepiava de ouvir, sem se quer se dar conta da
fragilidade do momento do Riggs. Nenhum dos seus companheiros o poupava.
Parecia que todos o viam como um homem inabalável, frio até consigo mesmo, meio
insensível.
Eu não
via o Riggs que eles viam, porque não olhava para a aparência, eu o sentia. Ele
tinha uma sensibilidade tão grande e sofria tanto com a dureza da vida que
acabou se protegendo numa capa de insensibilidade e coragem que passava uma
imagem irreal. Pude verificar algumas vezes o quanto Riggs se protegia atrás do
homem forte quando, ao receber uma visita se esforçava para demonstrar uma
fisionomia relaxada, forte, e, assim que a pessoa se retirava, respirava fundo,
gemia, me admitia estar com muita dor. Creio ter sido essa a forma que encontrou
de sobreviver em uma profissão tão repleta de asperezas e crueldades. Como ele
mesmo me disse uma vez, a vida de um investigador, de um policial era um
inferno.
Semanas
se passaram e ele teve alta. Não permiti que ficasse em seu trailer, sozinho. Não
havia como ele se virar, ainda estava fraco, não conseguia pisar, seus pés
permaneciam engessados e sua perna também. Ainda sentia bastante as costelas e
tinha limitações com o braço cujo ombro foi deslocado. Doutor Almir havia sido
bem claro, lhe daria alta, mas era necessário que ele permanecesse em repouso e
fizesse fisioterapia. Riggs relutou bastante a idéia de ficar em meu
apartamento. Na sua opinião, estava me expondo ao perigo, coisa que não
admitia. Nesse porém, até que James foi sensato e me ajudou.
- Aí, parceiro, Lara tem razão. Você não pode ficar sozinho
dessa forma, todo chumbado. E, ó, não me leva a mal não, tá, mas você não devia
morar numa coisa daquela. É vulnerabilidade demais, cara! Uma casa de verdade é
sempre mais seguro; até para que possamos lhe proteger é mais fácil.
Ante os argumentos Riggs cedeu. Não
havia como argumentar face a realidade. Ele pode ser turrão mas não é burro. Aliás,
no fundo percebi que ele vivia com medo, sob tensão, esperando sempre que algo
acontecesse. Entendo que na profissão dele haja mesmo uma certa paranóia
normal, mas para mim o Riggs não conseguia relaxar mesmo em segurança. Estava
sempre atento a tudo e a cada pessoa que se aproximasse. Nenhum detalhe lhe passava
desapercebido.
Estar ao seu lado era uma diversão,
porque apesar da tensão e da observação constante, ele era bem humorado e fazia
piada com tudo. Algumas vezes dava a impressão de não se levar a sério; um
jeito de minimizar a tensão. E foi bom ter acumulado férias de dois anos, pude
ficar em casa mais tempo e me dedicar a ele. Conversamos muito e, muitas vezes,
quando saia por qualquer necessidade, encontrava-o olhando o céu, o olhar
distante, meio triste. Não falava nada. Ficava observando e depois o abraçava.
Geralmente ele retribuía com um sorriso e me dava um beijo. Numa das últimas
vezes que o encontrei distante, ele me puxou para seu colo, sentando-me em suas
pernas, alisou meu rosto, me olhou nos olhos e disse, sério:
- Lara... Promete. – Tornou a acariciar meu rosto. – Promete
que não vai sumir, sair da minha vida como um vento.
- Que besteira, Riggs! É claro que não vou deixar você.
Porque isso agora?
- Não sei... É... Não gosto do aperto que estou sentindo no
peito. Um vazio. Sei lá! Loucura!... Deixa pra lá.
- Você precisa esquecer o passado. Ele não permite que você
esteja integralmente no presente. E sufoca.
Riggs
me abraçou forte, deu uma guinada com a cabeça como se espantasse uma mosca e
começou a cantar, fazendo palhaçada. Embora a fuga fosse evidente resolvi
entrar na pilha dele para que relaxasse. Em pouco tempo ele pareceu estar bem.
É
impressionante como quando a gente está feliz o tempo passa mais rápido. Quando
me dei conta, Riggs já estava totalmente restabelecido e me informava que
voltaria ao trabalho. Era tal qual um menino que sai do castigo e volta a
brincar na rua. Deu-me um beijo esfuziante e me rodopiou pela casa. Havia
chegado do trabalho e sequer pude trocar de roupa, tal era a sua satisfação.
Apesar de viver em tensão e de não ter sido um trabalho de escolha totalmente
consciente, ele realmente aprendera a amar o que fazia, isso era inegável. No
dia seguinte Riggs voltou tarde e bastante cansado, mas feliz. Depois do
jantar, ele me sentou em suas pernas e, cheio de carinhos, disse que dali para
frente seríamos um casal. Em seguida tirou do bolso uma caixinha de joia e
colocou em minha mão. Abri. Seus olhos brilhavam. Havia duas alianças. Dei-lhe
um beijo e Riggs colocou o anel em meu dedo. Fiz o mesmo. Após, ele se levantou
comigo em seus braços e fomos para o quarto. Esquecemos da hora e que no dia
seguinte teríamos de trabalhar. Éramos um sob o lençol. Seu cheiro me
entorpecia e me sentia nas nuvens. Tomar banho era um enorme prazer para nós
dois. Como era gostoso sentir suas nádegas molhadas em minhas mãos e sua língua
em meus mamilos sob a água quente. Nossa felicidade era tanta que não sentimos
o dia clarear. O despertador foi que nos desceu à realidade.
O dia
passou lento. A ansiedade de estarmos juntos fez com que nos comunicássemos
várias vezes durante o dia. A noite, quando nos encontramos para irmos juntos
para casa, lançamo-nos um nos braços do outro como se não nos víssemos há dias.
Tudo era muito intenso entre nós. Vivíamos em estado de sofreguidão mútua.
Tínhamos um relacionamento voraz. Meses depois começamos a planejar nossa vida
de forma mais tranquila, desejávamos ter um filho. Estávamos realmente felizes.
Numa
noite, pouco antes de jantarmos, por sinal dia de folga do Riggs, e dia em que
ele era quem dava um jeitinho na casa e preparava o jantar, que quase sempre
era o mesmo prato, uma lasanha de bacalhau que ele aprendeu a fazer com a
esposa do Roger, seu ex-parceiro e melhor amigo, James apareceu para falar com
Riggs. Logo que entrou percebi tensão em seus olhos, seus movimentos. Algo
dentro de mim me dizia que aquela visita não seria comum, como as outras, minha
intuição fez-me sentir um friozinho na barriga. Depois de um certo lero-lero,
James olhou sério para Riggs.
- Desembucha, cara! – Riggs falou com a testa meio franzida.
- Tenho duas bombas pra você. Não queria ser eu a te falar,
mas...
- Fala logo. Vai direto ao ponto porque preparação só dá nos
nervos.
- Lembra do Paulo Sondrim? Aquele empresário, político, que
você desmascarou e colocou atrás das grades? Pois é, o cara fugiu. E você sabe
o que isso significa.
- Com certeza ele vem atrás de mim com chumbo grosso.
- Até pegarmos ele de novo, e vamos pegar, terá que manter a
respiração em suspenso. Todo cuidado é pouco. O cara é pra lá de perigoso e
frio. Você sabe!
- Estou com a cabeça a prêmio. Isso não me incomodaria se
não colocasse Lara em risco também, James.
- Já montamos um esquema de segurança pra vocês. Mas você,
Riggs, não pode sequer pensar em dar bobeira; é melhor sair sempre em parceria
com o Marcos, pelo menos até colocarmos a mão no vagabundo de novo.
- E a Lara?
- Vai ter um segurança dos nossos sempre com ela. – James
levantou, coçou a cabeça, deu uma volta como se estivesse descansando da
posição, tornou a olhar para Riggs e disse com a voz meio embargada: - Não
queria ser eu a lhe dar essa notícia, mas... – Ele meneou a cabeça, com ar
chateado, e Riggs pediu que ele falasse logo porque estava ficando nervoso.
- É o Roger, cara! Ele teve uma parada cárdica... Não houve
muito o que fazer.
- Pera aí, cara, não pode ser, falei com ele anteontem,
estava tudo bem; ele até gozou com a minha cara como fazia quando a gente era
parceiro. Riggs levantou, me olhou, foi à janela, voltou, parecia um cão
enjaulado e perdido. Ele me olhou visivelmente aturdido e me aproximei dele,
abraçando-o.
- Sinto muito, amigo. Mesmo.
- Quando foi.
- Essa madrugada. A Trish me ligou pedindo pra falar com
você.
- Vou pegar o primeiro avião e vou lá.
- Sabe que não pode fazer isso. Não na atual circunstância.
- Roger foi um pai pra mim e a Trish uma mãe, não posso
deixar de ir... – A voz do Riggs estava trêmula, engasgada. – De certa forma
são minha família e eu sei que minha presença fará bem a Trish. Ninguém pode me
impedir, James.
- Você vai nos colocar numa posição diplomaticamente difícil
de proteger você... e Lara. A Trish conhece bem essas coisas e vai compreender
sua ausência, até porque já lhe expus mais ou menos a situação em que você se
encontra.
- Ela pode compreender, mas eu não vou me perdoar.
- Amor, pelo amor de Deus, montaram uma estratégia para
protegerem você desse bandido que fugiu e você quer dificultar todo esse plano,
colocar sua vida em risco!? Sou obrigada a concordar com James. A Trish, com
certeza não aprovaria a sua atitude. Roger, mesmo, se zangaria com você. Seja
razoável, espera a coisa entrar nos eixos, esse homem ser pego e, aí sim, vai
prestar a sua homenagem ao Roger. Garanto que, onde quer que esteja, ele
aprovará isso.
Riggs
olhou para mim e para o James, deu um grito e saiu porta a fora. Fitei James e,
nervosa, pedi-lhe que fosse atrás dele. No entanto, nosso amigo achou melhor
que o respeitássemos e o deixássemos a sós. É claro que compreendia essa
necessidade do Riggs, todavia, no meu coração, ele não poderia ficar só no
estado em que estava, correndo o risco que corria.
A noite
passou lenta e Riggs não voltou para casa. Mesmo contra a vontade de James
resolvi ir atrás dele, tinha quase certeza de que o encontraria no trailer. Não
estava errada. Encontrei-o sem camisa, descabelado, os olhos ainda bem
avermelhados, fumando, deitado, o olhar vago, perdido no teto, sem nada ver.
Entrei devagar e deitei ao seu lado. Ele não se moveu, como se não me
percebesse. Deitei em seu ombro e abracei seu corpo. Parece que esse gesto o
trouxe de volta, de algum lugar que não sei onde se escondia, um lugar de dor, só
dele, no recôndito do seu ser. Riggs deu um fundo suspiro e chorou de soluçar.
Afaguei-lhe em meu colo, em silêncio, respeitando seu momento, dando-lhe, em
gestos de carinho, meu amor, minha compreensão.
Depois de um tempo ele levantou e pegou
uma lata de cerveja na geladeira. Riggs não bebia há muitos meses. Em seguida,
sem me olhar nos olhos, disse que daria uma volta.
- Espera, Riggs, não faz isso. Aqui você é um alvo fácil.
Vamos voltar! Eu sei que o trailer representa muito pra você, mas por favor,
pensa em nós dois. Não suportarei se alguma coisa acontecer a você.
Ele
então me puxou e me abraçou de uma forma tão terna que me comoveu.
- Não vou fazer isso com você. É que eu precisava estar
aqui. Parece sem sentido, mas não é. Estar aqui de alguma forma me reconecta a
mim mesmo por inteiro. Não sei explicar. Aqui, eu e o Roger... A gente riu
muito, fizemos planos, e ele ouviu meus desabafos.
- Você não se sente inteiro comigo? O apartamento te deixa
dividido?
- Não é isso, amor. É que há uma vida aqui dentro. Sei lá!
De alguma forma estar aqui me liga ao Roger. Passamos por muita coisa juntos,
alegrias e dificuldades. – Ele pegou outra lata de cerveja e eu a tirei das
suas mãos.
- Beber não vai trazer Roger de volta. Pode parecer que a
dor fica menor, mas não é real, é ilusão. Esconder a dor só piora as coisas;
aumenta a sensação de insegurança. Fugir de si mesmo é se perder nos labirintos
da emoção. É covardia e não é nada saudável.
Riggs
sorriu, me deu um beijo e juntos voltamos para casa. Havia muita tensão no ar.
Riggs não relaxava. Onde quer que fossemos havia gente nos vigiando, os
seguranças, mas por outro lado sentíamos o desconforto de sabermos que também
havia olhares na espreita de uma brecha para dar o bote em Riggs. Vivíamos em
sobressalto. Mas apesar da tensão,
Riggs não se rendia, procurando levar a vida o mais normalmente possível. Num
dia de quarta-feira ele recebeu um telefonema de James. Ouviu calado e, depois,
virou para mim, sério, e, me abraçando, disse que iria dar a cabeça aos lobos e
que os pegaria. Fiquei atônita, nervosa.
- Como assim, amor, dar a cabeça aos lobos? O que isso
significa literalmente?
- Serei colocado num lugar ao alcance fácil deles. Uma isca.
Vai dar tudo certo, não se preocupe.
- Como se isso fosse realmente fácil.
- Olha, Lara, não vou enganar você. É uma faca de dois
gumes. Mas a vida é um risco.
Riggs
comeu alguma coisa e saiu. Para o departamento em que ele trabalhava tudo
estava bem esquematizado, eles só não contaram com o fato de que apesar de
todos os cuidados e detalhes organizados o lobão poderia ser ainda mais sagaz,
farejar algo no ar, e dar o bote às avessas. Foi o que aconteceu. Segundos após
Riggs sair a campainha tocou e eu pensei que fosse ele voltando, talvez tivesse esquecido alguma coisa, e abri a
porta. Nem a tinha aberto inteiramente quando a empurraram e dois homens
mal-encarados entraram me informando que daríamos uma voltinha. Gelei e relutei
um pouco, mas logo percebi que me opor veementemente seria pior. Fosse lá como
fosse eu estava numa ferrada e só o que podia fazer era rezar. Meu coração
batia descompassado e desejei estar com Riggs ao meu lado. Descemos pelo
elevador de serviço direto para a garagem, onde, antes de entrar num furgão, me
encapuzaram e me amordaçaram. Durante o trajeto um deles disse que Paulo
Sondrim, o lobão, como o chamo, adoraria o sucesso do plano e a aquisição da
presa, no caso, eu. Meu coração quase saía pela boca e me mantinha em estado de
alerta. E comecei a imaginar o que estariam planejando em relação a Riggs.
O carro parou e fui arrastada para um
lugar que, pelo barulho, me pareceu uma casa, um quarto. Pelas vozes tive a
sensação de serem uns três ou quatro homens ali, comemorando a vitória de terem
conseguido me pegar apesar do esquema de proteção. Após longo tempo, que me pareceu
horas, ouvi a porta onde estava se abrir e passos se aproximarem de mim. Em
seguida uma mão pesada puxou o capuz que cobria minha cabeça e soltou uma
estridente gargalhada. Abaixou bem próximo a mim e, puxando-me os cabelos,
torceu minha cabeça para trás colocando seu rosto bem junto ao meu.
- O que Riggs sentirá ao saber que seu bibelô está em minhas
mãos!? – E soltou uma gargalhada que me levou a um sentimento de ódio tão grande
que lhe cuspi no rosto. Sua reação foi imediata; dando-me uma bofetada tão
forte que meu rosto queimou e, tenho certeza, se pudesse me olhar num espelho
naquela hora certamente veria as marcas vermelhas dos seus dedos em minha pele.
Senti vontade de chorar de dor e de ódio, mas consegui me conter, não daria
esse gostinho a ele, pelo menos enquanto pudesse suportar.
- Agora vamos, moça, teremos um encontro com o seu grande
amor. – Falou em tom de galhofa.
Senti
um arrepio percorrer meu corpo. Sabia o quanto aquele homem era perigoso, mas
não tinha a menor ideia do que ele havia planejado em relação à Riggs e isso me
deixou em pânico.
Fui
colocada, com os olhos vendados, em um veículo. Alguns minutos depois tiraram a
venda dos meus olhos e percebi estar na cidade, não mais em um algum lugar
afastado, um esconderijo. O carro parou quase em frente a um restaurante e o
tal Paulo, o lobão, saiu, não deixando de recomendar que tudo saísse como o
planejado.
Enquanto
Lara estava nervosa e preocupada com Riggs, mantida no veículo a espera das
decisões do Paulo Sondrim e seus capangas, porque não passavam disso, Riggs
estava no restaurante, numa mesa meio reservada, acompanhado do seu parceiro
Marcos, a espera que Sondrim entrasse. James se encontrava em posição
estratégica a fim de pegá-lo tão logo se aproximasse do seu companheiro e
amigo. No entanto ninguém contava com o fato de o dono do estabelecimento ser
informante dele. A falta da checagem dessa informação foi de certa forma
negligenciada pela equipe que trabalhava não só para pegar Sondrim como para
proteger Riggs. O fato é que aquele chegou e se acomodou em sua mesa de forma
calma. Uns minutinhos e ele pegou o celular, ligando para seu oponente na outra
mesa. Estranhando o número desconhecido, Riggs atendeu.
- Não fale nada. Devia saber que ninguém me pega
desprevenido. Se quiser ver sua esposa de novo, não dê um passo em falso.
- Está blefando.
- Você sabe que não. Mas se quer uma prova... – Ele deu o
comando para o carro e colocaram Lara na linha.
- Fale com seu homem, cadelinha, e peça que venha em seu
socorro.
- Riggs!
- Lara!
- Socorro! Pelo amor de Deus, Riggs!
- Lara, como está?
- Apavorada. Tiraram-lhe o telefone e Riggs pode apenas
escutá-la lhe chamando e gritando um não.
Cortaram
a comunicação entre os dois e Sondrim pegou o comando da situação.
- Não tente nada, Riggs. Tudo que fizer contra mim recairá
sobre ela. E eu sei que não gostaria que um acidente lhe acontecesse ou um
assalto violento que o levasse ao necrotério para identificar o corpo dessa sua
linda mulher.
- Ela não tem culpa de nada; se quer a mim, solte-a.
- Acha mesmo que faria isso? – Soltou uma gargalhada
sarcástica. – Se a quer sem um único arranhão terá que fazer tudo o que eu
mandar e se render a mim, começando por se livrar do seu parceiro, e agora. Mas
nem uma palavra a ele. Não esquece que está sendo observado. – E desligou.
Riggs
tentava disfarçar o transtorno íntimo, mas visível para quem o conhecia mais
intimamente, como James. Tentando manter o controle e não dá bandeira, pediu
que Marcos se retirasse da mesa dizendo apenas que o plano mudara. Este ainda
tentou entender o que realmente estava acontecendo mas, percebendo que o colega
não falaria nada, se retirou. James, que se mantinha disfarçado, em um canto,
observando, percebeu que algo havia saído do controle, que de alguma forma
Sondrim soubera que pretendiam pegá-lo ali e, calcado na experiência, logo concluiu
que Davis Martinez, dono do estabelecimento tinha alguma ligação com ele e que
o avisara, já que além do seu pessoal apenas Davis sabia que Riggs estaria ali
com essa finalidade.
Ele se
sentia culpado pelo que estava acontecendo, visto não ter ido mais a fundo na
ficha de Davis, ter confiado numa primeira verificação de seu passado, de sua
idoneidade moral. E ante a falha, tratou logo de pedir checagem minuciosa de
toda a vida de Davis.
Tão
logo Marcos se retirou, Sondrim tornou a entrar em contato. Dizendo saber estar
sendo observado, disse para que Riggs saísse do restaurante e se dirigisse para
a praça quase em frente ao estabelecimento. Concordando, ele pediu a conta
normalmente e, num código compreendido apenas por James, revelou estar em
perigo. Depois, colocando um dos dedos sutilmente sobre a aliança, deu a
entender que também Lara corria perigo. Levantou e caminhou com calma aparente
em direção à praça. No caminho dois homens se posicionaram a seu lado sem que
fosse dito uma única palavra. Quando iam passar por um escorrega um deles
mandou que ele parasse.
- Onde está Lara?
Não houve resposta. Pouco depois ele
escutou uma voz por trás de seu ombro.
- Você vai escorregar bonitinho e sumir, tragado por areia
movediça.
- Onde está Lara? Perguntou de novo, pausadamente.
Sem que
lhe dessem tempo de respirar, o jogaram para dentro de um furgão, encapuzando-o
e imobilizando suas mãos para trás. Lara assistira a tudo do outro lado da rua,
aterrorizada. Em seguida lhe vendaram os olhos, deitando-a entre os bancos do
carro. Pouco mais de duas horas mais tarde ambos forram retirados dos veículos
e levados para uma casa no meio da estrada; um lugar ermo, perdido numa
planície e cercado de vegetação. Dentro havia apenas dois quartos, uma
saletinha e um banheiro. Ambos foram colocados no mesmo ambiente. Soltaram-lhes
as mãos e retiraram o capuz de cada um. Estavam frente a frente, cada qual numa
extremidade do pequeno recinto. Lara o olhou com lágrimas nos olhos e Riggs lhe
pediu desculpas.
- Desculpar o que? Não é culpa sua. – Olhou para Sondrim,
que sorria com ar vitorioso e zombeteiro. – Que culpa você tem pelas atitudes
de um louco!?
Sondrim
puxou-lhe a cabeça pelos cabelos e, olhando para Riggs, perguntou-lhe se Lara
era burra, dando-lhe um bofetão em seguida, o que levou Riggs a uma tentativa
de reação cerceada pelos dois homens que se mantinham cada qual a seu lado.
Lara gemeu, mas prendeu o choro fulminando-o de ódio, com o olhar.
- É melhor que pensem aí, sozinhos. Um dos dois verá o outro
morrer ante de ir para o inferno. – E saiu com os capangas às gargalhadas.
- Lara, machucou muito?
- Não é o mais importante agora, amor. Há como a gente sair
daqui?
- Não creio. Preciso pensar.
- James não pode fazer nada?
- Sinceramente não sei. O plano foi abortado; não tive nem
tempo nem como fazer alguma coisa que pudesse ajudar.
- Espero que ele pense em uma saída pra nos tirar daqui, e
rápido, porque esse cara é um psicótico.
- Não sei o que posso fazer. Sei apenas que não posso
confiar em nada que esse cara diz. E você procura não perder a cabeça como
ainda agora. Sondrim pode ser mais imprevisível do que supomos. – E abraçou
Lara com ternura.
- Estou apavorada, Riggs.
- Estava certo quando dizia ser melhor não estarmos tão
juntos, termos uma relação séria. Sempre disse que estar comigo era estar em
risco.
- Isso poderia acontecer com qualquer um no seu trabalho.
James, Phil, Marcos e tantos outros tem vida praticamente normal. Aconteceu com
você porque foi quem o prendeu. Uma vingança. E pelo que percebi ele faz isso
com qualquer um que atravesse seu caminho.
Riggs e
Lara permaneciam em alerta o tempo todo. Nenhum barulho lhes passava
despercebido. A noite passou para eles lenta demais. Cada minuto era uma
eternidade. Veio o dia e com ele o tormento dos dois aumentou. Sondrim resolveu
torturar Riggs emocional e fisicamente primeiro antes de matá-lo. Para isso
tinha seu trunfo: Lara. Esse era o ponto fraco do seu oponente e ele se regozijava
de não só tê-lo pego como poder fazê-lo entender ser ele mais forte e mais
poderoso. A manhã começou com Sondrim levando café e pão para os dois.
Aparentemente de forma normal. Após uma hora voltou com três capangas e mandou
amarras os punhos de Riggs para cima, preso a uma estaca de madeira que
atravessava o quarto, colocada estrategicamente ali. Depois deu ordens para
acoitá-lo com um cano de borracha de mangueira grossa picotada em mais de dez tiras.
Riggs tremia a cada chicotada, tentando segurar os gritos que lhe vinham à
garganta; enquanto Lara pedia, implorava, aos prantos que parassem.
Após
quase trinta minutos Riggs não aguentou mais e soltou um grito pavoroso de dor.
Sondrim então se regozijou e ria, satisfeito. Sua frieza era assustadora,
sádica. Riggs, aos berros, xingava, e tinha já a pele aberta em múltiplos e
profundos sulcos ensanguentados. Lara tentou avançar em Sondrim com ódio mortal
no olhar e foi impedida por outro capanga. Em seguida, Sondrim mandou que
açoitassem também as solas dos pés. Depois resolveu deixar Rigggs respirar um
pouco torturando-o emocionalmente através de Lara.
Sentaram-no
no chão, com as pernas presas por algemas e as mãos amarradas para trás,
puseram Lara diante dele e abusaram dela diante dos seus olhos. Lara gritava
feito louca, chamava Sondrim de monstro cruel e disse que ele morreria da pior
forma possível. Seu choro de dor e desespero levou Riggs a desabar diante do
homem que mais odiava. Chorou pela mulher que amava e de raiva por não poder
fazer absolutamente nada por ela, não conseguir protegê-la.
- Vocês podem me estuprar, mas não vão conseguir gozar,
porque pra isso dependem de mim e eu não vou deixar, não vou deixar; nesse caso
o poder é meu! Lara gritou olhando fixamente nos olhos de Sondrim, mostrando
poder sobre ele, o que o levou a um estado de raiva incontida, o que o levou a
uma relação anal forçada com Lara.
Sondrim,
após deixar Lara em pranto estirada no chão também a forçou vê-lo fazer o mesmo
com Riggs. Ambos estavam destroçados emocionalmente.
Enquanto
os dois eram torturados e humilhados, James conseguira rastrear o local para
onde Riggs fora levado graças ao micro rastreador colocado no seu tênis. Era
preciso ser rápido, porém cauteloso e com uma estratégia muito bem montada para
não haver enganos, porque agora mais que nunca duas vidas estavam em jogo.
Após a
tortura sexual impingida a ambos, Riggs fora colocado de novo pendurado pelos
punhos, molhado e torturado com choques elétricos que o levaram ao desmaio. E como Riggs estava num estado que não
respondia a nenhum estímulo de dor, Sondrim deu ordens que o soltassem,
deixando-o caído ao chão. Voltaria depois, quando recuperasse a consciência e
um pouco das forças. E saiu dizendo que seu prazer não estava completo para matá-lo
de vez.
Vendo-se
a sós com Riggs jogado ao chão, Lara se arrastou para bem perto dele, se
encostando ao seu corpo.
- Riggs, fala comigo. Pelo amor de Deus, amor, diz alguma
coisa, abre os olhos. - Lara o chamava
baixinho, chorando.
Riggs a
olhou sem forças.
- Lara... não estou aguentando. Não sei mais por quanto
tempo vou suportar isso. Estou tentando esperar...
- Esperar... Riggs?
Ele a
olhou de uma forma que não foi preciso dizer mais nada. Lara o envolveu com
ternura e sussurrou um pedido para que ele aguentasse mais um pouco.
- Da próxima vez não sei o que acontece. Não tenho mais
forças.
No fim
da madrugada, quando o sol começava a despontar, Sondrim entrou junto com mais
três capangas, voltaram a amarrar os punhos de Riggs na haste de madeira, porém
desta vez de forma que seus pés não encostassem no chão, e também colocaram
Lara com os punhos amarrados no mesmo lugar, de frente para Riggs e bem próxima
a ele. Ambos se olharam sem nada dizer; sabiam que seriam torturados unicamente
para prazer do algoz sádico.
Lara
viu que iam açoitar Riggs com uma corda repleta de farpas e desatou a implorar
que não o torturassem mais, e em seguida, tomada de ódio, sentenciou que todos
ali eram iguais aos torturadores sádicos medievais ou piores que Hitler. Sondrim
deu uma gargalhada olhando com desdém para Lara e, sem palavras, num movimento
de cabeça, ordenou o suplício. Os primeiros golpes tiraram berros de Riggs, que
chorava e xingava. Ao mesmo tempo, para que ele visse bem de perto, deram com
palmatória nas nádegas de Lara.
O
sofrimento deles levou Lara a pedir que os matassem de uma vez. A cabeça de
Riggs pendia e dele se ouvia pequenos gemidos, embora as lágrimas fossem
torrenciais, e Lara sentia-se a desfalecer. Foi nesse momento que a porta abriu
num estrondo e James com outros integrantes da sua equipe adentraram o quarto
executando de uma só rajada os três homens e Sondrim. Enquanto a equipe cuidava
de retirar os corpos do local e prender os dois bandidos que foram rendidos,
James e Marcos se preocupavam em socorrer Riggs e Lara, que foram colocados
numa ambulância e transportados para o hospital.
O
estado de Riggs era muito mais delicado porque ele tinha sangramentos por todo
o corpo e, ao que indicava, havia também sangramentos internos que precisavam
ser avaliados com urgência, porque ele estava com dificuldade para respirar. Tanto ele quanto Lara estavam bem feridos,
tanto fisicamente quanto psicologicamente; embora no aspecto físico Riggs
estivesse mil vezes pior. Contudo, por
terem compartilhado uma experiência trágica e limítrofe juntos, a ligação entre
eles se estreitou de tal forma que um se importava mais com o outro enquanto
eram socorridos.
Riggs
ficou internado muito tempo. Os ferimentos eram profundos, até seu pênis fora
esfolado e os curativos o enlouqueciam. Lara ficou internada apenas alguns
poucos dias e, depois, passou a fazer companhia a Riggs, que sempre lhe
segurava a mão nos piores momentos. Paralelamente ambos estavam sendo
assistidos psicologicamente.
Lara
entendia melhor os receios iniciais de Riggs, mas justamente por conhecer os
perigos da sua profissão agora de forma bem clara, decidira definitivamente
nunca mais se afastar dele. Riggs, por
sua vez, reconhecia a força de Lara; e que seu amor por ele era incontestável. Ao
mesmo tempo que isso o deixava feliz, seguro, também se assustava de que
pudessem passar por outro episódio semelhante e do pavor que sentiria se ela
morresse diante dos seus olhos. Era o fantasma da perda que sempre o
acompanhava e que lhe havia travado muito em relacionamentos profundos durante
a vida. Entretanto agora, apesar da presença do medo, ele tinha consciência do
quanto Lara significava em sua vida, do quanto a amava, e não queria acabar com
a relação; não poderia ficar longe dela. Desde que a conhecera ela se mostrara
companheira, compreensiva, mas não imaginara que enfrentasse Sondrim olho no
olho como fez, na tentativa de fazê-lo parar um pouco, na esperança de dar
tempo para que James os encontrasse. Fora corajosa como jamais supusera. Isso o
levou a admirá-la ainda mais.
Ambos procuravam não tocar no que lhes
acontecera. Era uma trava para eles. Na verdade uma espécie de proteção
emocional. E durante todo o processo que recuperação do Riggs os dois se
restringiam a fazer planos de construir um lar, queriam ter filhos, faziam
planos de como organizariam a vida, arrumariam a casa para os filhos
planejados. Riggs decidira que compraria uma casa e que Lara devia manter o
apartamento, provavelmente poderiam ter uma renda a mais e abririam uma
poupança para o futuro dos quatro filhos que pretendiam ter. Nesse clima os
dias no hospital ficaram um pouco mais suaves.
Entretanto, dias antes de receber alta,
Lara foi chamada para uma conversa com o médico e James.
- Senta, Lara, queremos conversar com você. – Disse James.
- Oh!, meu Deus, com esse ar de preocupação boa coisa não é.
Alguma complicação com Riggs?
- Não, Lara. Complicação não é bem o termo, disse o Dr.
Almir, mas sequelas.
- Sequelas... Ele me parece bem. Um pouco fragilizado, é
natural, mas...
- Lara, mais que ninguém você sabe o quanto ele foi
torturado e que não lhe pouparam nenhuma parte do corpo. O Riggs chegou aqui se
pode dizer que praticamente com todo o corpo em carne viva. Quando o olhei
pensei que as conseqüências fossem ser grandes, principalmente porque as costas
dele estavam em frangalhos. Tanto que ele ainda não possui a mesma força nas
pernas e os movimentos ficarão afetados por um tempo, você sabe. Mas com
fisioterapia ele se recuperará totalmente.
- Tudo bem, mas... conhecendo o Riggs, a gente sabe que não
vai ser fácil ele aceitar bem esse período. Por enquanto ele pensa que as
dificuldades são apenas devido aos ferimentos, mas quando se der conta de que
há uma sequela reversível, mas há, sabemos que a reação não vai ser boa.
- Mas há uma outra coisa. – Lara o olhou interrogativamente.
– Ele ficou estéril.
- Ah, meu Deus, não pode ser! Dr. Almir não me fala uma
coisa dessas. Riggs vai pirar.
- Por isso estamos falando com você, Lara. Pretendemos lhe
dar alta hospitalar, mas tudo vai depender de como vai reagir após conversarmos
com ele e expusermos a realidade.
- Precisamos que esteja ao lado dele. Psicologicamente será
uma força pra ele.
- Quando será isso?
- Na verdade queremos a sua opinião, Lara. – Disse James.
- Eu acho que quanto antes, melhor. – Expôs Dr. Almir.
- Concordo.
- Poderia ser agora?
- A hora que o senhor quiser, Dr.
Os três
se dirigiram para o quarto do Riggs e, vendo-os chegar juntos, intuiu que algo
havia ocorrido e foi logo pedindo que fossem direto ao ponto. Lara se colocou
ao seu lado e ele escutou o Dr. Almir aparentemente calmo, o que, de certa
forma, surpreendeu o médico e o próprio amigo. Lara, porém, sabia que a calma
era aparente e que ele estouraria de alguma forma quando ficassem sozinhos. Não
estava enganada. Mal os dois saíram, ele desabou num pranto de desespero e
revolta que a deixou preocupada. Riggs
não aceitava o fato de não poder sair do hospital andando e, pior, sendo um
homem pela metade; um homem que não lhe poderia dar os filhos que planejaram.
Lara foi abraçá-lo e ele a empurrou. Não queria que o tocasse, não a queria
mais perto dele.
A
princípio Lara tentou conversar com ele, mas percebeu que seria melhor dar-lhe
um tempo. Saiu e ficou no corredor por quase toda a tarde. Eram quase dezoito
horas quando entrou de novo e o encontrou pálido, abatido, com um olhar sem o
menor brilho. Lara tornou a se aproximar e segurou sua mão.
- Vai embora. Não sou homem pra você.
- Olha aqui, Riggs, eu compreendo a sua dor, mas se sentir o
último dos homens não vai ajudar em nada. Eu estou ao seu lado e queira você ou
não ficarei, pelo menos até que recupere integralmente os movimentos das
pernas.
- Isso é balela, mentira. Aquele verme me inutilizou pro
resto da vida.
- Então é isso que está pensando!?... Está enganado; aliás,
mais que enganado, porque é o seu medo, o medo da não recuperação que o está
levando a imaginar que não só o médico, mas eu também, o estou enganando.
- Sai daqui! Me deixa em paz, não preciso da sua piedade! –
Gritou.
Lara
segurou o rosto dele com as mãos obrigando-o a fitá-la.
- Olha pra mim, não seja covarde. Não combina com você.
Estive ao seu lado até agora e não vai ser por causa de uma recuperação mais
demorada, mais trabalhosa que vou lhe dar as costas. A vida é muito maior que
isso e você está se esquecendo de duas coisas importantes: Primeiro, que não
mentiria pra você e não permitiria que o fizessem; e sei que nunca lhe dei
motivos pra pensar o contrário. Nossa relação tem sido de sinceridade.
Esqueceu? Em segundo lugar você está sendo egoísta de não pensar que, ao
contrário de você, existem pessoas que realmente nunca vão alcançar a
recuperação e que nem por isso se consideram mortas pra vida e lutam para
superar a si próprias a cada dia. Para muitas, Riggs, levantar um dedo tem o
sabor de uma enorme batalha ganha, e é. São os vitoriosos anônimos cujo troféu
é a superação de esforço de meses e até anos. Agora quanto ao fato de você não
poder mais gerar filhos, não é o fim do mundo. Nós dois poderemos dar amor e um
lar para crianças que, como você, não possuem família. Pense no quanto pode ser
gratificante impedir que uma criança passe pelo que você passou, sinta a
solidão que você sentiu e que dói até hoje. Eles não serão gerados do seu sêmen,
mas serão frutos do amor, de um sentimento que a muitos foi já negado no ventre
materno. E o nosso amor, não conta? Ele deixou de existir pra você? Porque pra
mim, Riggs, nada mudou. Aliás, numa relação de verdadeiro amor um deve
permanecer ao lado do outro, a menos que o parceiro esteja se matando e
adoecendo a família.
- Você não compreende... – Riggs falou num choro meio
contido.
- Compreendo sim. É por isso que estou sendo dura, tentando
mostrar a realidade a você. Está se sentindo o último dos homens; quando não é.
Na verdade, você teve muita sorte, porque se tivesse havido uma lesão medular
real você não teria mais movimento algum do tórax para baixo. Você está sentindo
todo o seu corpo, há apenas, ainda, falta de controle e força pra realizar os
movimentos, ficar em pé, andar. Você está vivo e em alguns meses terá
totalmente a sua vida de volta. E é isso o que realmente importa.
Riggs
se abraçou com Lara e tremia tanto que ela chamou a enfermeira. Logo Dr. Almir
estava presente e aplicaram-lhe um tranquilizante. Ele dormiu algumas horas e
acordou vendo Lara a seu lado. Ficaram se olhando sem nada dizerem. Após uns
minutos, fitando fixamente o teto, ele rompeu o silêncio.
- Sabe... Estou me sentindo oco por dentro. Não me sinto eu
mesmo. É como... Não consigo definir... Medo. Raiva. Vazio. Me sinto virado do
avesso. Estou em carne viva por dentro e por fora.
- Eu sei. Por isso estou aqui. A sua dor também dói em mim,
Riggs. Compartilhar, amor, é a melhor forma de superar. Se você não lutar, de
alguma forma Sondrim terá ganho de nós dois, mesmo morto.
Riggs
olhou Lara e estendeu a mão.
- Não vou permitir isso. O desgraçado não vai me vencer,
Lara. Me ajuda...
Dias
depois ele voltou para casa e iniciou o tratamento de recuperação. Lara estava
sempre a seu lado. Parara até mesmo de trabalhar temporariamente para não
deixá-lo sozinho. Isso fez bem ao seu emocional, já que apesar de estar de
licença por saúde, mantinha a casa e todas as necessidades de Lara. E
surpreendendo a todos se recuperou totalmente em poucos meses, voltando a
trabalhar. Entretanto, Riggs só ficou realmente bem após resolver finalmente
adotar um menino.
Após a
adoção Lara pediu que ele saísse das ruas, fizesse um trabalho de investigação
interna, mas ele não aceitou; era um homem inquieto, cheio de vitalidade. Lara
então decidiu também voltar ao trabalho. Apesar de todos os perigos, de todo o
sofrimento pelo qual já havia passado devido a profissão, ela percebeu que
Riggs gostava da adrenalina do perigo. Era
como se ele drenasse e cauterizasse diariamente a sua ferida interna. Depois de
perceber esse mecanismo interno, ela pôde compreender de verdade o homem a quem
amava.
Mais
uma fantasia com Mel me dava prazer. Havia me arriscado por amor à Mel/Riggs
como talvez o fizesse na realidade por Mel, se o visse em perigo. Mas a noite
já estava no fim e eu precisava dormir para viver a realidade da minha pacata
rotina no dia seguinte.(do livro FANTASIAS DE UMA FÃ)
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